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Pedro Antunes

É prudente manter Rock in Rio, Lollapalooza e outros festivais em 2021?

Twenty One Pilots e apresenta no terceiro dia de shows do Lollapalooza Brasil 2019 - Mariana Pekin/UOL
Twenty One Pilots e apresenta no terceiro dia de shows do Lollapalooza Brasil 2019 Imagem: Mariana Pekin/UOL
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

21/01/2021 17h21

Sem tempo?

  • O maior festival de música da Inglaterra cancelou a edição de 2021.
  • O que faz sentido, já que o país é um dos mais afetados pela Covid-19 da Europa.
  • A questão é: se a Inglaterra, que começou a vacinação antes e é muito menor do que o Brasil cancelou os seu maior festival, o que estamos fazendo?
  • Rock in Rio, Lollapalooza, etc, seguem agendados para o segundo semestre, veja só.
  • É prudente mantê-los? É otimismo?

A Inglaterra começou a vacinação em 5 de dezembro de 2020 e, ainda assim, o maior festival de música do país, o Glastonbury, anunciou hoje (21) que cancelará a edição que seria realizada este ano no País.

No Brasil, a Coronavac, vacina produzida pelo Instituto Butantan, virou cabo de guerra eleitoral. Doria puxa de um lado, Bolsonaro puxa de outro, enquanto a gente dança "Bum Bum Tam Tam", do MC Fioti, na falta de algo melhor para ter esperança de um 2021 diferente de 2020.

Por aqui, os festivais do segundo semestre seguem com datas anunciadas. Falo de gigantes como Rock in Rio e Lollapalooza, responsáveis por reunir mais do que as 200 mil pessoas do lamacento (e prudente) festival inglês.

Efeito cascata nos festivais da Europa

O cancelamento do apelidado de Glasto em 2021 deve ser seguido pelos poucos festivais que já tinham anunciado edições para esse ano.

A temporada de shows do verão europeu é concorridíssima. É por lá, entre maio e setembro, que passam os maiores artistas do mundo.

E a questão não somente a aglomeração do público diante do palco. Para realizar um festival deste porte, para 100 mil a 200 mil pessoas, é preciso um ano inteiro de planejamento e logística, no mínimo.

Se não é possível prever como estará a pandemia do coronavírus em dois meses, imagine supor o que será do final de 2021? Como programar um festival desse jeito?

O que traz a questão para o Brasil

Sou alguém que vive de estar em shows, certo? Basicamente é o que faço da vida. Ouço música, vou a shows, escrevo dessas músicas e desses shows.

E estou completamente incerto sobre a realização desses mega festivais por aqui. Talvez apresentações menores, com pequenas reuniões de pessoas e com carteirinhas de vacinação em dia, sejam possíveis em segurança no segundo semestre. Reunir 100 mil pessoas em um mesmo espaço me parece, no mínimo, improvável.

Inglaterra e outros países da Europa iniciaram as campanhas de vacinação ainda em dezembro de 2020. Não existe um país com população e dimensões parecidas com as do Brasil e, ainda assim, a Covid-19 é tratada como uma ameaça gravíssima.

Por aqui, o que a gente ouve do presidente é que ele "não se responsabilizará se você virar um jacaré" por tomar a vacina.

Com isso, vejamos os festivais marcados até agora para o segundo semestre de 2021.

Rock in Rio está previsto para os dias 24 de setembro a 3 de outubro de 2021, com sete dias de festival e um público estimado em 100 mil pessoas por data. O Lollapalooza, em São Paulo, também com capacidade para reunir centena de milhares de pessoas, agendou as datas de 10, 11 e 12 de setembro.

Há ainda festivais que atraem também boas dezenas de milhares de pessoas, como o aprazível Coala Festival (11 e 12 de setembro) e o arrebatador Rock the Mountain (dias 13 e 14 de novembro, com um line-up dos sonhos). No dia 19 de dezembro, estava marcada a estreia do festival do Slipknot em São Paulo, o Knotfest.

Entendem o que estou falando?

Ainda que o setor cultural brasileiro esteja completamente sufocado pela impossibilidade de realização de eventos ao vivo para conter a Covid-19 - portanto, escrevo isso completamente ciente de que existe muita gente que precisa que os shows voltem o quanto antes, financeiramente falando -, faço a pergunta:

É prudente prometer festivais de música em um 2021 ainda tão incerto?

E emendo outra:

Não é otimismo demais, meus futuros jacarés?

E respondo. Não é prudente. E, sim, é otimismo demais.

A vacina no Brasil começou a ser aplicada há menos de quatro dias (no domingo, dia 18 de janeiro). O que faz você acreditar, meu ainda não-imunizado leitor, que estaremos prontos para eventos que reúnem centenas de milhares de pessoas antes dos ingleses?

O presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) disse hoje ao jornal Valor Econômico que entregará 201,4 milhões de doses de vacina contra a Covid-19 em 2021 para o governo brasileiro, mas garante que isso não será suficiente para imunizar toda a população brasileira.

Faltam seringas, faltam campanhas de conscientização sobre a importância da vacina. Falta um professor da 3ª série mandar acabar a discussão entre Doria e Bolsonaro.

Tudo está tão nublado pelas bandas de cá que, por mais esperançoso que tenha ficado com a primeira dose na enfermeira Mônica Calazans, nada me faz acreditar na possibilidade de estar no meio de um festival para 100 mil pessoas ainda em 2021.

Vou ficar, mesmo, com meus memes, filtros e dançando "Bum Bum Tam Tam" na sala de casa, mesmo.