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Pedro Antunes

Existem músicas inéditas de Renato Russo? Não - e ainda bem

Renato Russo - Divulgação
Renato Russo Imagem: Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

28/10/2020 16h24

Sem tempo?

  • Uma operação da polícia buscou músicas inéditas de Renato Russo
  • E, claro, essas músicas não existem
  • Você realmente gostaria que encontrassem mais canções nunca ouvidas de Renato Russo?
  • Músicas perdidas por mais de 20 anos seriam boas? Qual seria o uso delas?
  • Ainda bem que não existem mais músicas de Renato Russo

"O que existia de material inédito já foi totalmente espremido", decretou Carlos Trilha, músico, produtor e amigo que trabalhou com Renato Russo em toda a vida.

O post publicado no Facebook se deu após a confusa operação da polícia de nome "Será?" (sim, um dos maiores clássicos escritos por Renato na Legião Urbana), que dizia ter apreendido 30 músicas inéditas do artista.

Não existem, garante Trilha. O mesmo diz Marcelo Fróes, pesquisador e produtor alvo da operação realizada na última segunda, 26 de outubro, em entrevista ao UOL

Saca só o que disse o Trilha sobre esse rebuliço que agitou os legionários fãs de uma das bandas mais importantes do rock nacional (se não a maior). É bem esclarecedor:

E, quer saber? Ainda bem!

Ainda bem que não existem mais registros inéditos de Renato Russo. Divido também da mesma opinião do produtor pelo uso do termo "espremido". O que existia já foi usado, gasto, monetizado. Agora, ainda bem, chega.

Pelo que disseram Fróes e Trilha, existe uma sede enorme por mais conteúdo criado por Renato ao longo dos 36 anos de vida. Fãs perguntam, querem saber, postam mensagens raivosas até.

Mas acabou. E é preciso lidar com isso, também. Tudo é finito. A vida. A obra. Faz parte da humanidade, desde o início da consciência, precisar lidar com a existência e a falta dela.

Discos póstumos são ruins?

Sim. Não é uma regra, mas na maioria, sim. São feitos para ganhar um dinheiro em cima de um artista que nos deixou. Podem trazer versões originais, podem ser canções ainda não finalizadas. O ponto é que talvez determinado artista nem sequer quisesse que essas músicas fossem ouvidas, sabe?

Vamos pensar nos álbuns lançados pelo espólio de Michael Jackson após a morte do Rei do Pop, lá em 2009. A começar por "Michael", álbum problemático desde a primeira música, "Breaking News", que você pode ouvir abaixo.

Uma música frágil (com essa batida de lata, violinos e violoncelos jogados desengonçadamente ali no meio), com uma letra razoavelmente interessante e uma voz de Michael Jackson metalizada. Aliás, logo no lançamento do álbum, um ano depois da morte de MJ, integrantes da família Jackson e fãs questionaram se aquela seria, mesmo, a voz de Michael.

O produtor Will.I.Am, que trabalhou com MJ nos últimos anos de vida, criticou o lançamento desse álbum ao The Guardian, em 2010.

"Ele não iria querer desse jeito. Parasitas malditos",
Will.I.Am, ao The Guardian, em agosto de 2010.

E, sabem, ele está certo.

Do MJ ainda veio mais um disco, "Xscape", de 2014, que tinha uma música boa "Love Never Felt So Good", com Justin Timberlake, criada em 1983 por Michael e Paul Anka, e outras canções não tão boas assim.

Vamos começar pela boa:

Ao mesmo tempo, o espólio de Michael Jackson permitiu isso aqui:

Eu sinceramente acho que ele não gostaria daquilo que é mostrado no vídeo acima.

Outras toneladas de discos póstumos ruins poderiam ser citadas aqui.

A palavra de Trilha volta à mente: "Espremidos".

Pensa só: Jimi Hendrix lançou três álbuns com a Jimi Henrdix Experience e um álbum ao vivo com a Band of Gypsies, certo?

Depois da morte dele vieram mais 13 álbuns de estúdio. Em vida, ele era um gênio. Hendrix realmente gostaria de ver tantas músicas lançadas assim?

Posso continuar com a lista de álbuns póstumos que poderiam ter sido evitados: "Montage of Heck" (de Kurt Cobain, que nada mais é do que fan-service), "Milk and Honey" (sobras das gravações de John Lennon e Yoko), "Made In Heaven" (do Queen, após a morte de Freddie Mercury).

A lista é grande e está cheia de nomes consagrados da música.

Existe disco póstumo bom também

Também existe. Nada é tão dicotômico e absoluto assim. "Sublime", disco da banda homônima (lembra deles?), é um ótimo exemplo. O guitarrista e vocalista Bradley Nowell morreu dois meses antes do lançamento do disco, em 1996. Se o álbum fosse engavetado, jamais teríamos ouvido "Santeria" e "What I Got".

