Roberto Sadovski

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Opinião

'O Silêncio da Vingança' é retorno tímido de John Woo a Hollywood

O cinema de ação mudou radicalmente nas últimas duas décadas. Coreografias de artes marciais ficaram mais elaboradas, cenas de perseguição ganharam aprimoramento digital, as ferramentas para fazer filmes se modernizaram e os limites da física se tornaram um teto a ser rompido. É um mundo novo. Mas esqueceram de avisar a John Woo.

"O Silêncio da Vingança" marca seu retorno a Hollywood, de onde ele se despediu em 2003 depois de mudar a paisagem do gênero. Em vez de seguir a onda de expoentes modernos da ação como "John Wick" ou "Resgate", espetáculos visuais de extrema precisão, John Woo decidiu ser apenas John Woo. O que antes era cinema de vanguarda, hoje traz o sabor confortável da nostalgia.

É uma sensação agridoce, já que o trabalho de Woo acerta em todos os alvos, mas empalidece ante a dinâmica narrativa de filmes mais modernos. Não é um defeito, e sim uma constatação. O diretor chinês mostra-se confortável em seu elemento, construindo uma trama sustentada não por palavras, e sim por estímulos sensoriais.

Isso acontece, veja só, de forma literal. Não há diálogos em "O Silêncio da Vingança" — é uma experiência absorvida em sua plenitude por meio do movimento, de gestões e, claro, de ação. Existe uma motivação narrativa que justifica a escolha, e como resultado o filme se destaca como uma bela anomalia em meio à paisagem do cinema contemporâneo.

Joel Kinnaman é Brian Godlock, pai de família atingido pelo fogo cruzado numa briga entre gangues rivais O tiroteio faz uma vítima fatal, uma criança, seu filho. O choque o faz correr para alcançar os criminosos, ainda trocando tiros, um jorro de adrenalina que supera a razão.

Mas ele não é páreo para bandidos e balas, e um tiro destrói sua garganta, levando sua voz. O luto domina sua vida, superado tão somente por um profundo desejo de vingança. Brian se torna a sombra de um homem, sua mulher o deixa, seus amigos se afastam. Tudo que ele quer é aplacar suas próprias feridas com sangue.

O barato de "O Silêncio da Vingança" é que o personagem de Kinnaman é um sujeito comum. Não é ex-militar ou membro das Forças Especiais, não é policial casca-grossa ou alguém com "um conjunto bem específico de habilidades". É só um cara, treinando em sua garagem, recuperando sua saúde e traçando um plano para comprar armas, atacar as gangues e, se possível, plantar uma azeitona na empada de quem lhe tirou o filho. Um plano que lhe consome um ano inteiro.

John Woo dirige Joel Kinnaman em 'O Silêncio da Vingança'
John Woo dirige Joel Kinnaman em 'O Silêncio da Vingança' Imagem: Paris
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Mestre absoluto do gênero do final dos anos 1980 até a virada do século, John Woo fez de cenas de ação verdadeiras obras de arte cinematográficas. Ele orquestrava tiroteios como um balé da morte, somando beleza à fúria e intensidade de seus filmes. Foi assim em "Alvo Duplo" e "O Matador", foi assim em "Bala na Cabeça" e no clássico absoluto "Fervura Máxima".

Hollywood, disposta a oxigenar suas próprias ideias, convocou Woo, que fez sua estreia no cinemão ianque em "O Alvo", com Jean-Claude Van Damme. O filme era uma bobagem, mas seu estilo dinâmico fez toda a diferença. "A Última Ameaça" e, principalmente, "A Outra Face", mostraram sua capacidade em executar à perfeição os conceitos mais ridículos, tudo embalado por sequências de ação espetaculares.

Seu ponto alto como diretor do primeiro time aconteceu em 2000, quando Tom Cruise o colocou no comando de "Missão: Impossível II", que se tornou o maior sucesso do ano. Mesmo com um roteiro convencional, a segunda aventura do espião Ethan Hunt trouxe sequências memoráveis - a perseguição de motos no terceiro ato é um absurdo! - e um clímax tão divertido quanto exagerado.

Joel Kinnaman pronto para matar em 'O Silêncio da Vingança'
Joel Kinnaman pronto para matar em 'O Silêncio da Vingança' Imagem: Paris

"Missão: Impossível II", entretanto, pareceu exaurir o fôlego criativo do diretor. "Códigos de Guerra", em que ele dirigiu Nicolas Cage em 2002, trazia boas ideias em um filme que nunca decolou. "O Pagamento", lançado há exatas duas décadas, colocou Ben Affleck no centro de uma ficção científica cerebral, mas cozinhada em banho-maria. Ninguém deu bola.

John Woo decidiu recarregar as energias e, então, voltou para casa, para Hong Kong. Ele diminuiu o ritmo, experimentou trabalhar com TV e até com videogames, e por fim criou ao menos uma obra-prima incontestável, o épico histórico "A Batalha dos Três Reinos", filme de guerra dividido em duas partes lançadas em 2008 e 2009.

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Certamente "O Silêncio da Vingança" não é o grande retorno de um diretor que, em seu auge, mudou o jogo do cinema. É um thriller modesto, do tamanho de seus US$ 25 milhões de orçamento. Não busca criar um universo, não expande nenhuma propriedade intelectual. Seu começo e seu fim existem unicamente na sala de cinema. Talvez seja melhor assim. John Woo já fez parte do jogo do cinemão e virou as costas por entender que a arte de fazer filmes se perde ante a pressão comercial.

A verdade é que Hollywood jamais precisou tanto de um diretor como ele, um cineasta capaz de injetar fôlego cinético e personalidade artística em qualquer projeto. Talvez falte a "O Silêncio da Vingança" a ambição para reposicioná-lo no tabuleiro. Ao baixar as expectativas, porém, John Woo conseguiu cravar um retorno em seus próprios termos. Em meu dicionário, isso se chama sucesso.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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