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Antes de viver nas ruas, poeta Eugênio Ramos Gianetti foi músico

Eugênio Ramos Gianetti - Keiny Andrade/Uol
Eugênio Ramos Gianetti Imagem: Keiny Andrade/Uol

Mauricio Duarte

Colaboração para Splash, de São Paulo

19/01/2021 04h00

Esta é a história da viola esquecida de um poeta. A viola é ao mesmo tempo instrumento musical e símbolo de um passado lentamente desbotado pelo excesso de bebida e pela brutalidade das ruas. O poeta é Eugênio Ramos Gianetti, personagem de uma reportagem especial de Splash, que aos 68 anos vive entre as ruas de São Paulo e albergues públicos, enquanto lida com o alcoolismo.

Como uma matrioska, aquela boneca russa que contém outras, Eugênio parece encapsular talentos ocultos, que foram obscurecidos pelo embrutecimento da vida de sem-teto. Não por acaso, quando questionado sobre suas influências literárias, cita o português Fernando Pessoa, poeta que era vários, famoso por seus inúmeros heterônimos.

Assim é descortinado o passado musical de Eugênio.

Antes de se dedicar unicamente à poesia e morar definitivamente nas ruas, ele foi um instrumentista e compositor promissor.

"Ele participou comigo de um grupo musical em 1976, 1977. Um grande violonista, andava sempre com a viola dele. O grupo se chamava Casulo de Pedra. Já faz uns 23 anos que não o vejo", conta o ator e músico Luiz Carlos Bahia.

Com uma longa carreira no cinema, teatro e televisão, Bahia, hoje com 69 anos, conheceu Eugênio logo que chegou a São Paulo vindo de Salvador. "Ele morava perto do teatro onde eu ficava. Viramos amigos, frequentava a casa dele", lembra. Chegaram a compor canções em parceria, mas os registros se perderam.

Por coincidência, Bahia idealizou recentemente um curta-metragem chamado "Reimundo", cujo protagonista é um andarilho que tenta ser ouvido por meio da poesia. "Um amigo me mostrou a reportagem do Eugênio, dizendo 'olha aí o seu Reimundo'. Quando vi, era meu amigo. É uma coisa estranha que eu sinto", diz.

Além de composições para peças teatrais, Eugênio chegou a tocar viola na trilha do filme "O Baiano Fantasma", de 1984, dirigido pelo cineasta Denoy de Oliveira e que tem Bahia no elenco. O próprio Eugênio chegou a fazer uma ponta em uma cena, em que aparece subindo uma escada. Na ficha cadastral do filme na Cinemateca Brasileira, seu nome consta nos créditos musicais, mas com a grafia errada: Gianete.

Eu convivia bastante com esse pessoal da música, mas a vida foi tomando outro rumo. Faz muitos anos que não vejo ninguém. A última vez que toquei viola deve fazer mais de 20 anos. Éramos inseparáveis. Agora mal ouço música, até porque estou meio surdo. Foco mais nos livros mesmo.

Eugênio Ramos Gianetti

Na década de 1980, Eugênio era figura cativa no bar Amigo Giannotti, no Bixiga, famoso bairro da capital paulista. Trabalhava durante o dia como revisor em uma editora e na parte da noite frequentava o local. Reduto de artistas, jornalistas e boêmios de toda ordem, o lugar costumava ficar lotado para ouvir a viola do poeta. Quem lembra é o músico Marcos Siqueira, 54, frequentador do bar até hoje:

"Naquela época a efervescência cultural de São Paulo concentrava-se ali. Muitos bares com música ao vivo, teatros, livrarias, restaurantes italianos, artesanato nas calçadas. O dono do bar, Antônio Giannotti, permitia que os frequentadores tocassem e cantassem lá, o que atraía muita gente. Eu sempre levava meu violão. E foi numa dessas noitadas que conheci um cabeludo, parecido com o Alceu Valença, empunhando uma viola caipira de 10 cordas".

A viola era o xodó de Eugênio. Quase ninguém tinha permissão de tocá-la. Marcos era uma exceção. "Sempre que ele ia ao banheiro ou precisasse que alguém segurasse a viola, ele a confiava a mim". Temperamental e quase sempre umas doses acima do recomendável, se alguém a pegasse à sua revelia, ele simplesmente a tomava de volta e ia embora, sem dar satisfações.

Filho do dono do bar, José Batista, 56, foi a figura mais próxima de Eugênio nessa época. "Um dia cheguei lá com uma peruca e um vestido vermelho e nós fizemos um dueto. Aquilo pegou. Aí continuamos nessa brincadeira. Assim foi que a gente começou a se enturmar, fazer uma série de coisas juntos. Inclusive fizemos um show no teatro Brahma, que era perto do Centro Cultural Vergueiro. O show se chamava 'Avoante'. Era eu e ele no palco e o cenário era um bar. Ele tocava algumas músicas de autoria dele". Infelizmente, não há registros de gravação do espetáculo.

Eugênio acredita que a poesia e a música dialogam em sua obra, embora nunca tenha musicado seus poemas publicados.

A musicalidade tem a ver com a fluidez do verso. A estrutura do poema precisa obedecer a certo ritmo. Nesse sentido, ter um conhecimento musical pode ajudar um pouco.

Curiosamente, mesmo essa parte musical sendo muito marcante em sua biografia, ela não aparece na obra literária.

"Não sei dizer se é uma tentativa de apagar esse momento da vida. Só não sinto a necessidade de abordar esse tema".

Passado

Quando criança, Eugênio vivia com a família no município de Suzano, em um bairro chamado SESC - uma comunidade com 413 habitações, criada em 1960 para comerciários cadastrados em uma entidade de classe. Eram sorteados com uma casa para pagar em 20 anos. A família Gianetti mudou-se toda para lá: o contador José Gianetti, a dona de casa Terezinha Gianetti e seus três filhos: Eugênio, Regina e Gabriel.

Atualmente com 60 anos, seu irmão caçula segue morando nessa mesma casa. "Ele sempre foi um garoto antenado e trazia novidades para o pessoal aqui da região. Tinha dons já desde cedo", diz Gabriel Gianetti, que mostrou ao repórter uma raridade: um exemplar do primeiro livro editado por Eugênio, o romance "O Rio do Tempo", que teve tiragem modesta em 1978.

Na capa, consta ainda o nome de batismo do escritor: José Eugênio Gianetti Jr. "O Ramos veio depois, é artístico". Os irmãos mantêm contato esporádico, mas não se veem desde o início da pandemia. Os pais e Regina já faleceram.

Na vizinhança, o garoto meio tímido, de óculos fundos, aros grossos e pretos, já demonstrava suas aptidões artísticas, especialmente para a música. Era comum vê-lo vagando com um violão e um livro.

Foi o responsável por apresentar os Beatles aos colegas e chamar sua atenção para a guerra do Vietnã. Em 1969, chegou a participar de um festival de música popular em Poá com uma canção autoral, mas não chegou às finais.

Vizinho de Eugênio na infância, o engenheiro Nelson Orsalino, 65, foi escoteiro com o amigo. "Ele ficou pouco tempo no escotismo. Isso foi no final da década de 1960. Mas ele era mesmo um garoto diferenciado, sempre com um interesse aguçado por arte, música, livros", comenta.

Tempos depois, a família Gianetti se mudou para a capital, onde Eugênio viveu o final da adolescência, na região do Brás.

Posteriormente, retornaram para a mesma casa, em Suzano. Na vida adulta, já perdendo a batalha contra a bebida, separado da esposa com quem teve duas filhas e sem emprego, ainda vivia sob o mesmo teto, embora passasse os dias perambulando pela cidade, de bar em bar. No entanto, a morte da mãe foi o baque que o levou definitivamente a não voltar mais para casa. "Ele era muito apegado a ela", conta Gabriel. A partir daí, cortou todo e qualquer laço com sua vida pregressa.

"Era um sentimento de tristeza saber dessa condição dele. Porém, não sabíamos onde encontrá-lo. Além do alcoolismo, parece que havia uma insatisfação dele com tudo e com todos. Não sei se ele queria ser encontrado", diz Marcos Siqueira.

O álcool potencializava o temperamento forte e, por vezes, sombrio de Eugênio. Batista tentou ajudá-lo, sem sucesso. "Foi um choque quando eu soube que ele estava na rua. Uma pessoa com o talento que ele tem. Ele chegou a ficar um tempo na minha casa, acomodado. Mas ele é uma pessoa difícil, logo quis ir embora".

'Bebi a viola'

O período mais crítico de Eugênio vivendo nas ruas não poupou nem mesmo sua tão estimada viola. "Eu bebi a viola", relata. Contudo, isso não quer dizer que ele se desfez dela para comprar álcool. Justamente por estar constantemente embriagado e dormindo ao relento, teve seu instrumento roubado. O mesmo fim de vários poemas que se perderam em mochilas extraviadas.

Ainda antes do início da pandemia, Eugênio conseguiu arrumar uma nova viola. O estado dela não é dos melhores, mas ele pretendia retomar a prática depois de mais de duas décadas sem tocar uma nota sequer. O novo coronavírus e o confinamento, no entanto, o desestimularam. Ela segue encostada no seu quarto, no abrigo em que está dormindo. "Não sei se ainda estou em forma. Perdi todo o contato com o instrumento", explica.

Apesar de tudo, o escritor rechaça qualquer resquício de autocomiseração. Segundo diz, nunca foi uma pessoa de lamentações, que considera piegas.

Não quero que achem que minha vida é dramática. É a vida, simplesmente. Quero continuar lendo, escrevendo e bebendo. Já está bom.

Quando fazia parte do conjunto Casulo de Pedra, nos anos 1970, Eugênio compôs uma música com esse mesmo título. Segundo Bahia, havia um verso na letra que dizia o seguinte: "quero tecer um casulo de pedra, para esconder o tempo". É o que o poeta vem tentando fazer desde então. "Já tive meus momentos expansivos, já fui borboleta. Hoje sou um caramujo".

E a viola, seja lá onde ela estiver, é o casulo.