O videoclipe (com roteiro de história, bem no estilo dos anos 90) faz uma homenagem ao Bradley:

Temos "MTV Unplugged in New York", do Nirvana, um petardo desplugado gravado meses antes da morte de Cobain. Ou ainda "American V: A Hundred Highways", um póstumo de Johnny Cash, lançado em 2006, três anos depois da morte do Homem de Preto.

Outro bom exemplo é "Life After Death", um álbum cujo título até arrepia de tão poderoso por conta do contexto: o ótimo rapper The Notorious B.I.G. foi assassinado menos de três semanas antes do lançamento do disco.

Um tempo na relação tóxica

É importante rever a relação entre fã e artista em alguns casos - e não estou falando sobre os fã-clubes do Luan Santana que decidiram parar de apoiá-lo por falta de retorno do artista (ainda).

Estou tratando da eterna necessidade por algo. Demanda, mesmo. Até quando?

O álbum de Amy Winehouse chamado "Lioness: Hidden Treasures", saiu seis meses depois da morte da cantora. Chegou a liderar as paradas do Reino Unido, ficou em 5º lugar nos Estados Unidos.

E é um amontoado de retalhos deixados por Amy em uma despedida cedo demais. "The Girl from Ipanema", o clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, era uma gravação caseira, um aquecimento, não representava Amy na melhor forma, mas está ali, em um disco que poderia não ter existido.

Aliás, já falei sobre a Amy Winehouse aqui na coluna: Como nasceu a lenda de Amy Winehouse: 'Frank', o disco que sorria.

No caso de Renato Russo, temos material póstumo o bastante já. "O Último Solo", lançado em 1997, um ano após a morte do cantautor, tem um bonito trabalho de Carlos Trilha em criar os arranjos que faltavam para o álbum que fizessem justiça à obra de Renato.

O Fróes também fez o seu fan-service com as deliciosas versões caseironas de Renato em "O Trovador Solitário" (lançado em 2008). Entre outros álbuns.

Então, a pergunta é:

Depois de 24 anos, existe ainda alguma música inédita de Renato Russo?

E eu sigo com mais uma pergunta: mais de duas décadas depois, seja esquecida ou guardada, essa música é realmente boa e digna?

Imagine uma nova turnê

E imagine se encontram mais 30 músicas inéditas que poderiam se tornar um novo álbum. Já pensou se isso motiva mais uma turnê da Legião Urbana com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá (ambos grandes caras, ótimos de papo e com uma história inegável na música brasileira) e um cantor convidado?

Embora a gente saiba de cabeça todo o repertório da Legião e os shows tenham sido animados, nem a presença do camaleônico André Frateschi e até do Wagner Moura (ótimo ator e ótimo pensador político e social, mas um cantor nem tão ótimo assim) suprem a falta de Renato.

(Não fique triste, Wagner, você é o cara!)

Era mais uma celebração, um karaokê gigante, do que qualquer outra coisa. E, pra isso, já basta a existência de estabelecimentos da Rua Canuto do Val, no centro de São Paulo, com salas de cantoria livre com péssimo isolamento acústico. Ali, os versos de Renato viram berros que reverberam pela vizinhança sem dó. E a animação é a mesma dos shows recentes da Legião - infelizmente, para os vizinhos.

"Tempo Perdido"

Renato Russo iniciou o processo como compositor em uma infância e juventude vividas durante a ditadura militar. O primeiro álbum da Legião Urbana saiu justamente no ano em que a democracia voltaria ao Brasil.

Por isso, as músicas dele transbordavam política. Até canções de amor ou aquelas com narrativas extensas, caso de "Faroeste Caboclo", têm críticas sociais. Infelizmente, Renato Russo se mantém atual em 2020, como era na segunda metade dos anos 80 e anos 90. Até dói pensar que andamos tanto para frente e, depois, tanto para trás.

Não estaríamos neste 2020 se todo mundo tivesse prestado atenção nas canções antigas, aliás.

De qualquer forma, seria lindo de ouvir uma canção inédita de Renato extremamente política em pleno 2020 endoidecido. Isso seria. Mas...

Luaus estão a salvo

Essas músicas inéditas não existem, como foi descoberto com o resultado das investigações.

Portanto, não se preocupem, meus karaokêzeiros e luauzeiros, porque não devem chegar novas músicas inéditas de Renato Russo e Legião Urbana para mudar o repertório imutável de vocês.

O que eu gostaria, mesmo, é que mais pessoas prestassem, realmente, atenção às letras que já existem.

Ou seguiremos a ouvir o bom e velho riff de "Que País É Esse?" com gritos de protesto dos versos de Renato sendo cantados por tipos que se dizem fãs da Legião Urbana, mas que esquecem disso quando chega é hora de votar nas eleições.

E por quem, ao ler a frase acima, vai deixar um recadinho pouco gentil mais ou menos assim: "Não sei por que misturar música com política".

E aí, oras, não há música inédita do Renato Russo que nos salve.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.