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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Matrix Resurrections' honra seu legado de forma imperfeita e irresistível

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

21/12/2021 10h00

Nunca foi fácil voltar para o mundo de "Matrix". Quando chegou aos cinemas em 1999, o filme de Lana e Lilly Wachowski abriu as portas do século 21 com uma mistura improvável de filosofia, kung fu e tecnologia de ponta. Foi um sucesso. E também foi inevitável sua transição de filme para marca.

As cineastas, que tinham no currículo o neo noir "Ligadas Pelo Desejo", de repente se viram sob os holofotes como criadoras da aventura que, nos anos seguintes, reescreveria as regras do cinema de ação e ficção científica. Depois do flerte com outras mídias, como histórias e quadrinhos e videogames, continuar o filme tornou-se inevitável.

Embora compartilhassem do mesmo DNA do original, e trouxessem entrelinhas muito sofisticadas para qualquer candidato a blockbuster tradicional, "Matrix Reloaded" e "Matrix Revolutions" não repetiram, em 2003, o impacto de seu predecessor. Mas como superar um filme alardeado como a maior revolução do cinema moderno? Nunca foi fácil, portanto, voltar para o mundo de "Matrix".

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Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carrie-Anne Moss) vivem um amor que desafia a Matrix
Imagem: Warner

Mesmo assim, cá estamos, quase duas décadas depois de Neo (Keanu Reeves) cometer o sacrifício supremo para por fim ao conflito dos humanos com as máquinas que então dominavam a Terra. "Matrix Resurrections" é a resposta de Lana Wachowski (voando solo, já que Lilly decidiu não fazer parte do filme) para o que acontece no dia seguinte ao fim da guerra.

Alguns procuram reconstruir os fragmentos de sua vida. Outros buscam se adequar ao novo status quo. E sempre há quem enxergue no recém-nascido período de paz uma oportunidade para satisfazer suas próprias ambições. É a chance para a história se repetir, em um loop contínuo que pode, de alguma forma, resultar em conclusões diferentes.

A pessoa que mais entende dos meandros da Matrix é justamente Thomas Anderson (Keanu Reeves), designer de videogames que, há duas décadas, criou essa trilogia que revolucionou a cultura pop de forma inequívoca. A escolha entre manter-se na fantasia ou encarar o mundo real, o sistema de controle que mantém a humanidade em cativeiro, o efeito especial bullet time - no filme tudo é invenção desse artista genial, que agora vive inquieto sob a sombra de sua criação.

Estagnado criativamente, Anderson é provocado por seu sócio (Jonathan Groff) a finalmente encabeçar a criação de uma nova sequência para o jogo original. "A empresa que controla a nossa, a Warner, vai tocar a continuação com ou sem nosso envolvimento", explica. Impossível a metalinguagem ser mais direta.

É curioso ver como Lana Wachovski ressignifica o próprio conceito de "Matrix" ao sugerir uma historia dentro da história, usando os símbolos do filme original para acentuar a observação sobre o estado das coisas na Hollywood atual, movida basicamente por propriedades intelectuais passíveis de constante reinvenção.

Com as rédeas de sua criação, porém, a diretora reintroduz elementos familiares para recuperar os temas de perda de individualidade e controle silencioso. Uma nova personagen, Bugs (a incrível Jessica Henwick) serve como avatar da plateia para redescobrir não só o status do conflito entre humanos e máquinas mas também o destino dos protagonistas da trama original.

Se Neo surge indiferente de seu papel nesse novo tabuleiro, Morpheus reaparece renovado em seu propósito. Como em um jogo antigo remasterizado para um console de novíssima geração, o devoto da profecia do Escolhido retorna com a mesma missão - despertar Neo de sua apatia - em uma nova roupagem. Visualmente ele agora é Yahya Abdul-Mateen II, e descobrir as outras diferenças é parte da experiência com o novo filme.

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Morpheus (Yahya Abbul-Mateen II) parece diferente, mas sua missão segue a mesma
Imagem: Warner

O centro emocional de "Matrix Resurrections", contudo, ainda é a relação de Neo e Trinity. Nessa nova configuração da Matrix, eles se esbarram em um café no coração de São Francisco mas possuem zero lembranças de sua vida anterior. Seu laço, porém, ainda é o elemento disruptivo e o gatilho que impulsiona a trama. Fazer do novo filme explicitamente uma história de amor é um de seus grandes acertos.

O caminho, entretanto, é acidentado. Abraçar a metalinguagem e as auto referências fazem com que a primeira metade de "Matrix Resurrections" seja brilhante e surpreendente, apontando um caminho inusitado para retomar a atmosfera do filme que praticamente inventou o século 21 no cinema.

Contudo, o equilíbrio deste olhar ao passado com a necessidade narrativa em criar uma nova jornada às vezes soa descompensado. Quanto mais elementos dramáticos e conceitos inovadores são apresentados, mais o filme parece que vai desmoronar ante o peso de suas próprias ideias.

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A diretora Lana Wachowski no set de 'Matrix Resurrections'
Imagem: Warner

"Matrix Resurrections", felizmente, nunca cruza essa linha, principalmente por nunca ter medo de ser absolutamente esquisito. Mesmo quando o fluxo narrativo toma um caminho mais convencional, o resultado ainda está anos-luz à frente de outros filmes de ação que, ao longo das últimas décadas, buscaram reproduzir o impacto transformador de "Matrix".

O motivo é simples. Apesar de ser um produto corporativo - algo que o próprio filme deixa textualmente claro -, "Matrix Resurrections" é resultado da expressão artística de uma cineasta visionária. Um exemplo são as discussões antecipadas em 1999, como nosso mergulho cada vez mais profundo em uma realidade virtual que ameaça tomar à frente do mundo real, que aqui são totalmente integradas ao roteiro.

A própria história de Lana Wachowski, hoje a única mulher trans a habitar as esferas do poder na indústria do entretenimento, é refletida em sua obra. "Matrix Resurrections" é sobre mudança, sobre combater o conformismo, sobre a necessidade de reinvenção como parte fundamental da natureza humana. É a lição que Neo precisa aprender para se reconectar com sua própria essência.

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Bugs (Jessica Henwick) e Morpheus (Yahya Abdul-Mateen II) fazem Neo (Keanu Reeves) ver o mundo real
Imagem: Warner

Essa jornada torna-se mais empolgante com a volta de Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss aos personagens que os projetaram há mais de duas décadas. Enquanto Reeves reinventou-se como astro de ação em uma nova série, "John Wick", Moss teve uma carreira mais discreta, surgindo de forma mais proeminente na série "Jessica Jones".

Juntos, porém, eles trazem uma química imbatível, a cola que injeta credibilidade ao universo fantástico de "Matrix Resurrections". No novo filme, é Trinity quem surge como gatilho narrativo para evoluir a trama. A interação entre Keanu e Carrie-Anne ajuda a ancorar a história com um sentimento humano, a antítese da frieza das máquinas. Sem essa conexão emocional, restaria somente a perfumaria.

O que, admite-se, não é pouca coisa. "Matrix Revolutions", a exemplo de seus antecessores, amarra sua história de amor em uma aventura pulsante e visualmente revolucionária. As sequências de ação são, mais uma vez, uma festa para os sentidos, com combates em trens bala, exércitos de zumbis (sério), demostrações de artes marciais e fugas em gravidade zero. Não existe nada como o bullet time, claro. Mas também não existe nada como o "Matrix" de 1999.

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Neo e Morpheus ainda sabem lutar kung fu
Imagem: Warner

É aí que está a beleza de "Matrix Resurrections". Lana Wachowski criou uma obra que tem coragem de questionar sua natureza imperfeita ao realçar seu passado e apontar um caminho para o futuro. É difícil deixar as comparações de lado quando o próprio filme reutiliza constantemente imagens de seus antecessores, mas eles são dispositivos narrativos utilizados para sublinhar a nova trama, e não para escondê-la por trás de uma barreira de nostalgia.

A criação de universos compartilhados pode ser a regra de ouro do cinema atual. "Matrix", com sua expansão para além da tela do cinema, já antevia esse futuro. O surgimento de novas plataformas e o avanço da tecnologia para contar histórias sugerem que um salto ainda mais ambicioso é iminente. É um legado, criativo e também corporativo, que "Matrix Resurrections" parece apto a alavancar. Para isso, basta escolher a pílula vermelha.