Roberto Sadovski

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Opinião

Alanis Morissette mostra que amadurecer não sepultou sua rebeldia juvenil

O calor inclemente que castigou São Paulo já havia se convertido em brisa e garoa quando Alanis Morissette tomou o palco montado em um Allianz Parque abarrotado. Melhor assim. A cantora canadense celebrou os 25 anos do álbum "Jagged Little Pill" trocando sua serenidade de artista consagrada pela fúria da jovem que verbalizou sentimentos reais em rock.

Como disse a baiana Pitty no show(zaço) que abriu a noite em São Paulo, uma data aleatória e solitária na América do Sul, era a comemoração de um álbum que mudou tudo. "Jagged Little Pill" trazia Alanis fazendo o salto de artista infantil para cantora pós-adolescente com muito a dizer. Caminhando no ombro de gigantes, ela pegou o momento que o rock recuperava sua relevância artística e comercial na esteira de "Nevermind", do Nirvana, e criou um fenômeno cultural.

Embalado por singles como "You Oughta Know" e "Ironic", o disco vendeu 33 milhões de cópias e fez de Alanis uma estrela. Esse início é lembrado logo no início do show, numa video montagem que traz Alanis como artista infantil no Canadá, Alanis em premiações televisivas, Alanis no Saturday Night Live, Alanis interpretando Deus em "Dogma". Alanis, rockstar!

O show, contudo, passou longe da admiração pelo próprio umbigo. O palco econômico, sem espetáculos pirotécnicos ou telões onipresentes, privilegia a música. A abertura com "All I Really Want" já mostrou que a potência vocal e o timbre personalíssimo continuam os mesmos. Quando Alanis executa em seguida "Hand in my Pocket", a plateia já está em sua mão.

Foi uma troca bonita de se ver. Morissette, acompanhada por uma banda de veteranos notáveis, mostrava-se visivelmente emocionada e esfuziante, o largo sorriso acompanhando as breves interjeições entre as canções. A homenagem ao amigo Taylor Hawkins, baterista do Foo Fighters morto em 2022, foi tocante. O público, em resposta, empolgou-se até com músicas menos festejadas, como "Numb", do álbum "Havoc and Bright Lights", e "Ablaze", do recente "Such Pretty Forks on the Road".

O filé, contudo, veio mesmo do aniversariante. "Jagged Little Pill" entrou de ponta a ponta, festejado das faixas menos conhecidas ("Perfect", "Not the Doctor") aos megahits ("You Learn", "Head Over Feet"). Aos 49 anos, Alanis Morissette canta sobre a alma e a condição de ser mulher com a mesma convicção de um quarto de século atrás. É feminista e crua, é visceral e melancólica. Batendo cabeça e rodopiando até cair, é rock and roll desde sempre.

Foi esse tom confessional que não só conquistou o público tantos anos atrás, como pavimentou também o caminho para as divas pop da novíssima geração. A diferença fundamental é que, ao contrário das emoções testadas por uma fileira de marqueteiros que algumas moças hoje transformam em espetáculo, Alanis sente profundamente cada palavra que entoa. Não é teatro. É emoção genuína traduzida em música.

Ao longo de sua carreira, Alanis Morissette passou de revelação pop em alta rotação a artista em total controle de sua carreira. Saiu da sombra da indústria musical em Los Angeles e, mãe, voltou a seu Canadá natal. Gravou um álbum de música ambiente e regravou John Lennon. Em São Paulo, mostrou que o amadurecimento não sepultou sua rebeldia juvenil.

Uma versão avassaladora de "Uninvited", gravada para a trilha do dramalhão "Cidade dos Anjos", antecedeu a despedida com "Thank U", que surgiu embalada por mensagens de agradecimento publicadas no X-ex-Twitter. A cantora ergueu as mãos e, emocionada, encerrou a noite. Dona Alanis, quem tem de agradecer somos nós!

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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