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Porta dos Fundos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Brasil Acima de Tudo' é estresse totalmente desnecessário

Relaxa, militante - Reprodução
Relaxa, militante Imagem: Reprodução
Porta dos Fundos

Textos semanais escritos pelos roteiristas do canal de humor Porta dos Fundos, responsáveis por mais palavrões ditos por famosos que a coluna do Léo Dias. "Roteiristas são como duendes: ninguém nunca os vê, mas fazem coisas mágicas por um prato de comida" (antigo provérbio chinês)

Colunista do UOL*

06/09/2021 11h00

O 7 de setembro bate à porta, e não pude deixar de me perguntar: quando foi que aprendemos a diferenciar os nossos feriados? Até pouco tempo atrás, a maior tradição do dia da Independência era acordar achando que era Finados.

A pergunta tá aí de enfeite, porque já sei a resposta. Este protagonismo surgiu depois que o Dia da Independência se tornou mais um dos símbolo sequestrados pelos dodóis da extrema-direita, junto com nossas cores, nossa bandeira, nosso leite condensado e o patriotismo em geral.

O patriota brasileiro edição 2018 entendeu tudo errado. "Brasil acima de tudo" é o extremo oposto do que a gente precisa — menos exigências com nós mesmos. Estamos em 2021 e saúde mental é pauta no Encontro com Fátima pelo menos duas vezes por semana, então não dá para dizer que nunca ouvimos falar. Existe uma solução bem mais gentil com os nossos sentimentos, e eu estou aqui para defendê-la: "Brasil acima da média".

É que o patriotismo brasileiro faria bom uso de umas aulinhas com o zen-budismo, que ensina que quando abaixamos as nossas expectativas, abaixamos também as nossas frustrações. "Acima de tudo" é um lugar bem alto, e como todos os lugares bem altos, é frio, solitário e venta muito.

Veja o caso do Brasil pós-Hexa — se existe algum espaço em que o Brasil está de fato "acima de tudo", é a Copa do Mundo. E isso só desgraça a nossa paz de espírito. Quando a seleção faz gol, não faz mais que a obrigação; cada derrota, porém, é mais humilhante que clicar em um story de 15 segundos atrás. Estar no topo tira todo prazer da conquista, e a vida se torna um entediante defender de cinturão.

Já nas Olimpíadas, a história é oposta. Jogos Olímpicos para o Brasil é a grande festa do "o importante é se divertir". Derrotas são inofensivas, e a cada medalha que a gente ganha, parece que alguém pingou Rivotril no nosso café. Torcer para o Brasil nas Olimpíadas esse ano foi uma grande viagem de LSD: tudo ficou mágico e colorido — mas pode ter sido também efeito da falta de sono

O que quero dizer com tudo isso é que não devemos almejar estar acima dos outros, pois é justamente a nossa humildade que colore as pequenas conquistas. Se fôssemos os melhores do mundo, teríamos sorrido quando a Anitta ganhou uma estátua de cera em Nova Iorque, quando o coreógrafo da Beyoncé seguiu a Ludmilla no Instagram, ou quando o Mark Hamill tweetou #FicaGildoVigor? Provavelmente não. Se é esse Brasil apático que vocês desejam, então "Brasil acima de tudo" funciona bem do jeito que está — sem contar a ironia que quem diz isso, 10 a cada 10 vezes, acha bem mais chique morar fora.

Agora, "Brasil Acima da Média" é um lugar bem mais divertido. As vitórias têm mais sabor, e pra cada derrota há sempre a desculpa "tudo bem Alemanha, mas de que país veio 2 Girls 1 Cup?" Estamos bem melhor assim, obrigado.

*Gabriela Niskier é roteirista do Porta dos Fundos. No Instagram: @gabrielaniskier

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL