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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Alerta Vermelho': Por que alguns filmes ainda dependem de astros do cinema

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

11/11/2021 16h03

O diretor Rawson Marshall Thurber deve ser um vendedor e tanto. Para seu novo filme, a comédia de ação "Alerta Vermelho", sua labia trouxe não só seu parça, Dwayne Johnson (eles trabalharam juntos em "Um Espião e Meio" e em "Arranha-Céu"), como atraiu Ryan Reynolds e Gal Gadot para a festa.

Tudo isso para um filme que parece saído de algum encontro de executivos de estúdio lá nos anos 1990.

É exatamente essa a pegada de "Alerta Vermelho". Um anacronismo, uma aventura construída em cima de seus astros. Uma fórmula que, usada hoje, é até ousada em sua desconexão com o cinema moderno. Ah, e é uma matemática cara: só com seu trio de protagonistas a produção desembolsou algo em torno de US$ 60 milhões - isso antes de a câmera começar a rodar!

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Gal Gadot prende Dwayne Johnson e Ryan Reynolds em uma arapuca em 'Alerta Vermelho'
Imagem: Netflix

Nem sempre funciona, mas tem lá seu charme. Assim como o fatídico "A Guerra do Amanhã", lançado pela Amazon há alguns meses, "Alerta Vermelho" pega emprestado elementos de diversos filmes e séries diferentes para costurar uma trama nova, mesmo que não tenha nada de original. Tem uma pitada de "Missão Impossível", uma fatia de "A Lenda do Tesouro Perdido", um verniz de "Indiana Jones" e todas as regras do manual dos filmes de duplas policiais.

Para coroar tudo, uma dose cavalar de exagero. "Alerta Vermelho" é um filme caro e cada centavo está em cena. Seja nas mansões suntuosas, nas prisões inóspitas ou em cavernas perdidas, Thurber capricha no visual super polido e na ação sofisticada. A engenharia por trás de cada um destes recortes é testemunho do talento da melhor equipe que o dinheiro pode comprar - mesmo que a coisa seja, por vezes, completamente inverossímil.

A trama é mais ou menos essa. O super agente do FBI John Hartley (Dwayne Johnson) encabeça a caçada ao maior ladrão de arte do planeta, Nolan Booth (Ryan Reynolds), finalmente capturado por conta de informações vazadas por seu maior concorrente, o misterioso Bispo. Tudo não passa de uma armação para incriminar Hartley e tirar Booth da jogada, enquanto o Bispo (Gal Gadot) se concentra no prêmio mais valioso: três ovos de ouro ofertados a Cleópatra pelo general romano Marco Antonio, perdidos pela força do tempo.

A partir daí "Alerta Vermelho" torna-se uma gigantesca caça ao tesouro, com a dupla Hartley e Booth obrigados a unir forças para correr atrás de seu adversário. Ela, por sua vez, mostra-se superior aos patetas em todas as ocasiões, inclusive reduzindo os dois a pó em combate (é a Mulher-Maravilha, segue o fio). A busca leva os três em uma jornada global que não faz o menor sentido, mas de tão tola torna-se divertida.

Rodado em meio à pandemia de Covid, "Alerta Vermelho" teve sua produção interrompida em duas ocasiões. Com a incerteza da reabertura dos cinemas, o projeto que havia começado na Universal terminou comprado pela Netflix, que tem bolsos profundos para arcar com os US$ 200 milhões do orçamento. Assim como "Resgate", com Chris Hemsworth, o potencial para infinitas continuações é imenso.

O que não deixa de ser curioso. Afinal, "Alerta Vermelho" não traz absolutamente nada de novo ao jogo do cinema de ação. Pelo contrário, o filme abraça convenções que hoje são motivo de piada e desconstrução ao arriscar a produção de um filme do gênero. Não há nenhum senso de perigo, não existe nenhuma grande cena que fique impressa no córtex e a reviravolta final é tão absurda quanto improvável, já que derruba eventos que o próprio roteiro fizera questão de sublinhar.

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Indiana Jones ligou, ele quer as traquitanas dele de volta
Imagem: Netflix

Exatamente por isso que o investimento em seus astros é essencial. Sem Johnson, Reynolds e Gadot, sobraria pouco para criar qualquer tipo de conexão com o público. Mesmo que o cinema atual seja desenhado em cima de propriedades intelectuais, filmes como "Alerta Vermelho" só funcionam por trazer rostos conhecidos que o filme nem perde tempo desenvolvendo seus personagens: batemos o olho e sabemos exatamente quando é a deles.

É uma estratégia narrativamente pobre. Em nenhum momento, porém, torna o filme um passatempo enfadonho. Nem que seja pelo barulho, pela grandiosidade ou pelo star power, "Alerta Vermelho" funciona como peça nostálgica, de um tempo em que a instituição "Astro de Hollywood" mandava na indústria. Se esse poder hoje é tênue, o trio que aqui enfeita o poster aprendeu direitinho a navegar por suas entrelinhas. E cravaram, apostando em uma volta ao passado, mais uma série para chamar de sua.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL