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Pedro Antunes

E o Rage Against the Machine que está entre os mais ouvidos de Bruno Covas?

O prefeito de São Paulo e, então candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), em participação no UOL Entrevista
O prefeito de São Paulo e, então candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), em participação no UOL Entrevista
Reprodução/YouTube
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

05/12/2020 00h20

2020, o ano louco.

Você, assinante do Spotify, fez a sua retrospectiva de artistas mais ouvidos em 2020, certo? (Se não o fez, eu criei um guia rápido para ajudar nisso, só vem).

E Bruno Covas (PSDB), prefeito da cidade de São Paulo, para mostrar ser gente como a gente, compartilhou a lista de artistas mais ouvidos neste ano louco. Vamos a ela?

  • 1º) Pearl Jam
  • 2º) Queens of The Stone Age
  • 3º) Red Hot Chili Peppers
  • 4º) Rage Agains the Machine
  • 5º) Franz Ferdinand
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Você, ilustríssimo roqueiro, percebeu alguma coisa curiosa nesta listinha?

Sim, o político de um partido de direita, aliado de João Dória (governador do Estado) ouve pelo menos DUAS bandas cujas letras (ou as atitudes) são completamente ligadas a ideais de esquerda.

Vamos começar com o Pearl Jam

A banda liderada por Eddie Vedder que recentemente fez um gigantesco trabalho para a conscientização da importância de se votar no estado da Pensilvânia, importantíssimo para a eleição presidencial dos Estados Unidos.

Aliás, o grupo também já se declarou anti-Trump e contra toda a política ambiental do presidente agora derrotado dos EUA, como nessa música aqui, "Quick Escape", do disco mais recente deles:

"Crossed the border to Morocco /
Kashmir to Marrakesh /
The lengths we had to go to then /
To find a place Trump hadn't fucked up yet"

Aqui, basicamente o Pearl Jam está tentando 'escapar' e encontrar um lugar o qual Donald Trump não f**** com tudo.

Essa não é a primeira vez em que o Pearl Jam foi atrás de um presidente do partido republicado dos Estados Unidos. Eles também reagiram ferozmente contra George W. Bush, em 2002, com a música "Bu$hleaguer".

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O Eddie Vedder, particularmente, já demonstrou apoio às causas sociais de esquerda, do aborto aos direitos dos animais, além de diferentes ações a respeito do aquecimento global.

Agora, e o Rage Agains the Machine?

Talvez essa seja, dentre as escolhas do prefeito, a mais inacreditável.

E não me venha falar que música não tem nada a ver com política. Tem, sim, é inevitável. Dos Beatles a Chico Buarque. Até o crescimento de artistas como Barões da Pisadinha e Tierry, cujos versos não são políticos, quer dizer algo politicamente, entende?

No caso específico do Rage Against the Machine, eles são políticos até o osso - posicionados mais à esquerda do que o esquerdista padrão, aliás.

E claro que o Twitter fez questão de lembrar disso:

Mais uma reação do Twitter (juro que é a última):

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Vou colocar aqui "Killing in the Name", um clássico de Zack de la Rocha e companhia, criada a partir dos protestos depois de mais um ato a violência policial contra um homem negro chamado Rodney King.

Quando o grupo veio ao Brasil pela última vez, em 2010, eles dedicaram uma música ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

O curioso caso de Roger Waters

É bom lembrar da última passagem de Roger Waters pelo Brasil, em 2018, na qual ele foi vaiado (oi?) pelo público ao elencar Jair Bolsonaro como um dos líderes neofascistas do mundo.

"Pink Floyd e Roger Waters são ligados em política?"

O que isso significa?

Que 2020 é realmente um ano imprevisível. Só falta agora surgir um print da retrospectiva musical de Guilherme Boulos (PSOL) e, sei lá, aparecer bandas tipo o Ultraje a Rigor, do Roger Moreira, entre os mais ouvidos.

Antes que apareça alguém dizendo que todo mundo tem direito a ouvir o som que quiser, já respondo: é claro que tem! A questão, aqui, é provocar uma reflexão, mesmo.

Como alguém que se posiciona em um espectro do quadro político se sente ao saber que curte artistas que pregam ideais do outro lado?

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Eis algumas respostas:

  1. É desatenção;
  2. É uma espécie 'guilty pleasure' político?
  3. É uma provocação, mesmo;
  4. Seria ele um agente disfarçado da secretíssima URSAL desmascarado pelo Spotify?
  5. Música e política não se misturam e o colunista não entende nada, etc, etc, etc?

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