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Roberto Sadovski

'Umbrella Academy' mostra que ainda existe fôlego criativo em super-heróis

Os irmãos super poderosos de "The Umbrella Academy" - Netflix
Os irmãos super poderosos de 'The Umbrella Academy' Imagem: Netflix
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

10/08/2020 05h53

"The Umbrella Academy" é sobre uma equipe de super-heróis que precisa salvar o mundo. Nesses dias em que a cultura pop parece travada no ponto morto, a definição genérica da série inspirada pela HQ de Gerard Way e Gabriel Bá não inspira confiança.

Ainda bem que "The Umbrella Academy" pode ser apresentada de várias formas, e certamente "genérica" não é uma delas. A saga das irmãos Hargreeves pode ser melhor definida como, vejamos, "uma equipe de super-heróis que precisa sobreviver a eles mesmos antes de salvar o mundo".

Desconstruir o conceito de "super-heróis" não é exatamente uma novidade. O melhor exemplo, "Watchmen", já tem mais de trinta anos nas costas. "The Umbrella Academy", em sua origem no papel, assumia-se como uma grande aventura de ficção científica.

The Umbrella Academy 4 - Netflix - Netflix
Tom Hopper sai no braço em 'The Umbrella Academy'
Imagem: Netflix

Os feitos heroicos de seus protagonistas de poderes extravagantes, porém, ficavam no banco do carona. Sim, eles tinham de salvar o mundo (de um deles próprios), mas a condução da trama girava em torno de suas psiques fragmentadas por um pai abusivo.

A versão para a Netflix limou alguns dos elementos mais fantásticos e conectados ao mundo das histórias em quadrinhos. Uniformes de "super-heróis" e vilões de visual bizarro ficaram para trás. A ênfase foi manter um tom o mais próximo possível do real - e estamos falando de uma série com um chimpanzé falante!

A coisa toda funcionou, e a primeira temporada adaptou o primeiro arco das HQs com louvor. Nessa segunda temporada a coisa toda é ainda melhor: os conflitos são mais interessantes, a trama é mais fluida, a interação dos personagens é melhor amarrada.

Uma das adições mais bem-vindas é a dose generosa de humor, que suaviza os momentos mais pesados da série (que não são poucos). Humor é fundamental para humanizar uma trama os coloca, como joguei no spoiler lá em cima, mais uma vez com a missão de salvar o mundo.

The Umbrella Academy 3 - Netflix - Netflix
Robert Sheehan entretém um culto em 'The Umbrella Academy'
Imagem: Netflix

Seguindo de perto a trama do segundo arco de histórias dos gibis, "The Umbrella Academy" pega o gancho do fim da temporada anterior, quando os irmãos voltam no tempo para impedir a destruição da Lua e o fim dos tempos para a humanidade.

Viagens no tempo, como os Vingadores e Marty McFly podem atestar, são complicadas, e a equipe é espalhada em diferentes momentos temporais na Dallas dos anos 60, pouco antes da morte do presidente John Kennedy. Sozinhos, eles tentam tocar a vida em sua nova realidade.

O super-forte Luther (Tom Hooper) torna-se leão de chácara de Jack Ruby (quem conhece história vai lembrar desse nome). Diego (David Castañeda) surge trancafiado em um sanatório. Allison (Emmy Raver-Lampman) casou-se com um ativista dos direitos humanos. Klaus (Robert Sheehan) iniciou um culto e vive cercado de fanáticos, enquanto Vanya (Ellen Page) perdeu a memória e vive em uma fazendo como babá do filho autista de um casal.

Quem começa a consertar a confusão é o viajante do tempo e assassino profissional Número Cinco (Aidan Gallagher), que aos poucos junta as peças e seus irmãos, depois de ter outra visão apocalíptica, com os Estados Unidos em guerra nuclear total com a Rússia.

O que mais impressiona no texto de "The Umbrella Academy" é como tantas partes em movimento encaixam-se perfeitamente na engrenagem narrativa. Cada novo episódio traz pistas que, à frente, ajudam a trama a fazer sentido - inclusive os novos personagens inseridos na mitologia bolada por Way e Bá na HQ, traduzida aqui pelo showrunner Steve Blackman.

A série também prova que o universo dos super-heróis, mesmo massificado como está em 2020, ainda é capaz de gerar histórias e personagens relevantes e modernos, em sintonia com os anseios da cultura pop contemporânea, sem perder o senso de diversão que um grupo de pessoas super poderosas consegue evocar.

"The Umbrella Academy" consegue ser diverso sem precisar de um púlpito, aborda temas inseridos no espírito do tempo sem perder o foco da trama principal, consegue empolgar e emocionar com personagens que trazem, todos eles, arcos dramáticos melhor resolvidos que a temporada anterior.

The Umbrella Academy 1 - Netflix - Netflix
A equipe reunida para o fim do mundo em 'The Umbrella Academy'
Imagem: Netflix

Tudo isso com a sensibilidade de uma produção independente ancorada no escopo de um candidato a blockbuster. Tem estilo de sobra, é bizarro de maneira peculiar e 100 por cento rock and roll. Suas (poucas) falhas são compensadas pelo equilíbrio delicioso entre seriedade e dramas pesados com a bobagem da premissa de viagem no tempo.

Se "The Umbrella Academy" tivesse feito a jornada do papel para outra mídia alguns anos atrás, resultaria em um filme confuso e atropelado - o fracasso "Mystery Men", batizado aqui "Heróis Muito Loucos" (!), é a melhor comparação.

No mundo do streaming, porém, terminou encontrando chão sólido, tempo certo para degustação e o canal perfeito como uma série a ser maratonada. No mundo de 2020, pós-"Vingadores Ultimato", os super-heróis ainda possuem muito chão para surpreender. "Watchmen" está pertinho, ainda no retrovisor. "The Boys" já já estreia sua segunda temporada. Está tudo certo no mundo.