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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em 'Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis', é o vilão quem rouba a cena

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

01/09/2021 03h48

"Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis" quase não parece um filme da Marvel. Das cenas iniciais influenciadas por épicos chineses de artes marciais, passando pela narrativa que dispensa um cardápio de meia dúzia de filmes para fazer sentido, é uma aventura de apelo infantojuvenil que equilibra ação, humor e fantasia, apresentando um herói simpático em uma jornada de auto conhecimento e um vilão que o deixa no chinelo sempre que surge em cena.

Ainda assim, estamos falando de um filme da Marvel, com todo o peso de mais de uma década dominando a tapeçaria da cultura pop. "Shang-Chi" segue a fórmula do estúdio ao insistir em um terceiro ato em grande escala, com uma batalha grandiosa entre forças antagônicas. É um final que apela mais para efeitos digitais e menos para as interações de seus protagonistas.

A boa notícia é que o filme de Destin Daniel Cretton ("Temporário 12", "Luta por Justiça") consegue, na maior parte do tempo, existir às margens desse universo. Sua primeira metade, mesmo apresentando cenas de ação espetaculares, preocupa-se em desenvolver seus personagens e em estabelecer o conflito central do filme: e relação complicada de Shang-Chi e seu pai, Wenwu. Que calha de ser um líder criminoso que, à frente da organização Dez Anéis, dominou o submundo da Terra e mantém esse controle há um milênio.

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A força da natureza Tony Leung em 'Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis'
Imagem: Disney/Marvel

Wenwu pode parecer um personagem absurdo, mas torna-se completamente crível com a interpretação de Tony Leung. Um dos maiores ícones do cinema chinês, o astro de 59 anos navegou por diversos gêneros e dominou a todos. Ao lado de Chow Yun Fat encabeçou "Fervura Máxima", de John Woo. Fez o épico "Herói", com Jet Li e Maggie Cheung, com direção de Zhang Yimou. Com o mestre Wong Kar Hai filmou "Amor à Flor da Pele", um dos filmes mais belos e românticos da história, e "O Grande Mestre", em que deu vida ao lutador Ip Man.

Quando ele está em cena, "Shang-Chi" vai a outro patamar, até porque Wenwu não é um "vilão" tradicional, e sim um homem atormentado. Os dez anéis que lhe dão poder, artefatos de origem misteriosa, alimentam sua sede de conquista. Esse ímpeto é freado quando ele tenta dominar uma terra mística chamada Ta Lo, e fracassa absurdamente ante sua guardiã, Fala Chen (Jiang Li).

O encontro é traduzido em um combate no melhor estilo wuxia, gênero do cinema chinês que mistura fantasia e artes marciais, popularizado no mundo ocidental pelo sucesso de "O Tigre e o Dragão". Não é uma luta por dominância física, e sim executada como uma dança em que duas pessoas traçam seus movimentos e, ao mesmo tempo, se apaixonam.

É muito difícil, portanto, encarar a força que é Tony Leung sem ser anulado por seu talento. Se não tem o carisma do astro chinês, Simu Liu ao menos surge como um protagonista admirável. Nascido na China e criado no Canadá, Liu construiu uma carreira na TV, conseguindo um fiapo de fama com a série "Kim's Convenience". "Shang-Chi" é seu primeiro grande filme, e ele não decepciona.

Treinado desde criança para ser a máquina de combate perfeita, Shang-Chi já é imbatível aos 14 anos, quando deixa a fortaleza de seu pai em uma missão de vingança. Ele decide, porém, virar as costas para sua herança, levando uma década depois uma vida discreta em São Francisco, onde divide sua rotina com o trabalho de manobrista e noites de karaoke com a amiga Katy (Awkwafina, em um papel bem além do alívio cômico).

Quando assassinos a mando de seu pai vem a seu encontro, em uma sequência de ação matadora em um ônibus desgovernado pelas ladeiras de São Francisco, Shang-Chi precisa voltar à China, refazer os laços com a irmã que ele deixou para trás (Meng'er Zhang) e encarar a ameaça representada por Wenwu. O clímax é uma batalha justamente na terra mística de Ta Lo, agora guardada por uma comunidade liderada por Michelle Yeoh.

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Awkwafina e seu parça Simu Liu levam a vida na brisa
Imagem: Disney/Marvel

Criado por Steve Engleheart e Jim Starlin em 1973, Shang-Chi foi a resposta da Marvel para o fenômeno de artes marciais mundial amplificado pela morte de Bruce Lee, seis dias antes da estreia de "Operação Dragão", filme que o tornaria um astro mundial. A série em quadrinhos, popularizada no Brasil como "Mestre do Kung Fu", trazia o herói como filho de Fu Manchu, vilão pulp criado por Sax Rohmer e licenciado pela Marvel.

Ao longo dos anos 1970, Shang-Chi protagonizou aventuras que misturavam filosofia e artes marciais, misturando a ação dos filmes de Bruce Lee com as tramas de espionagem de James Bond. No lápis de Paul Gulacy ele encontrou seu artista perfeito, e com Mike Zeck seu conflito com Fu Manchu aproximou-se da fantasia e ficção científica.

Muitos de seus conceitos, porém, ficaram datados por mostrar versões estereotipadas de arquétipos chineses, em especial a caracterização de Fu Manchu. Quando a editora perdeu os direitos do vilão e dos coadjuvantes da série, a popularidade de Shang-Chi evaporou, reduzindo-o a coadjuvante em séries alheias, sem nunca retomar sua popularidade dos anos 1970.

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Pai e filho se enfrentam em 'Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis'
Imagem: Disney/Marvel

É um status que sua versão para o cinema pretende mudar. "Shang-Chi e os Dez Anéis", além de pavimentar novos caminhos para o universo cinematográfico Marvel, triunfa na missão de expandir a galeria de personagens do estúdio para o mercado asiático, que ganha aqui representatividade genuína.

A pandemia abreviou as possibilidades de o filme tornar-se um fenômeno cultural como "Pantera Negra", mas as referências e influências chinesas estão impressas ao longo da aventura - em especial em seu clímax, com direito a uma civilização escondida, um mal ancestral que ameaça o mundo e um dragão capaz de salvar a humanidade.

Esse equilíbrio entre aventura de super-heróis e filme de artes marciais surge com a habilidade de Destin Cretton em costurar uma história sobre perda e vingança, sobre responsabilidade e obsessão, dentro dos limites do universo Marvel no cinema. Pode parecer uma muleta, mas a trama segue com leveza, entre humor e ação, drama e espetáculo.

O fato de Simu Liu ser um protagonista tão simpático, ancorando os aspectos mais fantásticos com os dois pés no chão, ajuda a fazer de "Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis" uma aventura nada hermética, e um dos poucos filmes da Marvel que não traz a urgência em construir uma narrativa para ser resolvida no futuro. É um filme satisfeito em ser uma aventura contida. Mas é um filme da Marvel, então eu aconselho assistir as cenas pós-créditos para cenas dos próximos capítulos. Mas acho que, a essa altura, nem precisava avisar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL