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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Visions' prova que tudo (até 'Star Wars') fica muito melhor como anime

"O Duelo", episódio de abertura de "Star Wars Visions" - Disney/LucasFilm
'O Duelo', episódio de abertura de 'Star Wars Visions' Imagem: Disney/LucasFilm
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

24/09/2021 16h28

Eu tenho idade para lembrar do lançamento de "Animatrix". Antes de o fenômeno "Matrix" voltar aos cinemas com "Reloaded", os produtores preencheram as lacunas e ampliaram seu universo sob a ótima do anime. Convocaram mestres da animação japonesa, traçaram os parâmetros e entregaram a caixa de brinquedos. O resultado foi uma antologia que não só honrou o trabalho das Wachowski, como também apontou novos caminhos para sua distopia.

"Star Wars Visions" segue a mesma fórmula, com uma nova geração de animadores nipônicos emprestando seu talento para mapear os limites da criação de George Lucas. A homenagem, entretanto, logo evolui para terrenos desconhecidos. O que é ótimo! Ao contrário de "The Mandalorian", série que desvia da saga Skywalker mas mantém-se à margem de sua narrativa, "Visions" usa a galáxia muito distante para ampliar o escopo de "Star Wars".

visions gemeos - Disney/LucasFilm - Disney/LucasFilm
'Os Gêmeos'
Imagem: Disney/LucasFilm

Até porque é impossível ignorar a influência gigantesca da cultura oriental na gênese de "Star Wars", em especial "A Fortaleza Escondida", que Akira Kurosawa dirigiu em 1958. "Visions", com seus nove curtas, cada um com uma história completa, de certa forma fecha este círculo, reconfigurando a iconografia ocidental do mundo de Jedis, Sith e da Força para suas raízes filosóficas e estéticas orientais. E, claro, com muitos duelos de espadas.

Ou melhor, de sabres de luz. É assim que "Visions" se posiciona, já em seu primeiro episódio, sugestivamente batizado "O Duelo". O diretor Takanobu Mizuno usa um traço remanescente do mangá clássico "Lobo Solitário" e usa o folclore japonês como base para a história de um Ronin que defende uma vila do ataque de soldados imperiais, liderados por uma antiga inquisidora Sith.

As lâminas dos Jedi, uma "arma elegante para tempos mais civilizados", também surgem como foco em "O Nono Jedi" (ambientado séculos depois de "A Ascensão Skywalker", com uma ótima explicação para a cor dos sabres) e "O Ancião" (que poderia ser uma aventura de Qui-Gon Jin e Obi-Wan Kenobi).

"Os Gêmeos" talvez seja o que melhor lida com os temas de herança familiar que permeiam os filmes originais, retratando o combate de irmãos criados sob o peso do Lado Sombrio, aqui trilhando caminhos devastadoramente diferentes.

"Balada de Tatooine" é o único episódio com uma ambientação familiar para quem é versado na saga. Tem Jabba, tem Boba Fett, tem a pista de corrida de pods que vimos em "A Ameaça Fantasma". A trama, porém, aborda uma banda de rock (!) que toca seu último show. O visual é fofinho, com versões infantilizadas de personagens e ambientes tradicionais.

Fora do padrão também surge "T0-B1", que empresa o estilo do clássico "Astro Boy" para mostrar que até as criaturas mais inesperadas - o que inclui um dróide humanoide - podem ser tocadas pela Força. É o episódio mais leve da antologia. Ao lado de "Balada" é, também, o que mais se afasta da fórmula de "Star Wars".

visions velho - Disney/LucasFilm - Disney/LucasFilm
'O Ancião'
Imagem: Disney/LucasFilm
Quando George Lucas criou "Guerra nas Estrelas" não esperava que gerações de artistas em todo o mundo traçassem seu rumo pessoal, profissional e artístico depois de experimentar seu filme. O próprio Lucas estava misturando as suas paixões em uma saga que tivesse um verniz de originalidade, ao mesmo tempo que trilhava caminhos já percorridos por seus precursores na cultura pop.

"Star Wars Visions" aponta uma nova direção em uma propriedade intelectual que, depois de décadas sob o holofote do mainstream, parecia estagnada. O casamento com o anime é perfeito, já que a animação japonesa traz um dinamismo e uma urgência narrativa totalmente diferente dos desenhos ocidentais - nem melhor, nem pior, mas diferente.

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'A Noiva da Aldeia'
Imagem: Disney/LucasFilm

Ainda assim, é justamente o que "Star Wars" precisava. O belíssimo "A Noiva da Aldeia" talvez seja o episódio que melhor resolva essa fusão de mundos. Uma Jedi é levada por um explorador a um planeta remoto, em que bandidos usam dróides separatistas antigos para manter uma aldeia refém.

Toda a filosofia de "Star Wars", traduzida nas palavras da guerreira Jedi, ecoa com a natureza mística do lugar, suas tradições ameaçadas por uma força bélica superior, e a inspiração trazida por duas irmãs que se rebelam. É o centro emocional da saga traduzido no traço ligeiro do anime, ressaltando por que o mundo se rendeu a "Star Wars" em primeiro lugar.

Mas assista com áudio original em japonês. Anime em outra língua é como ouvir ópera sem ser em italiano. Faz mal pra alma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL