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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nicolas Cage volta ao cinema em grande forma (é sério) em O Peso do Talento

Nicolas Cage como Nicolas Cage em "O Peso do Talento" - Paris
Nicolas Cage como Nicolas Cage em 'O Peso do Talento' Imagem: Paris
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

12/05/2022 15h41

É possível argumentar que Nicolas Cage interpretando Nicolas Cage não é exatamente uma novidade. No automático há uns bons anos, enfileirando produções de gosto duvidoso, ele oferecia menos uma coleção de personagens e mais variações de si mesmo.

O que era piada, porém, agora faz parte da narrativa. Em "O Peso do Talento", Cage interpreta uma versão romantizada de si mesmo. Ele é Nic Cage (!), astro de Hollywood, famoso por filmes de ação como "Con Air" e "A Outra Face", preso agora em uma espiral descendente de trabalhos continuamente ruins.

Claro que o Cage em cena não espelha o Cage da vida real. Bom, pelo menos não completamente. Em "O Peso do Talento", apesar das referências claras à sua figura emblemática, e também a problemas pessoais muito reais (o volume de filmes seria para pagar dívidas), o personagem é fictício.

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Nic (Nicolas Cage) e Javi (Pedro Pascal) enfrentam o perigo em 'O Peso do Talento'
Imagem: Paris

No mundo de "O Peso do Talento", Nicolas Cage é um pai ausente, em constante atrito com a ex-mulher (Sharon Horgan) e sem nenhum tato para se conectar com a filha adolescente (Lily Mo Sheen). Ele vive empoleirado em um hotel, mas está prestes a ser despejado por não pagar a conta. Cage não está em boa fase.

É por isso que seu agente, papel de Neil Patrick Harris, consegue para ele um trabalho rápido e extremamente rentável, longe porém dos sets de filmagem: 1 milhão de dólares para aparecer na festa de aniversário de um milionário em Maiorca, ilha espanhola no Mediterrâneo.

A coisa complica quando o sujeito, Javi (Pedro Pascal), calha de ser seu maior fã, mas também pode liderar uma das maiores organizações de tráfico de drogas no continente. É quando a CIA aborda Cage e praticamente exige sua colaboração para espionar seu anfitrião. O ator tem uma crise de consciência, porém, quando ele cria um laço genuíno com Javi.

"O Peso do Talento" poderia ser um exercício de uma piada só, mas o diretor Tom Gormican evita a armadilha ao demonstrar admiração genuína por Cage: ele quer rir com o astro, e não dele.

Esse sentimento passa para o lado de cá, especialmente quando o foco passa a ser o personagem de Pascal. Ameaçando roubar o filme para si, ele capricha como o fã desavergonhado que nos lembra porque o mundo em algum momento se rendeu ao talento do astro de "Feitiço da Lua" e "Despedida em Las Vegas".

O próprio Cage entendeu o tom da empreitada e assume um papel duplo inusitado. Além de interpretar Nicolas Cage, ele também assume a figura de Nicky Cage (!!), apresentado como sua consciência, uma versão mais jovem e mais selvagem que o instiga constantemente a abraçar seus instintos. O que nem sempre, diga-se, seria o melhor conselho.

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Nicolas Cage vê o reflexo de Nicolas Cage ao interpretar Nicolas Cage
Imagem: Paris

Apesar de toda a construção em metalinguagem, "O Peso do Talento" termina como uma aventura bastante convencional, com direito a um terceiro ato que espelha o clímax de um filme de ação B, em que Nicolas Cage (o personagem) é forçado a assumir uma posição heroica para salvar sua família, involuntariamente envolvida na trama.

Mesmo sem grandes voos criativos, "O Peso do Talento" é diversão ligeira que utiliza o carisma de seu protagonista ao máximo. Só isso já basta para justificar um passeio ao cinema, que conta com a ausência de Nicolas Cage em carne e osso desde sua ponta em "Snowden", que Oliver Stone dirigiu em 2016. É um lugar de onde, convenhamos, ele nunca deveria ter saído.