Roberto Sadovski

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Opinião

O bom 'Não Abra!' só perde pontos ao apelar para o 'filme de monstro'

Mais uma semana, mais um filme de terror chegado aos cinemas. Não reclamo. "Não Abra!" Está mais alinhado à produção independente do gênero, que é de onde tem surgido as melhores ideias, do que aos candidatos a blockbusters que não provocam nada além de tédio. Não que seja um filme perfeito - longe disso. Mas existe no diretor Bichal Dutta uma habilidade para construir clima e tensão que, se bem lapidada, pode resultar em grandes filmes em sua carreira. Do jeito que está, "Não Abra!" um ponto de partida excelente, ainda que imperfeito.

Sua grande vantagem é usar a ancestralidade de seus personagens como alavanca narrativa. A protagonista é Sam (Megan Suru), adolescente de ascendência indiana que prefere ignorar sua herança cultural (como defende sua mãe) para se integrar à rotina de jovens de sua idade nos Estados Unidos (caminho preferido de seu pai).

A pedra em seu caminho é Tamira (Mohana Krishnan), amiga de infância que agora parece mais distante e isolada no colégio. Paranoica e solitária, a jovem caminha com um pote de vidro fechado e se torna a piada silenciosa do colégio, o que torna seu afastamento de Sam mais agudo.

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Os problemas começam quando Tamira conta a Sam que o jarro fechado contém um antigo demônio, entidade que aos poucos mina sua sanidade. Sam, por sua vez, não quer saber de contos de fadas indianos que as assustavam quando crianças e quebra o vidro. O mal, claro, agora está à solta.

Existe uma linha bacana em "Não Abra!" Que remete segredos e heranças culturais ao medo de não se integrar em uma sociedade estranha. Um demônio seria uma conexão com esse passado ancestral que muitos jovens preferem ignorar para "facilitar" sua vida em um país que não é o seu. Mas a criatura, um pishach, é real. Ele some com Tamira e passa a assombrar Sam, matando as pessoas próximas para estimular seu medo e devorar sua alma. O truque para sobreviver é fazer as pazes com suas raízes e encontrar força para rejeitar a presença do mal.

É uma trama que Dutta, fazendo aqui seu primeiro longa-metragem, resolve bem, com a construção de uma ameaça invisível e as consequências de seus ataques traduzidas nas cenas violentas que fazem a festa dos fãs do terror. Sendo um produto que mira no público adolescente, porém, "Não Abra!" suaviza a carnificina e nunca vai fundo nas imagens mais gráficas. O poder da sugestão, acredita o diretor, é mais eficiente.

O demônio começa a tomar forma em 'Não Abra!'
O demônio começa a tomar forma em 'Não Abra!' Imagem: Imagem
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É uma teoria que "Não Abra!" sustenta bem até capitular o final, quando Sam finalmente precisa confronta o pishach. Filmes de terror precisam ter muita coragem para revelar seu monstro. Dependendo de seu design e de como ele é executado, a coisa pode ir do sublime (o xenomorfo de "Alien" ainda é o melhor exemplo) ao ridículo.

A coisa aqui estaciona num meio-termo que, se não causa gargalhadas, também não assusta como se pretendia. No fim, é só mais um monstro pouco memorável, como se Venom tivesse gerado a criatura do próprio 'Alien', adicionado à infinita estante de criaturas genéricas do cinema. Felizmente, é um pecado que não compromete o bom resultado de "Não Abra!", uma estreia decente que exerce com dignidade sua função de "filme de terror da semana".

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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