Topo

"Não desistam", diz garota alvo de machismo em partida de "Rainbow Six"

Vítima de machismo em partida de "Rainbow Six", Lara Lauer espera que seu caso sirva para mais meninas exporem situações do tipo - Reprodução
Vítima de machismo em partida de "Rainbow Six", Lara Lauer espera que seu caso sirva para mais meninas exporem situações do tipo
Imagem: Reprodução

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL Jogos

20/09/2018 04h00

O que era para ser uma partida divertida de "Rainbow Six Siege" entre amigos na madrugada do último dia 8 não acabou nada bem para a estudante Lara Lauer, de 20 anos. E aqui não falamos de algo que pudesse ser normal, como a equipe dela sair derrotada de uma partida ou a garota ter um desempenho pior do que estava acostumada.

Em um determinado momento, um rapaz que integrava o time de Lara - e que não era conhecido de ninguém da equipe - acabou atirando contra a personagem da garota. O motivo? O simples fato de ela ser uma mulher.

VEJA TAMBÉM

"Antes disso ele tinha sido salvo por mim após cair em uma armadilha. Quando eu acabei atingida por engano e ele foi me salvar, fiz uma brincadeira pelo microfone", conta Lara.

Ao ouvir minha voz e descobrir que eu era mulher, ele atirou em mim, me matou no jogo e começou a me xingar

Lara Lauer

Na ocasião, a garota fazia um streaming da partida em seu canal no Twich. No trecho publicado posteriormente por um amigo dela, é possível ouvir claramente que o agressor fala: "Puta, você é uma mulher? Vagabunda". Em seguida, atira contra a personagem de Lara, tirando ela da partida.

A reação de Lara, como o próprio vídeo mostra, é, inicialmente, de perplexidade. Em seguida, choro.

"Eu me senti extremamente chateada, ainda mais porque eu ajudei ele primeiro. Ele me matou porque eu era mulher, fazia muito tempo que isso não acontecia comigo. Isso é uma coisa que machuca, sabe?", lembra.

Ela conta que, depois disso, encerrou a transmissão ao vivo e disse para os amigos em um grupo de WhatsApp que não continuaria o streaming e que nem sabia se voltaria a fazer isso. "Eu desconectei. Simplesmente sumi. Meus amigos tentaram me ligar, mas eu não queria conversa. Queria apenas ficar quieta, no meu quarto, tentando digerir tudo que aconteceu".

Não foi a primeira vez

Infelizmente, casos do tipo são comuns. Aqui no UOL Jogos já relatamos situações nas quais garotas são xingadas ao jogarem um game e também encontram obstáculos adicionais quando querem entrar no meio competitivo.

Além disso, a presença de mulheres como personagens em jogos já resultaram em manifestações machistas, no mínimo, lamentáveis, como a ocorrida após a EA revelar que "Battlefield V" teria uma mulher entre seus personagens principais.

Com Lara, infelizmente, não poderia ser diferente. "Eu parei de jogar 'Counter-Strike' porque, simplesmente, pessoas do meu time me matavam quando descobriam que eu sou mulher. No "Rainbow Six" eu costumo jogar em grupos fechados, mas sempre que jogo partidas casuais também acontecem situações do tipo", conta, dizendo que adora games multiplayer, mas esse tipo de problema acaba fazendo com que ela acabasse migrando para games de um jogador.

Males que vêm para bem

Se a ideia do agressor de Lara era fazer com que a garota não jogasse mais, o tiro saiu pela culatra. "Quando eu acordei no dia seguinte, eu estava irreconhecível. Meus amigos me incluíram novamente no nosso grupo de WhatsApp e mandaram mensagens de apoio, mas eu não estava muito a fim de responder. Quando eu vi que um amigo meu publicou o trecho do streaming com a agressão, eu fiquei receosa e já imaginava que viriam mais ataques gratuitos contra mim. Afinal, eu conheço como a comunidade gamer costuma reagir a certas situações", explica.

O que Lara encontrou ao ver os comentários sobre o vídeo publicado pelo seu amigo, felizmente, foi carinho e apoio. "Todo mundo estava apoiando, me dando força, me incentivando a voltar a jogar. Eu fiquei sem saber como reagir, porque eu estava aqui, com a cara toda inchada, super frustrada e magoada, mas ao mesmo tempo eu estava recebendo mensagens maravilhosas de pessoas que eu nunca tinha visto na vida e estavam sendo incríveis".

"Eu tenho certeza que isso entra na categoria 'males que vêm para bem', não só por mim, mas também pelo que aconteceu horas depois. Algumas pessoas vieram dizer que era vitimismo e, em resposta a isso, outras meninas vieram contar os seus casos. Eu me senti melhor por ver que o meu caso fez com essas meninas também desabafassem e mostrassem que esse é um problema geral".

Eu me senti muito mal na hora, mas hoje eu me sinto incrível! Conheci tantas pessoas maravilhosas e todo o retorno que estou ganhando é incrível

Eu me senti muito mal na hora, mas hoje eu me sinto incrível! Conheci tantas pessoas maravilhosas e todo o retorno que estou ganhando é incrível

Lara Lauer

Não desistam

Infelizmente, nem todos os casos acabam como o de Lara que, inclusive, deixou de lado a ideia de desistir de fazer streaming. "Eu sei que o meu caso teve repercussão, mas eu também sei que tem muita menina que passou por isso e ficou quieta, escondida. O que eu quero dizer para quem passa isso é para não se conterem, colocar para fora e expor que esse tipo de situação acontece. E o principal: não desista"

Para ela, é importante expor esses casos porque dá força não apenas para quem passa por isso, mas também para gerar empatia na comunidade e gerar uma espécie de "corrente do bem".

"Diversas pessoas que me criticaram acabaram mudando de opinião depois que alguém foi falar com elas e explicar a situação. Eu fui ajudada e estou aqui para ajudar quem precisar. E temos que lembrar que há umas cem pessoas boas para cada uma que te deixa para baixo".

Outro ponto que Lara levanta é a necessidade de uma postura mais incisiva da parte de homens que presenciam esse tipo de comportamento. "Na ocasião, meus amigos não reagiram e eu me senti impotente. É importante que os homens também reajam, não fiquem quietos. É bem simples".

Dificilmente o caso de Lara será o último do tipo. Ainda assim, diante da reação de boa parte da comunidade em seu apoio, é possível vislumbrar que, um dia, o simples fato de ser mulher não irá tornar nenhum game mais difícil para elas.

Mais Start