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Clarice, Brasil: a vida é um soco no estômago, morrer é um instante

Clarice Lispector - Acervo IMS
Clarice Lispector Imagem: Acervo IMS
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

09/12/2020 09h31

Olho para a obra de Clarice Lispector e reflito sobre convergências com os nossos dias. Nas crônicas, o descaso do governo com a educação ou o desprezo aos indígenas. Num dos contos favoritos de Clarice, "Mineirinho", há o espanto com a generalizada falta de empatia, com quem troca a justiça pela carnificina. Num país que parece ter a vingança como ideal, Clarice se espantou com a notícia de que a polícia havia trucidado um bandido com 13 tiros. Um só bastava, dizia em entrevistas, o resto era mesmo vontade de matar. A escritora, que se viva completaria 100 anos neste 10 de dezembro, usou a literatura para investigar a sua indignação com a brutalidade oficial. Brutalidade que segue batendo, esganando, fuzilando, matando - e tirando urros de empolgação e aplausos via WhatsApp de uma plateia bestializada.

No introspectivo "A Paixão Segundo G. H.", há a subjetividade que também tem nos faltado. O mergulho no psicológico de uma pessoa atormentada, a busca por tocar o âmago da existência - esse traço tão característico de Clarice -, num texto que pode soar intransponível para quem insistir em lê-lo sem se abrir para o desconhecido que carrega em si, para os próprios mistérios. Num mundo cheio de certezas e de pessoas que tentam se vender como fortalezas inabaláveis, o pouco espaço para a sensibilidade, para as dúvidas, para as angústias, para os caminhos sem uma direção clara ou específica, tem cobrado um preço alto, me parece.

Há muito a se exaltar nesse romance de 1964: o ser humano e o real como divinos, a ancestralidade, a conexão com o mitológico, o perdão como atributo da matéria viva, a paixão que despreza temperaturas amenas e busca pelo fervor... Um trecho de "A Paixão Segundo G. H." que contraria a lógica presente ao contrastar com discursos motivacionais tão toscos quanto bem-sucedidos chama especial atenção:

"A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crúcis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta, é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação".

A crise da subjetividade, a investigação do átomo, a busca pelo indivisível em nós, a força e a delicadeza do que temos como essencial, as muitas formas de violência com as quais convivemos. Encontro tudo isso na derradeira novela de Clarice, aquela comumente apontada como síntese de seus escritos ou ponto máximo de sua obra. Refiro-me à história que "não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira".

Falo de "A Hora da Estrela", claro. Falo sobretudo da incrível Macabéa. Figura que tão bem representa os dramas de boa parte dos brasileiros, hoje soa como uma metáfora do próprio Brasil. Macabéa desafia o destino ao não ficar no sertão de Alagoas com seu vestido de chita e sem nenhuma datilografia. É uma moça que não sabia o que era, "assim como um cachorro não sabe o que é um cachorro", e por isso não se sentia infeliz.

A Hora da Estrela - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O papel que serve à arte de Clarice era o engana-fome de Macabéa em seus momentos de maior penúria. Quando não tinha o cachorro-quente ou o sanduíche de mortadela, mastigava um pedaço qualquer de folha. Macabéa não sabia como que faz para passear e achava que não precisava vencer na vida. Ficava feliz com o arco-íris e desejava ver fogos de artifício. Eram momentos pontuais de uma alegria acidental. Faltava-lhe coragem para a esperança. Para Macabéa, o futuro era um luxo.

Está aí a nossa atual condição: esperança soa como sinal de coragem que não nos permitimos ter. Quando olhamos para a estupidez, o descaso e a violência ao redor, vislumbrar um futuro não passa de mero (e quase delirante) luxo. Hoje é o Brasil que mastiga papel para enganar a fome, que desaprendeu a passear, que às vezes se surpreende com uma alegria ocasional, mas sempre tão momentânea, sempre tão passageira. É o Brasil que vive pelos cantos, em empregos precários, em casas precárias, mantendo relações precárias, sem entender muito bem o que se passa consigo. Mas vai tocando, ainda assim. Vai existindo. O Brasil é Macabéa.

Com Macabéa, Clarice nos mostrou que a vida é um soco no estômago e que morrer é um instante. Mas Clarice também ressaltou que Macabéa "pertencia a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito". Porque, como relata meu xará que narra a novela, "há o direito ao grito. Então eu grito".

O Brasil já saiu da cartomante e está prestes a descer da calçada. Precisa gritar antes que "o Destino (explosão)" nos deixe no chão de paralelepípedos. Como Macabéa.

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