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Pedro Antunes

Legado de Renato Russo é manchado pelas legiões que ele mesmo criou

Como está o legado de Renato Russo 25 anos depois da morte dele? - Ricardo Junqueira / Site oficial / Montagem: Pedro Antunes
Como está o legado de Renato Russo 25 anos depois da morte dele? Imagem: Ricardo Junqueira / Site oficial / Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

11/10/2021 04h00

Renato Russo criou duas legiões, uma com "l" maiúsculo (a banda) e outra com "l" minúsculo (os fãs mais ardosos).

Nenhuma aparenta saber lidar com a ausência de seu líder, morto em um 11 de outubro de 1996, há exatos 25 anos, com excessos que mancham o legado de Renato e dificultam a chegada de sua voz a uma nova geração de fãs.

Digo por experiência própria. O fervor fanático em torno da obra de Russo na Legião, por anos, me fez ouvir o grupo com a distância, receio e pé no freio antes de qualquer possibilidade empolgação.

Erro dos grandes.

Renato Russo é a voz mais necessária para os jovens de hoje como foi quando surgiu no início dos anos 80.

O Brasil da nossa época cada vez mais se aproxima perigosamente daquele. Em 2021, a onda conservadora é um tsunami. Parece surreal, mas existe quem defenda a volta da ditadura militar, justamente o sistema que, apesar de enfraquecido, ainda comandava o País 40 anos atrás, quando a Legião Urbana começou.

Russo diferia de tudo e todos. Antes e hoje. Cantava o inconformismo, a rebeldia, o anti-imperialismo, a doçura dos amores inaugurais e a dor imensurável do primeiro coração partido como se cada um desses sentimentos fosse exorcizado do peito dele em cada um daqueles versos.

Queria tê-lo ouvido nos meus anos de rebeldia e adolescência, mas o estigma de ser "banda de luau" e o fanatismo dos fãs que eu conhecida mais espantavam do que acolhiam. Quantos não fugiram também?

Ser fã não é o problema, veja bem, mas toda relação de fanatismo exagerado é tóxica e pouquíssimo saudável.

Tal qual é tóxico o afã por raridades, sobras de estúdio e gravações esquecidas de Renato.

A parada tem um tamanho tão absurdo que envolveu a polícia civil, no fim do ano passado, em uma ação de nome poético e sugestivo de "Será".

Nela, investigavam a acusação de que alguém estava vendendo músicas nunca lançadas de Renato.

O produtor e pesquisador musical Marcelo Froes, conhecido pelo acervo da Legião, teve CDs, HDs e até o celular levado. Um caos. Por nada.

Não existe música inédita de Renato. E ainda bem. Escrevi sobre isso em outubro de 2020 aqui na coluna.

Na época da ação "Será", Carlos Trilha, outro produtor que trabalhou com Renato Russo, disse:

"O que existia de material inédito já foi totalmente espremido."

Achei triste. Um legado "espremido".

O desejo mercadológico pela obra de Renato Russo e Legião Urbana é tamanho que qualquer resquício de ineditismo é fruto de disputa.

Além da existência dos fãs fervorosos - e talvez por causa deles - nada mais é simples no legado da Legião.

Atualmente, este legado se divide entre os dois integrantes restantes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, e o herdeiro de Renato, Giuliano Manfredini.

Os dois lados brigam constantemente e, quer saber, isso está arrebentando com o legado de Renato Russo.

Claro que uma turnê tipo aquela com Wagner Moura nos vocais, embora midiática (e o show não tenha sido de todo mal, pelo que eu me lembro), não se tratava de uma "volta da Legião Urbana" por mais que dois terços do grupo estivesse presente.

Entenda: não significa que Renato seja mais importante do que Dado e Bonfá e, por isso, insubstituível. É, sim, pelo fato de que a banda chegou ao fim com a morte dele.

Uma reunião, seja para um show único ou turnê, não é um renascimento do grupo: é homenagem e tributo. Justíssimos, aliás.

Mas assim como Giuliano tem direito de cuidar do legado do pai, também têm direito Dado e Bonfá de usar o nome da banda deles.

O imbróglio jurídico esquenta de tempos em tempos, os dois lados dão declarações polêmicas e nada se resolve.

Escondido no meio de pirraças jurídicas, excessos tóxicos de parte dos fãs e sugado até a última gota por um mercado vampírico, o legado de Renato Russo acaba impedido de chegar em quem mais se beneficiaria dele: o jovem que vive esse 2021 maluco.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, evidentemente).