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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hollywood é o pior ambiente de trabalho do planeta

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

08/04/2021 19h20

Hollywood é um ambiente tóxico e insalubre. Não é mera conjectura, é fato. Evidência número um: a reportagem no "The Hollywood Reporter" que expõe o lado abusivo, agressivo, autoritário e controlador do premiadíssimo produtor Scott Rudin, de "Onde os Fracos Não Tem Vez" e "A Rede Social".

O relato nem choca mais. Rudin aparentemente trata seus funcionários com uma receita de humilhação e assédio moral, que em uma ocasião descambou para a agressão física. Se esse comportamento era tolerado há alguns anos, com as cifras e o prestígio trazidos pelos filmes disfarçando esse comportamento, tudo mudou com a ascensão do movimento #MeToo e a prisão de Harvey Weinstein, antes um dos homens mais poderosos do cinema.

Nem todos, claro, são estupradores como Weinstein. A bem da verdade a linha entre um chefe implacável e um idiota abusivo é bastante tênue. Recentemente ela ficou borrada com a chegada de "Liga da Justiça de Zack Snyder" e as denúncias de comportamento inadequado por parte do diretor Joss Whedon, apontadas pelo ator Ray Fisher, que no filme interpreta o Cyborg.

Quando Snyder afastou-se do projeto após a morte de sua filha, e "Liga" foi assumido por Whedon, o clima durante as filmagens das novas cenas foi longe de ser civilizado. O novo diretor, com moral por ter os dois primeiros "Vingadores" no currículo, impôs sua vontade e criou um ambiente de trabalho tóxico. Fisher e Gal Gadot expuseram seu descontentamento, mas dezenas de vozes que temiam por seus empregos e seu futuro na indústria permanecem caladas.

rudin solo - Reprodução - Reprodução
O produtor Scott Rudin, um sujeito bacana...
Imagem: Reprodução

Trabalhar em Hollywood é sinônimo de atuar sob uma enorme pressão. Afinal, muitos filmes colocam dezenas, às vezes centenas de milhões de dólares em jogo. Muitas vezes o sucesso ou fracasso de um projeto repousa exclusivamente nos ombros de um diretor. O clima para conseguir executar sua visão não raro é ditatorial.

No caso de Ray Fisher e Joss Whedon, a verdade dos fatos permanece nas sombras. Uma evidência ficou clara com o lançamento da versão de Zack Snyder para o filme, restaurando sua visão original: quase todas as cenas com o Cyborg haviam sido cortadas na versão de Whedon. Não significa que o motivo seja racismo ou abuso, mas o silêncio deixa todas as alternativas no ar.

Não ajudou também o fato de Fisher querer dar "notas" a Whedon acerca da condução de seu personagem: jamais um diretor consagrado vai ouvir um ator iniciante, é uma quebra de hierarquia que homens em posição de poder não toleram.

EXPLOSÃO NO SET

Um diretor mais incisivo muitas vezes ganha a antipatia da equipe. Ao final do processo, porém, todos entendem que ele fez o necessário para criar sua arte. É o caso de James Cameron, que não mede palavras ou ações para conseguir o que quer.

No set de "O Segredo do Abismo", por exemplo, ele exigiu tanto do ator Ed Harris que, em dado momento, ele correu sério risco de afogamento. A equipe de "O Exterminador do Futuro 2", por sua vez, usava camisetas com a frase "Você não me assusta, eu trabalho para Jim Cameron".

David O. Russell, responsável por "O Lado Bom da Vida" e "Trapaça", disparou impropérios contra a atriz Lily Tomlin no set de "Huckabees - A Vida É Uma Comédia", quase interrompendo as filmagens. Já George Clooney partiu para cima do diretor nas filmagens de "Três Reis" quando este ventilou sua fúria contra sua equipe.

Eu mesmo testemunhei Bryan Singer perder a compostura nas filmagens de "X-Men". Único jornalista então no set em Toronto, eu estava ao lado do diretor quando ele começou a reclamar de um barulho em algum lugar do estúdio que teimava em atrapalhar sua cena. Depois de insistir para que descobrissem a origem do incômodo, ele perdeu a cabeça com um assistente e precisou ser acalmado por Hugh Jackman. Tenso.

rudin assistente - Amazon Prime - Amazon Prime
Julia Garner em 'A Assistente'
Imagem: Amazon Prime

O comportamento horroroso de Scott Rudin, por sua vez, é corroborado por uma dúzia de testemunhas que contribuíram para a matéria do "The Hollywood Reporter". São ex assistentes e produtores júnior que sofreram assédio moral pesado e até agressões físicas. Laptops eram atirados por janelas, assim como outros objetos ao alcance do produtor.

Para entender melhor o comportamento de Rudin nem é preciso ir longe. Les Grossman, personagem de Tom Cruise em "Trovão Tropical", é um produtor abusivo e grosseiro, que trata seus subordinados como lixo - ele foi inspirado em Scott Rudin.

O cinema já voltou seu olhar para esse tipo de comportamento. Em 1994, Kevin Spacey (logo quem...) interpretou um executivo de cinema abusivo e agressivo, que é sequestrado por um assistente interpretado por Frank Whaley, disposto a se vingar. A coisa não sai exatamente como o esperado.

Já o recente "A Assistente", disponível na Amazon Prime, traz Julia Garner como uma aspirante a produtora que trabalha no escritório de um produtor poderoso em Nova York. O filme de Kitty Green acompanha sua rotina sufocante ao longo de um dia de trabalho, em que ela é submetida - ou observa - o comportamento desregrado do chefe.

Primeira obra feia sob a luz do #MeToo, "A Assistente" é um relato claustrofóbico sobre a disparidade nas posições de poder no cinema, e como os jovens que entram nesse mundo amargam humilhações e injustiças na esperança de, um dia, estar no lugar de seu algoz. É o filme perfeito para desencorajar qualquer um que queira trabalhar na indústria.

SERIAM OS GÊNIOS TOLERADOS?

Alfred Hitchcock era implacável com seu elenco, as atrizes em particular. Ele as comparava repetidamente com "gado" e não tinha muito respeito por seu trabalho. Stanley Kubrick era um déspota no set, desconhecendo limites para atingir resultados e criar obras-primas. Que o diga Shelley Duvall, que nunca se recuperou totalmente da experiência de fazer "O Iluminado".

Dois gênios incontestáveis que, ao impor sua visão muitas vezes implacável e nada suave na arte de criar filmes, geraram alguns dos maiores clássicos do cinema. Se trabalhassem na Hollywood do século 21, é provável que não fossem tolerados. Cinema não é a arte da gentileza. O preço da perfeição muitas vezes é alto. Há quem pague.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL