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Em 'O Diabo de Cada Dia' o fanatismo religioso é fonte de todo o mal

Tom Holland em "O Diabo de Cada Dia" - Netflix
Tom Holland em 'O Diabo de Cada Dia' Imagem: Netflix
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

22/09/2020 03h50

Não existe nenhum espaço para luz na escuridão que permeia "O Diabo de Cada Dia". O longa de Antonio Campos traz uma coleção de pessoas quebradas em histórias trágicas que se cruzam pela força de um denominador comum: o fanatismo religioso, mergulhado em ignorância, que traz dor, sofrimento, corrupção e morte.

O longa é uma adaptação do primeiro livro de Donald Ray Pollock, "O Mal Nosso de Cada Dia", que usa uma criança negligenciada, transformada em adulto traumatizado, para explorar os cantos pouco iluminados dos Estados Unidos pós Segunda Guerra, em que o otimismo do "sonho americano" passava longe de rincões banhados por crime e ignorância.

Se a experiencia não é agradável, é porque as vidas entrelaçadas pelas palavras de Pollock também não são. Tomem como exemplo Willard Russell (Bill Skarsgård), soldado que voltou aos Estados Unidos com vários parafusos a menos.

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Bill Skarsgård dá a dimensão do fanatismo em 'O Diabo de Cada Dia'
Imagem: Netflix

A experiencia no front deixou cicatrizes profundas, que pioram com a morte de sua mulher - apesar da devoção do marido, exercida com sacrifícios e oferendas, ela sucumbe ao câncer. Quando Willard decide também abreviar sua estadia no planeta, todo esse legado de trauma e dor é passado a seu filho, Arvin, que entende antes da puberdade que o mundo é um lugar frio e cruel.

Arvin é, também, a oportunidade para Tom Holland flexionar seus músculos dramáticos. A simpatia da lembrança mais óbvia que vem com o ator - Peter Parker, o Homem-Aranha do Universo Cinematográfico Marvel - é logo pulverizada quando o jovem, forçado a uma maturidade precoce, traduz em ultra violência a resposta ao bullies que lhe perseguem brevemente na escola.

É dele a responsabilidade em conduzir a narrativa, papel difícil em que Holland não decepciona. Seu Arvin continuamente busca deixar as trevas que determinam sua vida e teimam em puxá-lo para o abismo. Talvez por isso ele seja o único capaz de perceber a podridão no fanatismo religioso, que surge infantilizado em sua irmã de criação (Eliza Sanlen).

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Antonio Campos dirige Tom Holland em 'O Diabo de Cada Dia'
Imagem: Netflix

Apesar de centralizada no personagem de Holland, a narrativa de "O Diabo de Cada Dia" é dividida em "núcleos", com personagens em colisão, assim como em "Babel" ou "Crash". A sombra opressora da religião, porém, faz com que a trama não pareça aleatória como no filme de Alejandro Iñárritu, ou artificial como no longa de Paul Haggis. Ela traz, entretanto, a mesma ausência de leveza.

A mão pesada vem da direção de Antonio Campos. Filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes e da produtora Rose Ganguzza, Campos iniciou sua carreira no cinema independente, lapidando seu ofício na série "The Sinner", que lhe gerou certa afinidade com temas sombrios.

Falta, porém, uma certa sutileza em "O Diabo de Cada Dia". A desgraceira generalizada, embora parte da trama, pode ficar cansativa sem equilíbrio. Mesmo que o filme nunca caia na armadilha do choque vulgar, existe um flerte perigoso com esse limite.

Se existe falhas na carpintaria, o elenco compensa com fúria. "O Diabo de Cada Dia" é habitado por criaturas sórdidas, que ganham intérpretes à altura. Como o fanático Roy Laferty (Harry Melling, o primo Dudley de Harry Potter), que garante que Deus "curou" seu medo patológico por aranhas virando uma jarra cheia dos bichos no rosto.

Não menos maluco é Carl Henderson (Jason Clarke), que ao lado de sua mulher Sandy (Riley Keough) atrai jovens incautos para uma sessão fotográfica erótica que torna-se um ritual homicida ao melhor estilo "Assassinos Por Natureza". Ou ainda o pastor personificado por Robert Pattinson, que usa sua posição de poder para consolidar uma série de abusos.

São personagens que cometem atrocidades, sempre "em nome de Deus", sempre justificadas por algum chamado divino. Sempre camuflando sua verdadeira natureza: insanidade assassina, narcisismo patológico, falta de caráter e empatia. "O Diabo de Cada Dia" escancara, assim, a sordidez que se justifica na missa de domingo, em que os pecados são expiados.

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Robert Pattinson é um pastor sórdido em 'O Diabo de Cada Dia'
Imagem: Netflix

Este cenário exige uma atmosfera mais suja, em que a degradação moral é representada por tudo colocado em cena. A direção de arte, mesmo cuidadosamente desgrenhada, carece da sujeira física que acompanha a podridão moral. Lembrei do clima de "Réquiem Para um Sonho" e do estrago que Darren Aronofsky faria com esse roteiro em mãos...

Ainda assim, "O Diabo de Cada Dia" é uma experiencia emocional poderosa, anabolizada por seu elenco superlativo. O que pesa na alma, entretanto, não é o sangue (que jorra em profusão) ou o retrato sem retoques da miséria humana: é a constatação que a religião, historicamente apresentada como um alento, serve unicamente como catalisador de dor e tragédia.

No mundo descrito por Donald Ray Pollock, e materializado por Antonio Campos, não existe redenção ou luz. Apenas pessoas amargas, navegando aleatórias entre as desgraças da vida, sem nunca alcançar um final feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL