PUBLICIDADE
Topo

Pedro Antunes

O que você estava fazendo quando a primeira pessoa do Brasil foi vacinada?

Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

17/01/2021 17h18

Sem tempo?

  • Mônica Calazans. Enfermeira. Negra. Atua na linha de frente do combate ao coronavírus.
  • E a primeira pessoa no Brasil a receber a vacina Coronavac contra a Covid-19.
  • O que você fazia na tarde deste 17 de janeiro de 2021?
  • Chorou? Sorriu? Sentiu um arrepio?

Ouvia "Let It Be", o disco dos Beatles produzido pomposamente por Phil Spector, para escrever sobre a morte do produtor aos 81 anos, quando a primeira dose da vacina Coronavac foi aplicada em solo brasileiro.

Silenciei a voz de John Lennon em "Across the Universe" para ver a história sendo escrita.

Mônica Calazans, de 54 anos, enfermeira. Negra. Atua no SUS na linha de frente do combate ao inimigo invisível e devastador. Ela foi a primeira.

Arrepio só de escrever isso.

Colocar as palavras neste texto faz a cena que assisti, ao vivo pela Globonews, mais real.

Seria esse arrepio, que segue deixando os pelos dos meus braços em pé, uma reação do meu corpo à esperança? A dose injetada no braço da enfermeira encheu meu corpo de uma sensação que parecia perdida.

Uma esperança que definhou lentamente, a cada golpe duro desferido pela política do País, nocauteada de vez pela pandemia do coronavírus acompanhada de todo o negacionismo e incompetência esdrúxula em lidar com ela.

O buraco aberto pela perda da esperança foi preenchido por crises de ansiedade, saudade, preocupações, medo, revolta, raiva.

Agora, essa esperança parece pedir pelo espaço perdido.

"Estou arrepiada", ouço minha companheira dizer, do sofá da sala, de frente para TV. Jornalista, ela também está trabalhando.

Ela tem os olhos cheios de lágrima. Sorrio de volta.

É claro, há um longo 2021 pela frente e muito vai acontecer.

Além de esperança, é preciso ter paciência para entender que uma pandemia não se vence por conta de uma dose dada da vacina. É preciso ter um plano. E cobrar muito por isso, principalmente, contra politização da vacinação (Bolsonaro de um lado, Dória de outro).

Mas é um começo. Calma, vamos chegar lá. (Olha a esperança aqui, de novo).

Onde você estava quando Mônica Calazans recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19?

O que você fazia? Gritou pela janela? Abriu uma cerveja? Virou uma dose? Fumou um cigarro? Ligou para a mãe que não vê há meses?

Chorou muito?

17 de janeiro de 2021. Dia histórico.

Eu silenciei John Lennon de vez. Deixei o texto de Phil Spector para amanhã.

Hoje, me permiti sentir esperança depois de muito tempo.

O que você fazia quando Mônica Calazans, a enfermeira de 54 anos, foi a primeira pessoa vacinada com a Coronavac contra a Covid-19, no Brasil?