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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lutas preguiçosas e trama sem nexo: Nada funciona no novo 'Mortal Kombat'

Hiroyoki Sanada é Scorpion em "Mortal Kombat" - Warner
Hiroyoki Sanada é Scorpion em 'Mortal Kombat' Imagem: Warner
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

21/05/2021 02h12

Nunca houve uma história em "Mortal Kombat", a série de jogos criada em 1992. Nem precisava. A graça da coisa era selecionar um lutador, entre artistas marciais, militares casca grossa, ninjas e seres fantásticos, e sair no braço até eleger um vencedor. Para temperar a fórmula para adolescentes em busca de diversão, sangue e violência de desenho animado foram adicionados ao gameplay.

Uma propriedade intelectual, porém, dificilmente fica confinada em sua mídia original. Paul W.S. Anderson foi o primeiro a expandir o jogo em 1995, quando seu "Mortal Kombat" chegou aos cinemas. Ele entendeu claramente que a coisa toda era escapismo kitsch sem se levar muito a sério e costurou uma desculpa para colocar rapidinho seus personagens em um torneio que decidiria o destino da Terra.

Entra em cena "Mortal Kombat", versão 2021, e o diretor Simon McQuoid (em seu primeiro filme) decidiu complicar o que era simples. Sai de cena a diversão ligeira dos games (e do filme de Paul Anderson), aqui substituída pela trama mais do que batida de um "escolhido" que precisa descobrir seu verdadeiro poder para vencer o mal. Sim, o sono é inevitável.

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Cole Young (Lewis Tan), personagem de 'Mortal Kombat' criado para o filme
Imagem: Warner

É louvável a tentativa de amarrar o fiapo narrativo apresentado na série de games (mais de duas dezenas desde o lançamento do original). Mas os roteiristas Greg Russo, Dave Callaham e Oren Uziel podiam ao menos fingir algum esforço. Em "Mortal Kombat" nada tem nexo, sobrando à pior coleção de atores do cinema moderno o esforço de imprimir alguma dignidade a diálogos risíveis e constrangedores.

A aventura até começa promissora. É no Japão feudal que o lutador lendário Hanzo Hasashi (Hiroyoki Sanada, o único com um pulso em todo o filme) abandonou sua vida de violência e tenta manter sua família em segurança. Por motivos jamais explicados, ele é alvo do ninja do mal Bi-Han (Joe Taslim), que o despacha para o inferno, mas falha em interromper sua linhagem.

Corta para o século 21. Cole Young (Lewis Tan, único personagem criado para o filme) é um lutador acostumado a beijar a lona. Ele porta uma marca de nascença, um símbolo de dragão, e logo é arrastado para um conflito interdimensional em que os campeões da Terra precisam derrotar os lutadores da dimensão maligna Exoterra.

Cole alia-se primeiro a Jax e Sonya Blade, e parte para seu treinamento no templo do deus do trovão Raiden, onde encontra Liu Kang e Kung Lao. Do outro lado, o senhor das trevas Shang Tsung junta a gangue com Bi-Han - agora atendendo por Sub-Zero -, Mileena, Kabal, Reiko e Nitara. O mercenário Kano é o elemento de desequilíbrio.

Espera-se, em qualquer história, conflitos dramáticos, uma progressão narrativa e algum desenvolvimento de personagens. Afinal, ao longo de um filme supostamente de artes marciais, precisamos nos importar com os protagonistas para existir algum risco, alguma tensão nos combates. Não é o que acontece.

A graça da série "Mortal Kombat" é o caráter aleatório da coisa toda. É um grupo de estranhos, unidos por uma missão maior do que eles: salvar o mundo. Na visão de McQuoid essa casualidade não existe. Os lutadores precisam exibir uma marca para entrar no torneio, e essa marca será determinante para que cada um ative sua "arcana", ou seu superpoder mágico.

Incapaz de construir a personalidade de seus personagens, o diretor conforma-se em construir cenas de luta, dentro e fora do treinamento, para que os heróis descubram sua habilidade sobre humana. Jax, sem braços, desenvolve membros biônicos. Kano dispara um laser por um olho, como a versão 1,99 de um X-Men. Sonya Blade sequer possui uma marca - mas é aceita na peleja mesmo assim.

Para deixar tudo mais "radical", bem ao gosto do público pré-adolescente, Simon McQuoid capricha no sangue e na violência de mentirinha. Dá até para imaginar a turma que ainda não faz a barba soltando um "isso é brabo!" quando Kung Lao serra um adversário ao meio com seu chapéu-lâmina.

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Simon McQuoid dirige Sub-Zero (Joe Taslim) em 'Mortal Kombat'
Imagem: Warner

É assim, pegando no tranco, que "Mortal Kombat" arrasta-se por lutas mal coreografadas e pessimamente fotografadas, em uma ambientação que parece ter saído de um filme do Didi. A coisa só engrena novamente na prorrogação do segundo tempo, com o retorno do personagem de Sanada, agora chamado Scorpion, e o filme ensaia um semblante de trama.

Se a vingança de Scorpion e sua batalha eterna com Sub-Zero estivesse no centro de "Mortal Kombat", talvez o resultado pudesse ser chamado de filme. Do modo que foi costurado, a aventura serve somente de antessala para uma continuação que, se sair do papel, pode finalmente mostrar forças antagônicas em conflito num torneio cósmico, que aqui sequer chega a começar. Porque existe esse pequeno detalhe: não temos o "kombate" em "Mortal Kombat"! Errr... fatality?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL