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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Guerra do Amanhã': como canibalizar dúzias de filmes em um produto mofado

Chris Pratt à frente de "A Guerra do Amanhã" - Amazon Studios
Chris Pratt à frente de 'A Guerra do Amanhã' Imagem: Amazon Studios
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

03/07/2021 04h16

Não existe uma única ideia original em "A Guerra do Amanhã". Nenhuma cena, nenhum arco dramático, nenhuma cena de ação. A impressão é que seus criadores, o diretor Chris McKay e o roteirista Zach Dean, fizeram uma maratona com todos os filmes que curtiam e foram sublinhando o que dava para afanar. É menos um filme e mais um caso para a polícia cinematográfica.

Pior ainda é constatar que a aventura, uma salada que mistura viagens no tempo e uma invasão alienígena (Tom Cruise fez melhor em "No Limite do Amanhã"), parece fazer regredir o relógio. Fosse lançada em, digamos, 1992, até que esse veículo para Chris Pratt entraria na lista de "é tosco mas é legal", compartilhada por "O Demolidor" (com Stallone) e "TimeCop" (com Van Damme): passatempos inócuos que o tempo deixou mais simpáticos.

Chegando ao público em 2021, porém, "A Guerra do Amanhã" divide o DNA com desastres como "Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles" e "Skyline - A Invasão". A ideia geral é atrelar uma premissa familiar ("ataque de aliens" nunca envelhece) com alguma reviravolta esperta (opa, olha a viagem no tempo!) e devotar o orçamento para os efeitos especiais. No caso do filme de McKay, que antes dirigiu "LEGO Batman - O Filme", a aposta é levemente maior porque o budget ao menos bancou Chris Pratt, louco para ter seu nome em algo que não seja Marvel ou Jurassic Park.

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Yvonne Strahovski é muita areia para o caminhão de 'A Guerra do Amanhã'
Imagem: Amazon Studios

A turma ao menos poderia se dar o trabalho de escolher uma ideia narrativa e se ater a ela. A opção, entretanto, foi uma espécie de roteirização freestyle, com os clichês mais bestas (a família em primeiro lugar, o sacrifício valoroso, o alivio cômico) costurando de qualquer jeito as cenas de ação boladas pelos cineastas. O resultado é material para pelo menos uns três filmes, espremidos em 140 minutos.

Como o título entrega, " A Guerra do Amanhã" troca o conforto do presente pela distopia do futuro, mais precisamente três décadas à frente, quando a Terra foi devastada por uma raça alienígena. Como os invasores são brutais e já mataram geral, as forças do futuro conseguem construir uma máquina do tempo, dar um salto para trás e recrutar novos soldados (na verdade, qualquer um que possa ser convocado), que serão arremessados ao conflito futurista.

Um deles é o professor de ciências (e, convenientemente, ex-militar) Dan Forester (Pratt), que surge com o pacote completo de mulher amorosa, filha serelepe e pai ausente. Transportado para décadas à frente, ele encabeça um grupo de coitados que tem como missão resgatar uma equipe de cientistas que pesquisam um modo de derrotar os invasores - ao menos foi isso que eu consegui pescar.

Daí a coisa complica. Filmes com viagens no tempo precisam ao menos estabelecer sua própria verdade, amarrando depois sua narrativa, por mais absurda, nesse conjunto de regras. Mas pensar dá trabalho, e o roteiro que já fazia pouco sentido joga para o mato qualquer resquício de lógica. Vou tentar passar ao longo de spoilers, mas a coisa toda é tão óbvia que a gente sente os neurônios escorrendo pela orelha em cada nova cena

Forester encontra no futuro alguém que lhe é familiar, e o papo passa de "é melhor não compartilharmos nenhuma informação sobre nós mesmos" para "aqui está sua ficha corrida até sua morte" em questão de minutos. Mesmo assim são diálogos inúteis, informações dispensáveis, já que o filme sucessivamente ignora em cada cena tudo que informara na sequencia anterior. Assim segue o jogo, inverossímil em sua própria lógica, até o final.

O elenco de coadjuvantes faz o que pode. J.K. Simmons é o único com algum pulso, no papel do pai desgarrado do personagem de Pratt. Yvonne Strahovski (de "The Handmaid´s Tale) até se esforça para injetar alguma emoção, mas se despedaça na muralha de canastrice que é Chris Pratt. Qualquer uma de suas habilidades dramáticas que funcione em "Guardiões da Galáxia" sofre aqui uma morte lenta e dolorosa.

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Chris Pratt e a empolgação de quem acabou de ver 'A Guerra do Amanhã'
Imagem: Amazon Studios

Tudo em "A Guerra do Amanhã" parece que passou da validade. É um filme mofado que tenta a todo custo se vender como novidade. Tarefa difícil, veja bem, quando seu ponto de venda mais interessante, os tais invasores, surgem com a cartilha do alien moderno: dentes afiados, guinchos guturais, uma pá de tentáculos, zero pensamento racional e a tendência afetada para a ultra violência. É a xerox como E.T. do mal, e como nenhum personagem tem o mínimo de desenvolvimento dramático, é fácil não dar a mínima para quem é por eles estraçalhado.

Daí em diante é um shot de bebida para cada filme canibalizado sem o menor constrangimento. Tem muito de "Tropas Estelares", uma pitada de "Alien", mais um pedaço de "Aliens, o Resgate", o climão de "Armageddon" e uma tungada desavergonhada em "O Enigma de Outro Mundo". Garanto que você termina "A Guerra do Amanhã" totalmente bêbado. Quando Chris Pratt, já no clímax nonsense, sai no braço com uma rainha alien, entorpecer os sentidos parece uma boa ideia. Não importa quem vença, a gente já perdeu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL