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Há 25 anos, um desenho 'posou nu' e foi capa de revista masculina no Brasil

Capa da revista Sexy com Drag Car
Capa da revista Sexy com Drag Car
Reprodução

Emanuel Colombari

De Splash, em São Paulo

19/09/2020 04h00

Talvez você não se lembre, mas, há 25 anos, a revista Sexy chegou às bancas com uma aposta inédita no Brasil, que se tornou objeto de relativo culto entre colecionadores do gênero. Afinal, a edição de setembro de 1995 trazia na capa uma mulher que, bem, não existia de verdade: era um desenho animado chamado Drag Car.

Drag Car, capa da Sexy de setembro de 1995 - Reprodução - Reprodução
Drag Car, capa da Sexy de setembro de 1995
Imagem: Reprodução
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Ela era uma evolução de Clarimunda, uma das personagens da chamada Turminha Brava —que, por sua vez, eram os vilões combatidos pelo Detetive Bardahl entre as décadas de 1950 e 1990. Em 1993, os desenhos originais feitos nos Estados Unidos foram atualizados no Brasil pela agência de publicidade Denison Propaganda, dando origem à Motor Gang, que estrelava campanhas da marca de óleo.

Mario Galvão, presidente da Bardahl na época, com um pessoal nosso da Denison, quis modernizar, adaptar as figuras para um momento mais atual. Foram traços mais para o mercado local do que para fora. Sergio Amado, então presidente da agência de publicidade, em conversa por telefone com Splash

Foi aí que Clarimunda, criada em 1963, deu lugar à vilã Drag Car. Lembra muito a Jessica Rabbit --a ruiva do filme 'Uma Cilada para Roger Rabbit' (1988), não?

Foi neste cenário que a revista Sexy teve a ideia: e se a gente botasse essa "mulher" na capa?

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É bom que se diga: a Drag Car foi o primeiro desenho animado a posar nu para a capa de uma grande revista masculina no Brasil, mas não a primeira personagem desenhada ao natural em publicações por aqui. Antes dela, por exemplo, a Radical Chic de Miguel Paiva "posou" nua para um ensaio secundário na Playboy, em 1993.

Radical Chic, personagem de Miguel Paiva - Reprodução - Reprodução
Radical Chic, personagem de Miguel Paiva
Imagem: Reprodução

Como é que surge uma ideia assim? A resposta: provavelmente com álcool e mentes inquietas.

A Sexy se caracterizava por ser a última das revistas feitas em boteco. Ali, à noite, havia 15 mesas. Ia chegando a turma e essas mesas de madrugada se juntavam. Virava uma reunião de pauta. Muito provavelmente essa capa nasceu ali. Palmério Dória, editor da revista à época

Mas aí, com a ideia em mente, era preciso tirá-la do papel. Ou melhor: colocá-la no papel.

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Em uma época na qual a internet comercial ainda engatinhava no Brasil, a Sexy precisou achar um caminho para colocar Drag Car em sua capa. O primeiro passo, é claro, foi fazer o convite.

Então, pegamos o telefone, ligamos para a agência. Eles se empolgaram com a ideia. Palmério Dória

Sergio Amado lembra da negociação, mas sem detalhes. O que ele recorda é que o ensaio foi "gratuito": a Sexy não recebeu das empresas, e Bardahl e Denison não receberam cachê. Um baita negócio de troca para todas as partes.

Com as partes de acordo, era hora de colocar a mão na massa. Sem a tecnologia de 2020, os desenhos tiveram que ser feitos de maneira praticamente artesanal. Tomou um bom tempo e resultou em um ensaio relativamente curto: uma ilustração de capa, duas "fotos" e um ou outro desenho dentro da revista.

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O próprio desenhista, Iran, cuidava da personagem na agência e fez o trabalho. Ele se envolveu com a gente diretamente. Criou um clima paulistano, tornou São Paulo uma cidade charmosa junto com ela. De certo ponto de vista, São Paulo é uma cidade feia, mas ele fez com a Drag Car uma cidade padrão americano. Palmério Dória

Drag Car em ensaio da Sexy de 1995 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Mas também houve uma 'coisa jornalística'. Protagonista do ensaio, Drag Car deu uma entrevista à revista, obviamente cheia de referências automotivas.

Questionada sobre os drinks preferidos, disse preferir "todos de altíssima octanagem". Contou também não usar lingerie. "Eu frequento lugares muito apertados e quentes. Vocês já tiveram de invadir um motor pelo glicê?", questionou. Entre outras coisas.

OK, mas quem perguntou e quem respondeu?

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A entrevista foi feita pelo próprio Palmério e por Licínio Rios, outro editor da Sexy na época. Para encorpar a narrativa, os dois inclusive foram fotografados com o Detetive Bardahl em uma "caçada" por Drag Car na noite paulista.

Essa ideia inusitada fez história -tanto que estamos falando sobre ela 25 anos depois-, mas as vendas não foram lá essas coisas.

O jornalista Palmério Dória e a Sexy de Drag Car - Emanuel Colombari/UOL - Emanuel Colombari/UOL
O jornalista Palmério Dória e a Sexy de Drag Car
Imagem: Emanuel Colombari/UOL

Os publicitários adoraram. Nas grandes agências da época, virou um xodó. A gente sabia que o resultado comercial não seria um estouro de vendas, mas foi uma revista que deu satisfação de pegar —até pela qualidade, o cuidado gráfico da capa. A satisfação profissional foi imensa. Palmério Dória

Passados 25 anos da publicação daquela edição, Palmério Dória cita a complexidade de Drag Car: uma personagem que transpira sex appeal para vários homens, ao mesmo tempo em que é empoderada e esbanja o feminismo moderno de várias mulheres. Para ele, a mulher perfeita.

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"Falam da tempestade perfeita. E tem a criação perfeita. Porque é evidente que ela passou a frequentar os nossos sonhos também. É aquela mulher inviável, a verdadeira mulher intocável, aquela mulher que você não terá nunca, inatingível", explicou Palmério, que se despediu da reportagem batendo papo e tomando café enquanto folheava a edição da Sexy de setembro de 1995.