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Blog do Dunker

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Falta empatia no nosso mundo digital, mas você sabe o que isso significa?

Brother"s photo/ Pexels
Imagem: Brother's photo/ Pexels
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

19/02/2021 04h00

Aqueles que se dedicam a estudar a cultura digital vem apontando uma série de medidas protetivas contra alguns de seus efeitos mais frequentes: evitar o anonimato e construir uma cidadania digital, ajustar tempo de tela, reagir ativamente diante do cyberbullying, assegura-se da segurança e da privacidade, perceber truques óbvios de coerção e viés de leitura. Tudo isso dependeria, em última instância, desta enigmática atitude há tanto tempo perseguida por filósofos e educadores, conhecida como pensamento crítico [1].

Como sói acontecer na internet, para tudo que é bem feito, custa caro e dá trabalho existe uma versão ilegal, que funciona quase bem e é fácil de arrumar.

Isso vale também para o pensamento crítico, afinal ele pode ser facilmente confundido com pensamento opositivo, denúncia, ou ajuizamentos, desprovidos de mediação, argumentação ou ponderação.

Por exemplo, no fenômeno do cancelamento, muitas vezes apenas invertemos o sinal de nossa relação com o outro, de amor e ódio, sem efetivamente dar espaço para o ponto de partida do pensamento crítico: a dúvida, o intervalo, a incerteza e a ponderação da complexidade envolvida no caso. Ou seja, podemos continuar a operar como um juizado de pequenas causas, incluindo rapidamente cada caso em uma regra e invertendo a regra de vez em quando.

O crítico é em certa medida um paranoico reformado, ou seja, ele usa todas as artimanhas e desconfianças que o paranoico projeta no outro para construir seus inimigos imaginários, em si mesmo. Em vez de procurar irracionalidade nos outros, ele a espreita em si mesmo.

Esse procedimento de recuo para si é fundamental tanto pelos efeitos diretos que pode causar quanto pelo benefício secundário que isso traz consigo.

Diante de uma atrocidade, de uma tolice ou de uma inconsequência feita pelo outro, o crítico se perguntará: "sob quais condições eu mesmo teria agido assim?" E ao fazer esta pergunta ele perde tempo, ou melhor, em vez de julgar imediatamente ele desacelera, em vez de confirmar a perspectiva da situação ele a altera. Quando nos damos tempo, seja para responder aquele email malcriado, seja para comentar aquela foto bizarra no Instagram, evitamos grande parte dos desastres mais óbvios nas plataformas digitais.

Percebemos assim que o trabalho crítico exige uma habilidade, frequentemente tida como emocional simplesmente porque ela se associaria com a partilha de sentimentos, ou seja, a empatia.

Se a atitude crítica envolve "colocar o outro no seu lugar", e não apenas "colocar-se no lugar do outro" (como faz o paranoico clínico), estou afirmando que a empatia faz parte do pensamento crítico.

Talvez seja da combinação entre as duas que Freud inventou a psicanálise. Atenção ao nome da coisa: "análise" e não "síntese" ou "enumeração" (para retomar aqui os três critérios do método segundo Descartes). Análise quer dizer decomposição, redução a elementos mais simples, descoberta das propriedades e relações que existem em um objeto ou ideia. Fica aqui a dica: desconstruir não é suficiente para transformar, é preciso, além disso, empatia.

Uma cultura da empatia não é uma cultura da leniência nem da amorosidade irrestrita, pelo contrário, ela depende da capacidade produtiva de suportar altas densidades de autocrítica. Como mostrei em outro lugar [2], empatia não é uma noção primordialmente psicológica, mas estética. Ela referia-se ao poder que certas imagens possuíam de gerar "movimento", de mover junto, ou ainda de co-mover.

Isso era um problema quase técnico para a pintura realista e romântica, problema que está nas origens do impressionismo na pintura e na música. É pelo fato de que nossas emoções também envolvem um impulso para a ação, o motor ou "motus" que o laço com o campo dos afetos se consagrou.

