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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

5 minutos de Invencível valem mais do que 4 horas de Liga da Justiça

Invincible - Reprodução
Invincible Imagem: Reprodução
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

02/04/2021 16h32

A mão realmente tremia de emoção com o controle da smart TV. É daquelas coisas que você não explica, apenas sente esta excitação fora do comum quando assiste aos créditos iniciais de um filme com personagens baseados em algo que você consumiu a vida toda - no caso, as histórias em quadrinhos de Batman, Superman, etc.

O hype em torno da versão de Zack Snyder do filme "Liga da Justiça" já foi tratado em milhares de textos pelo ambiente web, não é? Eu gostei, por exemplo, deste e deste aqui, ambos do UOL Splash.

Escrevendo aqui como alguém que assistiu aos 242 minutos de "Zack Snyder's Justice League ", em 18 de março, o dia da "estreia mundial" por meio das plataformas de streaming, posso dizer: foi exaustivo.

A excitação com os créditos iniciais foi inversamente proporcional à broxante sensação de ver aquele emaranhado de narrativas sem pé nem cabeça chegar ao fim de forma digna, se comparado com a versão anterior, mas muito abaixo da expectativa criada em torno do filme.

Talvez o problema seja esse. A expectativa.

Segundo informou o site Slash Film, somente 36% das contas que "alugaram" o longa na primeira semana chegaram aos créditos finais. Tanta gente não foi capaz de lidar com essa quebra de expectativa.

Minhas melhores memórias da infância são acompanhadas por uma imagem minha com uma camisetinha com o símbolo do Batman. Talvez não estivesse com a mesma camiseta naquelas cenas reais, mas é assim que a minha memória gosta de montar esses momentos.

A expectativa para ver o Morcegão na tela sempre, SEMPRE, vai ser gigantesca. Paciência. Isso, a pressão, é um problema para o diretor, roteirista e para o ator que interpretará o herói. Eles serão muito bem recompensados financeiramente para ter que lidar com essa questão, entende?

Outro dia, um amigo, no Twitter, dizia que não poderíamos pressionar determinado técnico de time de futebol.

Pensei: "Meu irmão, pressão é ser editor chefe da Rolling Stone e ser remunerado com o mesmo valor que recebia quando repórter da mesma Rolling Stone mesmo quatro anos depois." (Uma história, infelizmente, real que inclui minha incapacidade de negociar um bom salário).

Esses técnicos, por sua vez, ganham toneladas de dinheiro - até literalmente, caso deciram sacar o cheque mensal de mais de R$ 200 mil em moedas.

Zack Snyder, Ben Affleck, Robert Pattinson, o responsável por levar o Batman para as telonas recebem também cheques gordíssimos para aguentar a tal expectativa e sobreviver a ela.

Dito isso, mais de quatro horas de Liga da Justiça depois, a sala de casa permanecia em silêncio com os créditos. Ninguém soube definir em palavras a decepção e alívio com o fim do filme. Você pode ter sentido isso, também, embora não queria admitir.

Lembra que falei sobre expectativa e hype?

Eram 5h de um sábado e, acordado inexplicavelmente, decidi que assistiria aos três episódios de "Invencível", animação disponível no Prime Vídeo, que adapta a HQ criada por Robert Kirkman, o mesmo de The Walking Dead.

É a história de um guri que desenvolve poderes muito similares aos de Superman, como habilidade de voar e superforça, todos herdadas do pai, um alienígena - todas as semelhanças com Superman são propositais.

O jovem, que assume a identidade heróica de Invencível e dá nome à HQ, treina com o pai, enquanto tenta corresponder às expectativas paternas (olha a expectativa aqui, de novo), da namoradinha humana e as próprias. Afinal, o moleque quis ser um herói a vida toda.

O primeiro episódio é só OK, com uma animação de qualidade ruim e datada, até a chegada de determinados cinco minutos. Você saberá de quais cinco minutos estou falando.

O momento vem no final do episódio e eu entendo a necessidade disso: era importante montar o cenário da série, traçar os paralelos com o mundo de heróis que já conhecemos e com o que é novidade para nós.

Tudo muda depois desses cinco minutos, entende?

Esses malditos cinco minutos me fizeram dar um grito, aceleraram o ritmo dos batimentos do meu coração, irritaram a namorada que dormia ao lado (que, com razão, murmurou um xingamento) e me deixou enfurecido com Zack Snyder.

Um único momento de "Invencível", animação cujo 4º episódio entrou no ar hoje (dia 2) no Prime Vídeo, são muito melhores do que 242 minutos de Liga da Justiça.

Não vou detalhar o que ocorre na sequência de cenas para você ter o mesmo impacto que eu.

Quero dizer, com esse texto, talvez você não consiga ter a mesma experiência que eu porque criei a tal expectativa me torno de "Invencível".

E serei cobrado por isso, com razão.

Será que tento renegociar o meu salário?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL