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Pedro Antunes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As maiores mentiras da música: Elvis fake? Paul morto? Milli Vanilli, quem?

Imagem de Orion, o cantor que muitos acharam que era Elvis Presley - Reprodução / Orion: The Man Who Would Be Kin
Imagem de Orion, o cantor que muitos acharam que era Elvis Presley Imagem: Reprodução / Orion: The Man Who Would Be Kin
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

01/04/2021 20h09

Recebi a foto pelo WhatsApp. Em um daqueles grupos super povoados, nem sempre úteis, dos quais você perdeu o momento ideal para sair dele sem criar um climão, sabe? A imagem trazia um teste de gravidez que indicava um resultado positivo. "Se for menina, se chamará Clara", diz o rapaz dono do trote.

Uma porção de pessoas parabenizou o casal, enquanto outra parte, mais esperta, entendeu a pegadinha.

É 1ª de abril, o dia em que todo mundo extravasa o "espírito da pegadinha de Silvio Santos" que existe em si.

Detesto, mas não julgo - conheço quem o faça e se divirta essas coisas no grupo da família.

Mas se você já trabalhou em uma redação (local de trabalho da espécie chamada "jornalista") por uns dez anos, como eu, sabe que nenhum dia é tão temido quanto hoje. Vi os mais geniais serem derrubados pelas maiores mentiras.

É neste dia em que o mundo decide que o meu trabalho, o jornalismo, não serve pra nada e as fake news estão autorizadas em prol de um humor que nunca entendi muito bem.

Sabe aquela história de que, no carnaval, as pessoas soltam todo folião beberrão, beijoqueiro, etc, que existe dentro delas e enclausurado o resto do ano? O Dia da Mentira, o primeiro de abril, é isso. Todo mundo aproveita pra contar as mentirinhas que quiser, alegar ser só uma piada e tudo bem. Qual era o problema de que, na verdade, José não terminou com Maria, que Joãozinho não foi demitido de verdade do emprego e que Claudionor não começou a fazer pão artesanal? Rarará, é Dia da Mentira.

Esforcei-me, confesso, para evitar o "Fake News Day". Juro. Pelo menos até que recebi, em outro grupo (mais sério e com trocas interessantes), outra imagem de um teste de gravidez (o nome da menina da vez seria Luísa).

Resumindo, fui atropelado pelo Dia da Mentira.

Rendido, portanto, resolvi aproveitar que hoje a fake news é "liberada" (alô, Bolsonaro, pode avisar o Zero Dois e o Zero Três, ein?") e reuni aqui as três mais maravilhosas fake news da história da música mundial.

São três mentirinhas que, ao ouvi-las hoje, você certamente não as levará a sério, mas, na época, foram tratadas com alguma dúvida e muita gente acreditou.

Se duvidar, imagine como o que dirão as futuras gerações ao descobrirem que até médicos propagam o tratamento precoce contra a Covid-19 e que isso foi levado a sério por tanta gente. Fake news são, muitas vezes, tratadas como verdade por motivos além da lógica e da nossa capacidade de explicar. Elas simplesmente e inexplicavelmente existiram e as pessoas acreditaram nelas, entende?

Elvis está vivo?

Claro, a frase acima virou símbolo de uma geração e é usada até hoje por quem AMA a obra de Elvis Presley e o chame de Rei.

Mas tudo isso começou com uma fake news ou teoria da conspiração muito bem elaborada. Essa mentira era sedimentada neste capaz de um físico e cabelo similares ao de Elvis e um gogó igualmente invejável. O rosto ficava escondido por uma máscara brega.

Ele era Orion e sua história foi contada no documentário "Orion: The Man Who Would be King Official Trailer".

Recapitulando a história: em 1978, um ano depois da morte de Elvis, foi lançada uma música de nome "Save The Last Dance For Me", um dueto de Jerry Lee Lewis com uma voz muito parecida com a do dito Rei. A Sun Records, gravadora que soltou a música, foi a primeira a assinar com Elvis, o que gerou uma especulação de que seriam gravações inéditas e esquecidas do astro.

Na época, o silêncio ajudava as vendas e a Sun Records deixou a polêmica alavancar as vendas do single, até dizer que a voz era de um tal de Orion, o tal mascarado. Na época, Orion também era o nome de um personagem de uma história em quadrinhos que, esgotado da vida de rock star, decidia fingir a própria morte para se sentir livre.

Fã, quando quer, acredita até que música ruim é hit, não é? Então, compraram a ideia de que Elvis não teria morrido, só havia colocado uma máscara e se passado por Orion. O álbum de estreia do "novo Elvis" se chamava "Reborn", algo como "renascido". (Emoji de olhos revirados pela forçação de barra aqui.)

A história foi contada pelo documentário, "Orion: The Man Who Would Be King", lançado em 2015.

É um suco de fake news de deixar Donald Trump com o topete em pé.

