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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Samanta Schweblin: uma daquelas escritoras que todos deveriam ler

Samanta Schweblin - Alejandra López
Samanta Schweblin Imagem: Alejandra López
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

20/12/2021 04h00

Fosse listar os livros mais marcantes da minha vida, é provável que "Pássaros na Boca" ocupasse um bom lugar na relação. Li a reunião de contos da argentina Samanta Schweblin ali por 2012, três anos após ser publicada no Brasil pela Benvirá, em tradução de Joca Reiners Terron. Quase uma década depois, pouco recordo do enredo das histórias, mas carrego as sensações que elas me causaram. Ler Samanta foi perturbador, instigante. "A Mala Pesada de Benavides" se cristalizou na memória como uma das grandes leituras daquela fase.

Se hoje tenho especial interesse pela literatura latino-americana, vejo como decisivo aquele contato com Samanta. Muito do que de melhor encontramos na atual produção de autores deste canto do mundo está presente na obra da argentina: o horror, o insólito, o olhar atento para captar as sutilezas (e as podridões nem tão sutis assim) mais obscuras das relações humanas. Dentre aqueles que acompanham de perto essa literatura, raro alguém questionar a importância de "Pássaros na Boca", vencedor do Casa de las Américas de 2008 e hoje encontrado apenas em poucos sebos, que por ele cobram preço de vinho de alta qualidade.

Apesar de ter grandes admiradores por estas bandas, carrego a impressão de que Samanta, hoje vivendo na Alemanha e celebrada em diversos cantos do mundo, nunca teve aqui no Brasil todo o reconhecimento e as leituras que merece. No começo deste ano, um dos desejos que listei para o nosso mercado editorial foi: "Maior valorização da produção literária feita em trocentas línguas que existem no mundo além do inglês (alô, editoras, por favor, alguém abrace com carinho a obra da Samanta Schweblin!)".

Pois bem, pintaram duas novas chances para que mergulhemos em Samanta. Primeiro a Netflix lançou "O Fio Invisível", dirigido pela cineasta peruana Claudia Llosa. O filme é uma adaptação de "Distância de Resgate", breve romance de Schweblin publicado por aqui em 2014 pela Record, em tradução de Ivone Benedetti. A história se passa na zona rural da Argentina e entrega aos leitores uma narrativa sobre limites. Limites da natureza, da nossa relação com a natureza, de nossas relações mais caras, do nosso corpo e de alguma suposta transcendência.

Depois veio uma das novidades que mais aguardava para este ano: a chegada às nossas livrarias de "Kentukis", último romance de Samanta. Publicado originalmente em 2018, em 2020 a tradução para o inglês do livro foi semifinalista do International Booker Prize. Do mesmo prêmio, aliás, a argentina foi também semifinalista com "Pássaros na Boca" e finalista com "Distância de Resgate". No Brasil, "Kentukis" chega traduzido por Livia Deorsola e editado pela Fósforo com tradução.

Kentukis, romance mais recente de Samanta Schweblin - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Os kentukis que dão nome ao romance são uma espécie de bichinhos de pelúcia com um pequeno computador interno conectado à internet. Na brincadeira há duas pontas: aqueles que são donos do brinquedo e aqueles que, a partir sabe-se lá de onde, detêm o controle do brinquedo. Quando alguém compra um kentuki, não sabe quem o controlará. E quando alguém adquire uma chave para controlar um kentuki, não sabe na casa de quem o corpo de seu bicho estará.

De um lado, alguém comanda o dispositivo através do computador e, a partir da câmera instalada no kentuki, pode acompanhar boa parte do que acontece na vida daquele que comprou o aparelho. Do outro, a pessoa passa a ter em casa um robô de gestos imprevisíveis, quase um animal de estimação que carrega consigo o mistério de ter um humano oculto por trás de suas ações.

É a partir das relações proporcionadas por esses kentukis que Samanta constrói um romance habitado por dezenas de personagens espalhados por diversos cantos do mundo. Para pessoas comuns, no mundo virtual as fronteiras praticamente desaparecem, e é isso que a autora nos entrega. Entrando na intimidade de gente de lugares tão diferentes quanto Oaxaca, Hong Kong e um vilarejo de Roraima, encontramos as muitas maneiras como os humanos lidam com a tecnologia. A projeção de sonhos e desejos, o exibicionismo, o voyeurismo e a vida tragada pelo virtual são elementos fundamentais numa narrativa fragmentada e muitas vezes incômoda.

O livro segue a tendência de uma literatura que dialoga com a ficção científica. Uma ficção científica em que a tecnologia é de fácil assimilação, de tão próxima ao que já temos ao nosso redor, em nossas mãos. A experimentação está sobretudo na forma como os humanos lidam (ou são engolidos) por esses dispositivos um tanto familiares. Olha-se para frente, só um pouco para frente, não para vislumbrar o que vem de novo, mas para discutir o que faremos (ou estamos fazendo) com as novidades que já estão entre nós, exigindo que encontremos a melhor forma para com elas lidar. Enquanto não aprendemos, nos massacramos, nos aprisionamos ao mesmo tempo em que pensamos ampliar nossas liberdades. Extrapolando a literatura, se você pensou na série "Black Mirror", encontrou um bom exemplo dessa tendência.

E aí está a nova chance (e outro pedido) para que mais leitores conheçam Samanta Schweblin. Leiam "Kentukis". Leiam "Pássaros na Boca". Leiam "Distância de Resgate". E torço para que a editora cumpra meu desejo de tratar com carinho a obra de Samanta. Todos merecemos.

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