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Renata Corrêa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Manhãs de Setembro" e a potência transformadora de uma sala de roteiro

Liniker interpreta Cassandra na série "Manhãs de Setembro" - Divulgação
Liniker interpreta Cassandra na série "Manhãs de Setembro" Imagem: Divulgação

Colunista do UOL

12/07/2021 14h40

Mais de setenta anos depois do seu lançamento o livro "O segundo sexo" de Simone de Beauvoir continua ecoando a sua radicalidade e atualidade. Uma das frases mais famosas da autora "Não se nasce mulher, torna-se" transmitiu uma verdade tão potente sobre a condição política de ser uma mulher no mundo, que seu significado se renova, se atualiza, ecoando nos corações de todas aquelas que passam por essa experiência.

A experiência de "tornar-se mulher" é material farto para o audiovisual. Geralmente são histórias onde se tornar mulher é um processo conduzido por homens, sexualmente e intelectualmente, num contexto romântico. Mas nós mulheres sabemos que na vida real tornar-se é um auto parto, e as dores que nos fazem nascer são muito mais complexas, variadas e bonitas.

"Manhãs de Setembro", série de cinco episódios da Prime Video é uma experiência audiovisual onde podemos observar esse processo de amadurecimento. A protagonista, Cassandra - interpretada lindamente pela cantora Liniker - tem trinta anos. Pela primeira vez consegue alugar um cantinho só seu. Está apaixonada. Trabalha como motogirl de dia e à noite canta em um bar, sempre batalhando para emplacar no repertório músicas de sua musa, Vanusa. Cassandra é uma mulher trans e tornou-se quem queria se tornar: independente. Dona do próprio nariz.

Essa estabilidade é abalada quando uma amiga, com quem teve uma noite de amor dez anos atrás, revela que engravidou. E Cassandra agora tem um filho.

Gersinho, interpretado pelo ator Gustavo Coelho, enche a tela de doçura. A cena onde Cassandra repara a semelhança entre seus pés e os pés do filho é pura delicadeza. E essa delicadeza atravessa todos os personagens. Roberta (Clodd Dias) acariciando sua lace enquanto aconselha Cassandra. Pedrita (Linn da Quebrada), falando de amor. O carinho cansado do casal Aristides e Décio (Gero Camilo e Paulo Miklos). A paixão contida de Ivaldo (Tomás Aquino) por Cassandra. E, claro, a Leide de Karine Telles que na beira do abismo, opta por não se jogar, mas por construir uma ponte arriscada e improvável.

O processo de construção de "Manhãs de Setembro" mostra o quão potente pode ser o trabalho coletivo de uma sala de roteiro: Josefina Trotta, Alice Marcone, Carla Meireles e Marcelo Montenegro conseguiram criar uma ilha de afetos num universo áspero. Cada relação entre personagens segue uma lógica de conflito através do amor. Uma escolha muito ousada num mercado que tem apostado em histórias brutais para conseguir audiência e streams.

O poeta russo Maiakósvki definia a arte como o oposto do espelho da realidade proposto pelos norte-americanos; para ele, a arte é um martelo, que forja a realidade como ela deveria ser. Seria fácil, por exemplo, apelar para violência e botar na conta do realismo: o Brasil é o país onde a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos e onde personagens trans tradicionalmente são alívio cômico ou corpo violado. Optar por contar uma história de vida e não de morte é o grande acerto de Manhãs de Setembro. E só uma sala de roteiro forte e com olhar atento para o mundo que vivemos teria coragem de apontar um outro caminho.

Com direção geral sensível de Luís Pinheiro e produção da O2, "Manhãs de Setembro" é um exemplo para o mercado audiovisual nacional. E a lição que fica é de apostar no coração das histórias e em criadores sem medo.

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