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Opinião

Leiam Julio Cortázar - e ouçam o que o cara tem a dizer

Há certa leveza na forma como o argentino Julio Cortázar encarava a vida entre livros. Para ele, a literatura era uma forma de brincar, um jogo que levava muito a sério. "A literatura é assim - um jogo, mas um jogo no qual a gente pode colocar a própria vida. Pode-se fazer tudo por esse jogo".

Cortázar, que se foi no 12 de fevereiro de quarenta anos atrás, diz isso numa entrevista a Jason Weiss publicada pouco depois de sua morte. Revisito a conversa que saiu no segundo volume de "As Entrevistas da Paris Review", lançado pela Companhia das Letras em 2006 (tradução de George Schlesinger).

Cortázar é autor de "O Jogo da Amarelinha", que, com suas possibilidades de caminhos para leitura, não deixa de ser uma brincadeira em forma de romance. Com histórias como "A Autoestrada do Sul", do livro "Todos os Fogos o Fogo", e "Casa Tomada", de "Bestiário", deixou para os leitores alguns dos contos mais importantes da literatura no século 20.

A obra de Cortázar é marcada, dentre outras coisas, pela presença da fantasia. Na entrevista ele comenta que desde a infância já olhava para o mundo de forma bem menos pragmática do que seus colegas. Onde enxergavam plantas ou poltronas, via coisas não tão bem definidas.

Aos nove anos, ao ler escondido um livro de Edgar Allan Poe, teve um desses encontros que mudam a vida de leitores. "Fiquei doente por três meses, porque acreditei nele", recorda. "Para mim o fantástico era perfeitamente natural. Eu não tinha a menor dúvida disso. Assim eram as coisas".

Cortázar dizia ter aprendido com Borges que é crucial ser sucinto na hora de escrever, "dizer o que se quer com economia, mas com uma economia bonita". Acreditava também que o ofício era uma espécie de destino incontornável. Se alguém quer mesmo escrever, vai lá e escreve. Se está condenado a escrever, não há como fugir.

A forma carinhosa como o argentino tratava personagens crianças e adolescentes, sempre vívidos, resultou na fama de fazer sucesso especialmente entre jovens - chega a ser renegado por alguns em fases mais avançadas da vida. No papo que bati com o tradutor Sérgio Karam na edição do podcast da Página Cinco sobre o escritor, conversamos sobre como o autor encanta quem está descobrindo o mundo, desbravando a vida.

Tenho estado próximo ao argentino por esses tempos. Outro dia, contei que fui atrás de um conto apontado como perfeito por Gabriel García Márquez numa das correspondências de "Las Cartas del Boom" (Alfaguara, ainda inédito no Brasil). Nesse volumão com trocas de mensagens entre Cortázar, Gabo, Carlos Fuentes e Vargas Llosa, um dos muitos pontos que me chamou a atenção foi a forma como o gentil Cortázar protegia a sua independência, sua liberdade intelectual.

Recusava viagens e dispensava convescotes. Tentava garantir que suas ideias não se dissolvessem por estar num grande grupo de intelectuais mais ou menos alinhados ideologicamente. Defendia em público aquilo que considerava certo - e eram tempos de revoluções, golpes de Estado e milicos no poder na América Latina -, mas preferia estar distante de qualquer oba-oba.

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Tinha a preocupação, inclusive, de olhar com rigor para si ao analisar a tensão entre a atuação política, de militante, e a produção literária. E deixa isso claro no papo com Jason:

"O problema do escritor engajado, como se diz agora, é continuar sendo escritor. Se o que ele escreve se torna simplesmente literatura com conteúdo político, pode ser muito medíocre... Para mim, o que faço precisa ser sempre literatura, a mais elevada que eu consiga fazer... ir além do possível. Porém, ao mesmo tempo, tenta inserir uma mistura da realidade contemporânea. E esse é um equilíbrio muito difícil".

Vale, claro, ler Julio Cortázar. E também vale ouvir o que ele tem a dizer.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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