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OPINIÃO

Como as fanfics ajudam a psicanálise a tratar o mal-estar de pacientes

Fanfic é a prova de que a oposição entre realidade e fantasia não é linear Imagem: Road Trip with Raj/ Unsplash
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Christian Dunker

17/05/2022 04h00

Fanfics é o nome dado a continuações de livros, filmes ou séries por meio da qual os fãs criam versões alternativas ao roteiro original.

Uma fanfic pode cruzar universos diferentes —por exemplo Jornada nas Estrelas e a Bíblia—, pode reunir narrativas diferentes de um mesmo universo —por exemplo, Minnie casando com Zé Carioca (no mundo Disney)—, pode criar fins diferentes para Game of Thrones, ou um spin off, no qual Shrek era na verdade um descendente de Thor, o Magnífico.

Assim como os fandonms, clubes de apoio organizado a um ator ou personagem são majoritariamente formados por homens, as fanfics são, em 51% dos casos, elaboradas por mulheres.

A prática da fanfic assumiu recentemente um uso psicoterapêutico inusitado.

Como investigamos já há algum tempo, no Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, uma das diferenças mais significativas entre as formas de sintoma, descritas pela psicanálise, na aurora do século 20 e os pacientes que nos procuram hoje parecem ser os casos de perturbação da função nominativa e dificuldade na composição de extensão da narrativa do sofrimento.

Isso se caracteriza por uma dificuldade de contar a própria história de vida em seus nexos com a história dos sintomas, não porque eles sejam inexistentes, mas porque em vez de se apresentar em forma narrativa, nossos pacientes de hoje frequentemente descrevem seu mal-estar.

Eles sensorializam situações de desconforto, sentem dor e angústia, mas isso não se apresenta em uma história dotada de autoria.

Daí que frequentemente redes sociais sejam usadas para propiciar uma espécie de reconhecimento por identificação.

Os casos reais de transporte da literatura para a psicopatologia não são poucos:

  • O sadismo homenageia o autor de "A Filosofia na Alcova";
  • Masoquismo o criador de "A Vênus das Peles";
  • O bovarismo a inesquecível personagem de Flaubert que queria "tornar-se outra pessoa";
  • Síndrome de Diógenes, cujo homônimo grego era conhecido pelo desleixo consigo e acumulação de objetos;
  • Sem falar no fabuloso e inacreditável barão de Münchausen, que dá nome ao transtorno do qual a pessoa induz, voluntariamente, sintomas em si mesma.

O fenômeno da identificação de modalidades de sofrimento com tipos de narrativa é bastante antigo e justifica a observação freudiana de que não haveria terreno psicológico onde a literatura e a poesia teria chegado antes de nós.

Mas as fanfics vão muito além da tradicional identificação com heróis e vilões, típicas da leitura e da adesão ao nome que dá forma e unifica uma experiência de sofrimento. Elas permitem a transferência de autoria e a produção compartilhada de suplementos a história original.

É exatamente assim que funciona a fantasia. Ela permite operações como a self-insert, pela qual a própria pessoa se torna um personagem a contracenar com Marilyn Monroe ou Bradley Cooper.

A segunda estratégia consiste em combinar universos fictícios com realidade jogando com ambiguidades e passagens entre um e outro. Neste sentido é possível entender como uma obra de Andy Warhol, "Shot Sage Blue Marilyn", alcançou recentemente a cifra de obra americana mais cara já comercializada.

A série tem sua origem quando a atriz Valerie Solanas invade o ateliê de Warhol e lhe pergunta se ela pode fazer um shot, como se diz ambiguamente, para tirar uma fotografia ou atirar com uma arma. Ele responde que sim para a primeira alternativa e recebe uma saraivada de balas, que atingem suas obras, inclusive o referido stencil de Marilyn.

Ora, é esse trançamento entre realidade e ficção que torna a fantasia algo muito diferente da identificação. Na fantasia há sempre uma zona de passagem, um objeto indeterminado, quer por sua forma quer por sua função que se encontra subtraído da realidade e sujeito a um regime de existência peculiar dado pelo fantasiar.

A fanfic é a prova de que a oposição entre realidade e fantasia não é linear, tanto em função deste objeto borrão, mancha ou rasura, típico das ilusões de ótica, quanto porque a fantasia demanda sempre uma espécie de suplemento em ato, como que um próximo capítulo a ser completado por um gesto do próprio sujeito.

Daí que uma fantasia não seja o equivalente de uma representação mental, mas de uma espécie de teatro solitário ou de dança sem par.

Neste sentido, a primeira fanfic teria sido a continuação das aventuras de Dom Quixote, escrita por Cervantes no século 16, mas poderia ter sido um spin off, mostrando a vida de Ulisses ou de Dante, antes de suas viagens fantásticas.

Outra característica que aproxima a fanfic da fantasia é sua tendência ao erotismo e a reformulação de contextos sexual, relacional e amoroso.

Narrativas heterossexuais são revisitadas em termos de homoerotismo, personagens cis são reformatados em versões trans, traços de exuberância viril são diluídos e invertidos por condensações com personagens cotidianos ao autor.

Um bom exemplo de como uma fanfic pode ser reabsorvida ao universo real da literatura é o caso da releitura da série Crepúsculo, mas extraindo da saga todos os elementos ligados a vampiros, lobisomens e demais sobrenaturalidades, e injetando, ao contrário, em uma saga cotidiana, forte carga de erotismo. O resultado é o sucesso fílmico e editorial conhecido como "Cinquenta Tons de Cinza".

Crossovers (cruzamento de universos), slash (romantização), lemon (sexo explícito e detalhado), lime (sexo implícito), universos alternativos, what ifs (e se) vêm sendo utilizados por psicoterapeutas para tratar casos nos quais a inibição da capacidade de fantasiar prejudica sobremaneira o funcionamento psíquico do sujeito.

A leitura e a criação são os dois polos que alimentam nossa capacidade de fantasiar, sem este trabalho de autoria e de leitura, ficamos expostos a uma contração da relação entre passado e futuro, que nos projeta em um presente ampliado, fonte de vulnerabilidade genérica para processos ansiosos e depressivos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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