Orion era, na verdade, uma criação da gravadora para sair da pindaíba e convocou Jimmy Ellis, um imitador de Elvis, para criar esse buzz.

O cantor seguiu como Orion por cinco anos, até 1983. Quando se apresentou ao mundo como Jimmy Ellis, percebeu que o pessoal não estava assim tão interessado nele, mas, sim, na fake news de que ele era o Elvis disfarçado.

Orion perdeu o sucesso que nunca foi exatamente dele e morreu em 1998, durante um assalto numa loja dele, no Alabama.

Paul McCartney está morto?

Essa é a maior fake news da indústria da música.

Sem que você faça muito esforço, tropeça em uma teoria da conspiração de que o verdadeiro Paul McCartney teria morrido em um acidente e que foi substituído por um sósia.

Outro dia, li uma fake news de que o Paul verdadeiro tinha um irmão e foi substituído, no melhor estilo Ruth e Raquel, ambas interpretadas por Glória Pires, da novela Mulheres de Areia).

Na teoria da morte, existem muitos motivos para o acidente de Paul McCartney. Contarei aqui aquela que parece ser a mais "aceita".

Tudo acontece durante a gravação do álbum Sgt. Pepper Lonely Heart Club Band (discaço!), lançado em 1967. Paul tinha 24 anos e teria morrido em um acidente de carro depois de deixar o estúdio irritado com George Harrison e John Lennon.

Para "evitar" a catástrofe mundial que seria a morte de um dos maiores ídolos de todos os tempos - e evitar a perda de rios de dinheiro -, executivos maquiavélicos encontraram um jovem de nome William Campbell parecido com Paul McCartney ocupar o lugar dele.

O restante dos Beatles não concordou com essa história, mas eram obrigados a fingir normalidade. Então, no luto pelo amigo e com aquele desconhecido se passando por Paul ao lado, os Beatles passaram a esconder dicas e pistas nos seguintes lançamentos da banda.

Dizem que se você ouvir a música "Revolution 9" ao contrário (no vinil), você ouvirá as palavras "turn on me, dead men". Nunca testei para provar se é verdade porque não quis estragar meu disco. Outro sinal seria, por exemplo, o fato de que Paul McCartney está inexplicavelmente descalço na capa do álbum "Abbey Road" (1969) e com a passada invertida se comparada com os outros companheiros de banda.

Conclusão: queria eu ser sósia de alguém talentoso e cheio da grana para substituí-lo mesmo sem ter talento algum.

E o Grammy vai para…

A minha história preferida diz muito sobre a música pop como um todo. Sobre o que é hype, como ele é construído, e o que é plastificado e copiado nesta gigantesca engrenagem que é a música mainstream (essa que toca nas rádios e tal).

Não estou dizendo que não existem artistas de verdade no pop, ok? O pop de plástico não anula o pop de verdade.

A história é de Milli Vanilli, um duo de cantores de Munique, na Alemanha, donos de um som meio pop e meio rap, mas sem ser muito os dois e com toneladas de tecladinhos irritantes, sabe? Eles lançaram um álbum que foi um sucesso na Europa em 1988.

Amo a ruindade desta música, apesar de saber que tudo é falso ali, e me surpreende que tanta gente curtiu esse som.

O álbum, quando chegou aos Estados Unidos (com outro título) foi um sucesso tremendo. Eles chegaram ao topo das paradas do país com três singles e levaram o Grammy como artista revelação em 1990.

A maluquice dessa história é que os caras que conhecíamos como Milli Vanilli, de nome Fab Morvan e Rob Pilatus, eram somente dançarinos que dublavam todas as músicas. Sabe aquele bafafá que rola quando um artista pop perde o microfone numa pirueta no palco e a música segue intacta nas caixas de som? Foi tipo isso que aconteceu, mas em escala mundial.

Eles eram obra do produtor e compositor alemão de nome Frank Farian. Que escândalo! Os gramofones do Grammy foram devolvidos até.

Os verdadeiros Fab Morvan e Rob Pilatus chegaram a tentar uma carreira, com o nome de The Real Milli Vanilli (perceba a ênfase no "real"). Mas o disco "Rob & Fab", de 1993, vendeu parcas 2 mil cópias e quebrou a gravadora deles da época. Ainda tentando seguir em uma carreira própria, o duo chegou ao fim quando Rob Pilatus foi encontrado morto em 1998, vítima de uma overdose, segundo noticiaram na época.

E a Avri Lavigne?

A história da Avril Lavigne, também substituída por uma sócia, é genial demais para ser incluída somente em uma lista e merece um texto só para ela.

Diga nos comentários qual fake news musical você mais gosta. Dizer que é Imagine Dragons só por não gostar do som deles, não vale, ok? Risos.

Vou desligar as redes por aqui, porque espero não cair em nenhuma fake news de 1º de abril.

Aliás, você ficou sabendo que o Claudinho e a Heloísa estão grávidos? Soube hoje. Que fofura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL