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Profundamente brasileira: a HQ de Quintanilha premiada em Angoulême

Cena de Escuta, Formosa Márcia, HQ que rendeu o principal prêmio de Angoulême a Marcello Quintanilha - Reprodução
Cena de Escuta, Formosa Márcia, HQ que rendeu o principal prêmio de Angoulême a Marcello Quintanilha Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

23/03/2022 04h00

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A referência direta a Augusto dos Anjos aparece como uma fagulha em "Escuta, Formosa Márcia", de Marcello Quintanilha (Veneta). Ligeira, mas o suficiente para reavivar no leitor alguns dos versos mais famosos do poeta: "Vês! Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de sua última quimera./ Somente a Ingratidão - esta pantera -/ Foi tua companheira inseparável!// [...] Toma um fósforo. Acende teu cigarro!/ O beijo, amigo, é a véspera do escarro,/ A mão que afaga é a mesma que apedreja// Se alguém causa ainda pena a tua chaga,/ Apedreja essa mão vil que te afaga,/ Escarra nessa boca que te beija!".

As palavras de "Versos Íntimos" poderiam servir de epígrafe ao trabalho que acaba de render a Quintanilha o prêmio de melhor álbum do ano no Festival de Angoulême, na França, provavelmente o mais importante das HQs em todo o mundo. Quadrinista de carreira tão sólida quanto reconhecida, Marcello é também autor de obras como "Talco de Vidro", "Hinário Nacional", "Luzes de Niterói" e "Tungstênio", com o qual venceu o Angoulême em 2016 na categoria policial.

Márcia, protagonista de "Escuta, Formosa Márcia", é uma enfermeira que se encasqueta com a sua possível formosura após escutar a modinha do século 19 que dá nome à história. Não é fácil a convivência da mulher e de seu companheiro, Aluísio, com Jaqueline, filha de Márcia, jovem arrogante, debochada e insolente que destrata a mãe e passa os dias pelas vielas da favela onde moram, no Rio de Janeiro.

Diferentes formas de violência destrambelham a vida de Márcia e Aluísio conforme Jaqueline ganha relevância dentro de esquemas do crime organizado dividido entre dois tipos de bandidos: traficantes e milicianos. Quando a ingratidão parece ser a única companheira inseparável, a ruína soa como único destino possível para todos.

Capa de Escuta, Formosa Márcia, HQ de Marcello Quintanilha - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Nas suas histórias, no entanto, Quintanilha costuma demonstrar talento para surpreender e comover. Cenas capazes de provocar grande identificação surgem de um olhar que não negligencia os pormenores do dia a dia. Na sequência inicial da obra, acompanhamos Márcia enroscada com a atendente de uma operadora telefônica na aporrinhação que é tentar o cancelamento de uma linha, pequeno drama familiar a quase todos nós.

Em outras passagens, quando Márcia encontra pacientes que acreditam poder curar feridas enfiando dedos machucados em cebolas cruas ou que bacalhoadas poderiam salvar alguém da gripe espanhola, vemos referência ao cenário pantanoso de crendices, desinformações e pitadas (muitas vezes generosas) de má-fé que fizeram o Brasil chafurdar na pandemia de coronavírus. A oralidade é outra característica que se destaca na HQ, ainda que gírias empilhadas em sequência possam soar exageradas,

Quintanilha é reconhecido pelo modo como leva para os quadrinhos o peso do cotidiano, a série de acontecimentos aparentemente ordinários que se acumulam e escalam até se transformarem em problemas irremediáveis. Dúvidas sobre como lidar com a mão que apedreja e a tentativa de ajudar quem talvez sequer mereça alguma consideração também têm o seu lugar na trama agora premiada. "Escuta, Formosa Márcia" é, de alguma forma, a história de pessoas que, apesar de todos os crescentes problemas, seguem dando um jeito de se segurar, levar a vida e, quem sabe, salvar os seus afetos.

Tem um simbolismo especial ver uma HQ tão indissociável da realidade brasileira ficar com o troféu principal de Angoulême. Num país em que artistas estão na mira de governantes e a compreensão da ficção parece se perder na cabeça de boa parte do público, o reconhecimento internacional a uma obra do quilate de "Escuta, Formosa Márcia" tem (ou deveria ter) a capacidade de nos fazer lembrar da importância e do valor de nossa arte.

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