Lipps, Brentano e Robert Vischer, os inventores da noção de empatia, no final dos séculos 19, descreveram-na como uma espécie de imitação interna a que somos conduzidos por certas imagens, como se estas fossem dotadas de vida própria e gerassem um sentimento comum com quem as observa. Eles chamaram isso de Einfühlung (o sentir um), termo que mais tarde foi traduzido ao inglês como empathy, por um dos fundadores menos conhecidos da psicologia: Titchner. Portanto, o conceito não tem nada que ver com os gregos, nem com a mimese clássica.

Enquanto os críticos de arte sugeriam que por meio da empatia (Einfühlung) o self era objetivado nas obras de arte, os psicólogos da personalidade afirmavam que, durante o processo de empatia, um objeto qualquer era subjetivado pela percepção do observador [3].

Várias características do ambiente digital contrariam o que as pesquisas empíricas sobre a empatia sugerem ser essencial para seu aparecimento: presença da face do outro, tempo para interpretar não apenas os afetos externalizados pelo outro, mas a relação que o outro mantém com os seus próprios afetos, emoções e sentimentos e crucialmente o espelhamento etiológico dos afetos, descrito por Freud, em seus textos sobre o humor e sobre o funcionamento coletivo das massas.

A empatia não é a efusão de afetos idênticos, a afinidade sobreposta de gostos ou o apoio massivo a posições, modos de se comportar ou emitir opiniões. Isso tudo pertence mais ao campo da simpatia, das afinidades eletivas e das identificações do que ao da empatia, onde a diferença entre um e outro é o ponto de partida para este duplo processo de subjetivação da imagem, e de imaginarização do sujeito cujo resultado é a formação de um laço simbólico entre ambos.

Como professor de psicopatologia esta é uma das habilidades primárias que espero de nossos alunos, ou seja, que a cada aula cada um se reconheça como histérico ou obsessivos, fóbico ou esquizofrênico, pois se não encontramos nossa própria loucura na loucura alheia não poderemos jamais acolhê-la como realmente nossa. Isso vale para a maldade, o egoísmo e todos os sentimentos tidos como "inconvenientes".

Mas até aqui exercitamos nos colocar no lugar do outro e com isso nos aproximarmos do sofrimento do outro. Claro que podemos parar aí e simplesmente nos apropriarmos do sofrimento alheio para suturar o nosso, como se ao educar, controlar, silenciar ou administrar o outro tivéssemos domesticando a nós mesmos.

A empatia começa depois disso, ou seja, quando nos deixamos afetar pelo que no outro é outro e deixamos para trás nossa orientação para colonizá-lo com discursos, interpretações e antecipações de sentido.

A empatia se dá com relação ao que o outro não percebe em sua própria imagem, não no traço ou imagem que é suporte de sua demanda de reconhecimento.

A empatia nos move justamente porque se refere à divisão subjetiva que o outro não consegue "integrar" e que nos afeta em nossa própria divisão e em nossa própria falta. Daí que seja a angústia o afeto fundamental da empatia e não o acolhimento festivo.

Neste momento somos convocados, mais além de nossa identidade, mais além de nossos interesses, naquilo que é também nosso desconhecido e nossa loucura. Uma resposta empática advém neste ponto em nos dedicarmos ao trabalho compartilhado de dar nome aos estados informulados do espírito, ao trabalho íntimo e comum de procura pela forma.

Quando se trata de empatia o que se diz se relaciona com a forma como se diz, produzindo um efeito que a gente "ouve", com os olhos e ouvidos, mas também um efeito de que "houve" um encontro.

Não há nada que impeça isso de acontecer em meio digital, mas todas as facilidades em termos de rapidez, anonimato e praticidade, que a esfera digital nos oferece, tem que ser desconstruída para que a empatia e a crítica ressurjam de seus escombros.

REFERÊNCIAS

[1] Benvenutti, Maurício (2019) Consciência Digital. São Paulo: Caroli.

[2] Dunker, C.I.L. & Thebas, C. (2019) O Palhaço e o Psicanalista: como escutar pessoas pode transformar vidas. São Paulo: Planeta.

[3] SAMPAIO, Leonardo Rodrigues; CAMINO, Cleonice Pereira dos Santos and ROAZZI, Antonio. Revisão de aspectos conceituais, teóricos e metodológicos da empatia. Psicol. cienc. prof. [online]. 2009, vol.29, n.2

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL