Tiro nas pirâmides? Traições? O que é real e o que é ficção em 'Napoleão'

"Napoleão", novo drama épico do cineasta Ridley Scott, destrincha a meteórica ascensão do militar francês, vivido no longa por Joaquin Phoenix, de forma incomum.

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As escolhas de Scott, que vêm sendo problematizadas por críticos, pela imprensa e por estudiosos do tema, culminam em um trabalho bastante autoral e polêmico - desde as cenas impressionantes de batalha, típicas do diretor, até o abandono proposital do rigor histórico, para dar lugar a uma versão humanizada e controversamente particular de Napoleão.

Embora a produção retrate fatos que marcaram as Guerras Napoleônicas e a vida pessoal do estadista, segundo os historiadores, algumas passagens do filme jamais aconteceram. Confira o que é ficção e o que é real em "Napoleão":

Bonaparte não assistiu à execução de Maria Antonieta na guilhotina

A primeira cena do longa é ambientada durante o Período do Terror, uma das fases mais violentas da Revolução Francesa, mais precisamente no mês de outubro de 1793. A passagem mostra a rainha Maria Antonieta a caminho da morte, alguns minutos antes de perder a cabeça na guilhotina, em Paris.

Quem está assistindo à execução é Napoleão, embora historicamente sua presença seja questionada: ao Telegraph, Émilie Robbe, curadora do Museu do Exército de Paris, local de sepultamento de Napoleão, aponta outra versão.

Napoleão estava participando do Cerco de Toulon, operação militar que aconteceu entre setembro e dezembro daquele ano. A cidade de Toulon fica a mais de 800 quilômetros de Paris, e não há registro de deslocamento de Bonaparte durante esse período.

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Napoleão atirou nas pirâmides do Egito?

"Napoleão tinha a Esfinge e as pirâmides em alta estima e as usou como uma forma de elevar suas tropas a uma glória maior. Ele definitivamente não atirou nelas", explicou a professora de egiptologia Salima Ikram ao The New York Times.

Além de ser descrito como um homem que admirava a cultura e a simbologia milenar do Egito, não há nenhum registro oficial do ataque. "Não sei se ele fez isso", disse Scott ao The Times. "Mas foi uma maneira rápida de mostrar que ele conquistou o Egito", concluiu o diretor, justificando sua licença criativa.

Josefina não foi a única infiel

Interpretada no longa por Vanessa Kirby, a primeira esposa de Napoleão, Josefina de Beauharnais, realmente viveu rodeada por amantes. Xavier Roca-Ferrer, tradutor do livro "As Guerras Privadas do Clã Bonaparte", que narra as memórias da Madame de Reìmusat, companheira da imperatriz, explica que a descoberta dos casos extraconjugais enfureceu Napoleão, exatamente como o filme retrata:

"Um dia, em julho de 1798, enquanto se dirigiam ao Cairo sob um sol escaldante, seu amigo e então brigadeiro, Junot, revelou a Bonaparte as infidelidades públicas de sua amada e lhe falou sobre Hippolyte Charles", contou Roca-Ferrer, à BBC.

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Segundo ele, Bourrienne, o secretário particular de Napoleão, relatou que o general se revoltou com a notícia: "Suas feições se convulsionaram, uma expressão selvagem apareceu em seus olhos e ele começou a bater na cabeça com os punhos", descreveu.

Contudo, embora Ridley Scott tenha omitido em sua versão, Napoleão também não foi fiel a Josefina durante o casamento. No filme, Bonaparte chega a confessar alguns de seus casos, embora a ausência de cenas que evidenciem tais traições coloque o público em dúvida. Porém, de acordo com o livro "A Era de Napoleão", do historiador Alistair Horne, as infidelidades não foram pontuais.

Em uma das vezes, que se tornou pública, Napoleão se deitou com a atriz Marguerite George, com quem fez sexo à exaustão. Desmaiado, ele foi flagrado por Josefina, que precisou reanimar o marido e expulsá-lo do quarto.

Napoleão não era de uma família pobre

Embora a frase "ele veio do nada e conquistou tudo", estampada nos cartazes do longa, aliada aos modos grosseiros de Napoleão no filme, deem a entender que o militar possui uma origem humilde, isso não procede.

Os Bonaparte, segundo o historiador britânico Dan Snow, viviam em uma mansão na ilha da Córsega, onde Napoleão nasceu e cresceu. Carlo Bonaparte, seu pai, foi representante de Córsega na corte do rei Luís 16, e a família descendia de nobres toscanos que imigraram para a ilha no século anterior.

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Bonaparte coroou realmente a si?

É visível o espanto dos presentes na cena em que Napoleão surpreende o clero, em plena Catedral de Notre Dame, toma para si a coroa e a coloca na própria cabeça, declarando-se Imperador Napoleão 1º da França.

O filme explora esse momento, repleto de ritos e suntuosidade. Pinturas como a "Le Sacre de Napoléon", obra do artista francês Jacques-Louis David, retrata a cerimônia, ocorrida em 2 de dezembro de 1804.

Quais foram as últimas palavras de Napoleão?

No longa, depois que Bonaparte desmaia sem vida durante seu exílio na ilha britânica de Santa Helena, um texto explica que, antes de partir, ele teria citado a França, o exército e, é claro, sua amada Josefina.

Embora o relacionamento do casal tenha tido altos e baixos na ficção e na vida real, a paixão avassaladora de Napoleão por Josefina é o que guia o roteiro de David Scarpa. Assim, nada mais justo do que atribuir esses dizeres aos últimos suspiros do protagonista.

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Não é exatamente um devaneio criativo ou um atalho melodramático, já que o General Charles de Montholon, presente no momento da morte do estadista, disse que "Josefina" foi a última palavra pronunciada por Napoleão:

"A noite foi muito ruim: por volta das duas horas, o delírio tornou-se evidente e foi acompanhado por contrações nervosas. Por duas vezes, pensei ter distinguido as palavras desconexas: França, Exército, frente do Exército? E Josefina", relatou Montholon, segundo o livro " History of the Captivity of Napoleon at St. Helena".

Entretanto, registros de outras testemunhas, como o General Henri Bertrand, o médico Francesco Antommarchi e o criado Louis Étienne Saint-Denis, afirmam que o militar relembrou de seu país e de seu filho no leito de morte, e não citam a menção à ex-esposa. Os relatos imprecisos tornam ainda mais difícil afirmar o que de fato Napoleão disse em seus últimos momentos.

O elenco de "Napoleão" ainda é formado por Tahar Rahim, que interpreta o líder revolucionário Paul Barras, além de Ben Miles, Ludivine Sagnier, Matthew Needham, Youssef Kerkour, entre outros grandes nomes.

A superprodução estreou no dia 23 de novembro nas telonas do Brasil e segue em cartaz nos cinemas.

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