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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Os Caçadores da Arca Perdida': 40 anos da aventura mais perfeita do cinema

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

11/06/2021 02h03

Quando "Os Caçadores da Arca Perdida" chegou aos cinemas americanos em 12 de junho de 1981, ninguém tinha altas expectativas sobre o filme. A aventura que prometia dominar as bilheterias era "Superman II", e um filme sobre um arqueólogo em um mundo pré Segunda Guerra Mundial não parecia assim tão atraente.

Quatro décadas depois, a aventura criada por George Lucas e dirigida por Steven Spielberg mantem-se não só como o filme definitivo do gênero, mas também uma das melhores produções da história do cinema. Como Indiana Jones, Harrison Ford deu corpo e personalidade a uma das maiores criações da cultura pop de todos os tempos.

E quase não era para ser! "Os Caçadores da Arca Perdida" começou como uma ideia na mente de George Lucas em 1973, uma forma de homenagear os seriados cinematográficos que habitaram sua infância, como "Buck Rogers", "Zorro" e "Spy Smasher". O conceito, porém, foi deixado de lado quando, ao não conseguir os direitos cinematográficos de outro clássico, "Flash Gordon", Lucas dedicou-se a criar sua própria aventura espacial, "Guerra nas Estrelas".

indiana indy - Paramount - Paramount
Harrison Ford como Indiana Jones em 'Os Caçadores da Arca Perdida'
Imagem: Paramount

Com o final dos anos 1970, e já surfando no sucesso da saga de Luke Skywalker e cia., Lucas retomou a atenção a seu aventureiro, um arqueólogo batizado Indiana Smith. Ele trabalhou com o diretor Philip Kaufman lapidando a história, que só engrenou anos depois quando Steven Spielberg (que mudou o herói para Indiana Jones) e o roteirista Lawrence Kasdam entraram no projeto.

Foi quando "Os Caçadores da Arca Perdida" ganhou tração. Vários elementos do conceito original de Lucas foram descartados (como o fato de Indy ser mulherengo e jogador compulsivo), e o herói ganhou sua personalidade "humana porém falível" com a escalação de Harrison Ford para o papel.

Ford, então um astro por causa do estouro de Han Solo em "Star Wars" e "O Império Contra-Ataca", não era a primeira opção de Lucas. Rostos conhecidos como Bill Murray e Jeff Bridges entraram na mistura, e o produtor bateu o martelo com Tom Selleck. Quando a série "Magnum" tomou sua agenda, Indiana Jones terminou nas mãos de Ford.

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Harrison Ford e Steven Spielberg em um momento de paz durante as filmagens
Imagem: Paramount

A partir daí, o filme passou a tomar corpo, mesmo com negociações draconianas de George Lucas com o estúdio Paramount, que separou um orçamento de US$ 20 milhões e ditou cláusulas rígidas para que o filme não estourasse prazo nem orçamento - Spielberg fracassara com a comédia "1941" e o estúdio estava ressabiado.

O diretor então enxugou toda a gordura do texto de Kasdam e, mesmo com alguns percalços ao longo da produção, entregou o filme antes do previsto e com dinheiro sobrando. A máquina de marketing começou a funcionar, vendendo a "nova aventura dos criadores de 'Tubarão' e 'Guerra nas Estrelas'". E o resto, como dizem, é história.

Para refrescar a memória (como se fosse preciso), "Os Caçadores da Arca Perdida" acompanha, em 1936, o arqueólogo Indiana Jones em uma jornada que passa da selva amazônica ao Cairo, no Egito, em busca da Arca da Aliança, artefato religioso que, por seus supostos poderes místicos, também está na mira de um certo Adolf Hitler e seu exército nazista. É uma corrida contra o tempo em que o destino do mundo repousa nas mãos de um homem.

"Os Caçadores da Arca Perdida" foi a maior bilheteria de 1981, com mais de US$ 330 milhões em caixa. Também foi indicado a nove Oscar, inclusive direção e filme - que perdeu, em uma das maiores infâmias da Academia, para o dramalhão "Carruagens de Fogo". Não importa. O tempo tratou de colocar a aventura de Spielberg e Lucas em seu devido lugar.

Até porque não existe nada nem de longe parecido com "Caçadores". Nenhum outro filme jamais conseguiu o mesmo equilíbrio de ação e aventura, de humor e senso de perigo, com um protagonista tão charmoso, vilões tão detestáveis e uma mocinha tão ousada e independente - Marion Ravenwood, papel de Karen Allen. Ao longo de quatro décadas, o filme ainda é o padrão de excelência para o cinemão e influência para gerações de cineastas que encaram desenhar uma aventura em tela grande.

O próprio Spielberg tentou recapturar o gênio na garrafa, e eu arriscaria que ele conseguiu. As três continuações de "Os Caçadores da Arca Perdida" caminham com as próprias pernas. "Indiana Jones e o Templo da Perdição" amplificou a intensidade e a violência das imagens. "A Última Cruzada" abraçou o humor com a dinâmica de Ford e Sean Connery, no papel do pai do aventureiro. Até o famigerado "O Reino da Caveira de Cristal" tem méritos, em especial ao arriscar a ficção científica como tema, perfeito para sua ambientação nos anos 1950.

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Indy busca a localização da Arca da Aliança em uma trama cheia de mistério
Imagem: Paramount

"Os Caçadores da Arca Perdida" segue, porém, como a maior aventura que o cinema já produziu em sua história. A mistura de mistério e fantasia, embalada com produção de primeira e com talentos superlativos nos bastidores, entregou uma pérola, uma raridade que surge eventualmente como um fenômeno, quando os astros estão alinhados e o mundo parece segurar o fôlego para receber o inesperado.

Quatro décadas depois - no Brasil a estreia foi no dia do Natal de 1981 -, o filme permanece uma cápsula do tempo perfeita, um momento capturado em âmbar que ainda será apreciado por incontáveis gerações. É apaixonante, assustador na medida certa, escrito com maestria e executado com habilidade e elegância.

Coincidentemente o aniversário é celebrado justamente quando surgem as primeiras imagens de Harrison Ford no set da próxima (e, acredito, derradeira) aventura de Indiana Jones no cinema. Spielberg entregou a direção para James Mangold, em um filme ainda sem título ou sinopse, em que Ford, que caminha para os 80 anos de idade, dividirá a cena com Phoebe Waller-Bridge e Madds Mikkelsen.

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Indy e Marion Ravenwood (Karen Allen) no clímax bombástico da aventura
Imagem: Paramount

Será uma despedida agridoce. Não acredito que Indiana Jones, ao contrário de James Bond ou de qualquer personagem da Marvel, deva ser interpretado por outro ator senão Harrison Ford. As aventuras do arqueólogo seguem em outras mídias, seja em quadrinhos ou em games, e tudo bem.

O novo filme, porém, deve fechar um ciclo, encerrar uma história. Inspirar mais gerações de cineastas a criarem suas próprias aventuras, a bolar seus próprios heróis, humanos e falhos, charmosos e determinados, bem-humorados e com senso de perigo.

Se precisar de uma base sólida para disparar as ideias, não é preciso ir muito longe: há 40 anos, o chamado da aventura tem nome e endereço, e é sempre um reencontro feliz com Indiana Jones ao rever a obra-prima absoluta que é "Os Caçadores da Arca Perdida".

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'Os Caçadores da Arca Perdida' é uma obra-prima para emoldurar e colocar na parede
Imagem: Paramount

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL