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Roberto Sadovski

'Maldição da Mansão Bly' troca sustos pela tragédia de uma história de amor

Victoria Pedretti desvenda os mistérios de "A Maldição da Mansão Bly" - Netflix
Victoria Pedretti desvenda os mistérios de 'A Maldição da Mansão Bly' Imagem: Netflix
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

13/10/2020 04h26

Em "A Maldição da Mansão Bly", fantasmas não são a fonte do mal, não são o gatilho do medo irracional. Eles são reflexo de traumas, de memórias que o tempo aos poucos apaga, de paixões não resolvidas, de tragédias inevitáveis. Se toda história de fantasmas é também uma história de amor, a série conduzida por Mike Flanagan é um triunfo agridoce.

Ao contrário do que o roteirista e diretor fez em seu trabalho anterior com a Netflix, "A Maldição da Residência Hill", não existe aqui a mesma atmosfera macabra, a mesma urgência que deixava os sentidos à flor da pele. Sobra estilo e talento e referência e reverência em "Bly Manor". Os sustos, entretanto, são tímidos.

Não significa, vale ressaltar, que sejam inexistentes. A balança, porém, pende menos para o terror e mais para as relações - românticas, fraternais e familiares - que conectam os protagonistas. Tudo é amarrado por uma presença sobrenatural que permeias as paredes e jardins e cantos escuros de um casarão centenário marcado pela dor.

bly manor flora - Netflix - Netflix
Flora (Amelie Bea Smith) em 'A Maldição da Mansão Bly'
Imagem: Netflix

A inspiração para Flanagan vem mais uma vez da literatura. "A Maldição da Residência Hill" adaptou o romance clássico escrito por Shirley Jackson em 1959. "A Maldição da Mansão Bly", por sua vez, tem como ponto de partida "A Volta do Parafuso", que Henry James publicou pela primeira vez em 1898.

O termo "ponto de partida" é literal, já que "Mansão Bly" tem como centro narrativa dois órfãos que ficam aos cuidados de uma governanta em um casarão no interior da Inglaterra. O texto de James foi adaptado de forma brilhante por Jack Clayton no espetacular "Os Inocentes", de 1961, terror clássico com Deborah Kerr - que, por sua vez, inspirou "Os Outros", com Nicole Kidman.

Flanagan também usa elementos de outros trabalhos de James, como "The Jolly Corner" (em que um homem é assombrado por seu próprio alter-ego) e "The Romance of Certain Old Clothes" (em que duas irmãs se apaixonam pelo mesmo homem), para enriquecer a trama. Cada episódio, por sinal, é batizado com o título de uma obra do autor.

bly manor miles - Netflix - Netflix
Miles (Benjamin Ainsworth) é uma criança feliz em 'A Maldição da Mansão Bly'
Imagem: Netflix

A história principal acompanha Dani Clayton (Victoria Pedretti, um dos vários rostos de "Residência Hill" no elenco), americana vivendo há seis meses em Londres que, em 1987, aceita uma posição como babá para dois órfãos, os irmãos Miles (Benjamin Ainsworth) e Flora (Amelie Bea Smith). Ela muda-se para a Mansão Bly, onde é recebida pela governanta Hannah (T'Nia Miler), a jardineira Jamie (Amelia Eve) e o cozinheiro Owen (Rahul Kohli).

As crianças, porém, são marcadas pela perda. Seus pais morreram dois anos antes em um acidente durante uma viagem de férias. Seu tio, Henry Wingrave (Henry Thomas com um curioso sotaque britânico) tem seus próprios motivos para manter-se longe da mansão. E sua última babá, Rebecca (Tahirah Sharif), suicidou-se meses antes no lago que cerca o lugar.

A própria Dani, assombrada por eventos ocorridos ainda nos Estados Unidos, traz seus próprios demônios ao chegar em Bly. As crianças, inicialmente adoráveis, parecem esconder segredos entalhados nas paredes da mansão. A figura de um empregado desaparecido de Henry Wingrave, o soturno Peter Quint (Oliver Jackson-Cohen), parece ser a chave para desvendar os mistérios no lugar. E existem, claro, os fantasmas, espalhados por cada canto, cada corredor, cada quarto e cada sombra da mansão.

Mike Flanagam é um entusiasta do terror construído lentamente, e não o que depende de sustos fáceis. Foi assim em "Residência Hill". Também no cinema, com "O Espelho", "Ouija - A Origem do Mal" (raro caso de continuação superior ao original) e no arriscado "Doutor Sono", que ousou unir os mundos de Stephen King e Stanley Kubrick.

"A Maldição da Mansão Bly" segue a mesma estrutura, abordando personagens diversos que, por fim, amarram a trama principal. A premissa sólida dos primeiros episódios, porém, perde consistência ao destacar personagens que não são tão interessantes quanto a protagonista. A série recupera o fôlego no final, quando a mitologia principal da Mansão Bly é desvendada e os sustos voltam a prevalecer.

Mas não espere uma experiência apavorante. Se em "Residência Hill" a casa era um recorte da danação, atraindo fantasmas pela força do mal, em "Mansão Bly" existe uma melancolia amarrando as diferentes aparições ligadas às suas paredes. Como direção de arte, "Bly" é mais convidativa que sua antecessora: apesar de seus cantos escuros, não existe a mesma atmosfera de pavor absoluto.

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Henry Thomas retoma a parceria com Mike Flanagan em 'A Maldição da Mansão Bly'
Imagem: Netflix

Ser um "criador de terror" também não parece a força que impulsiona Mike Flanagan. É claro que, até então, sua obra está mergulhada no gênero. Seu interesse, porém, é explorar os laços que amarram famílias - a que temos ao nascer ou a que construímos ao longo da vida - em situações extremas. É uma abordagem que amplifica a conexão emocional com as histórias.

Nem sempre funciona. Alguns elementos de "A Volta do Parafuso", em especial a natureza maligna de Peter Quint, foram retrabalhados como traumas da infância traduzidos em ambição desmedida. No filme "Os Que Chegam Com a Noite", que em 1971 surgiu como um prólogo de "Os Inocentes", Marlon Brando fez de Quint um sádico violento que bradava impropérios sobre amor e morte. Oliver Jackson-Cohen, embora imensamente talentoso, muitas vezes não vai além do canalha charmoso.

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Não faltam fantasmas carregados de fúria em 'A Maldição da Mansão Bly'
Imagem: Netflix

A série também sofre com a ausência de uma visão de comando clara. Ao contrário de "Residência Hill", Flanagan não assumiu a direção inteira do projeto, entregando os episódios a uma série de colaboradores, assinando apenas o episódio inicial. Embora a decisão tenha acertado ao dar voz distinta a cada capítulo, bem como abordagens únicas à presença sobrenatural no lugar, "Mansão Bly" soa como uma antologia que só encontra solidez quando todas as peças são posicionadas.

Por fim, a criação de Flanagan é uma investigação mais melancólica do que assustadora. As revelações reservadas para seu último capítulo surgem como um conto agridoce, amarrando na história do amor impossível - mas não pelos motivos que possam parecer aparentes - a tragédia que transforma traumas, memórias que o tempo aos poucos apaga, paixões não resolvidas e tragédias inevitáveis em histórias de fantasmas.

Se o prisma for acompanhar uma boa história, mas não necessariamente uma história de terror, aí sim "A Maldição da Mansão Bly" torna-se uma experiência completa. Os fantasmas mais assustadores, afinal, são aqueles que carregamos em nós mesmos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL