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Qual é a responsabilidade de artistas e intelectuais na derrocada do país?

Dois Velhos Tomando Sopa - Goya
Dois Velhos Tomando Sopa Imagem: Goya
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

28/10/2020 10h00

Ricardo Lísias começou a escrever um diário no dia 28 de outubro de 2018. Naquela data, dezenas de milhões de brasileiros "fizeram o inimaginável e depositaram na urna o voto em um candidato que não tinha nenhum programa de governo organizado, havia feito declarações racistas, machistas e homofóbicas, elogiara abertamente torturadores e a ditadura militar e prometera nomear como ministro da Fazenda um homem com experiência no governo de Augusto Pinochet e ideias claras para estrangular a vida da maioria da população".

Com registros quentes, a ideia de Lísias era analisar a propaganda da extrema direita e entender o amplo contexto no qual o seu crescimento está inserido. O autor primeiro publicou versões desse diário em formato de e-book. Agora, neste ano, fez um apanhado e estabeleceu os fragmentos escritos entre o final de 2018 e 2019. O resultado está em "Diário da Catástrofe Brasileira: Ano I: O Inimaginável Foi Eleito", livro lançado há poucos meses pela Record.

Destaca-se nessa tentativa de compreender a ascensão de Jair Bolsonaro e seus pares o olhar de Lísias para duas classes muitas vezes poupadas de cobranças duras ou críticas mais incisivas: a artística e a intelectual. Entram no alvo do autor as análises equivocadas de filósofos e cientistas políticos que passaram meses ou anos menosprezando a possibilidade de Jair Bolsonaro se tornar presidente. Também merecem pedradas as falsas simetrias que se tornaram habituais ao longo da última corrida eleitoral e a falta da famosa autocrítica por parte desses analistas.

"Nossa culpa é parcial, ainda que real. Nós que somos tão cultos, que obtivemos nossos títulos acadêmicos e fomos até a periferia prevenir os pobres dos riscos que eles estavam correndo e agora não conseguimos nem nos mexer direito, aqui embaixo de tanto entulho", registra o autor. "Sempre desdenhamos das pessoas que não sabem onde fica o prédio da Bienal de Arte de São Paulo. Não percebemos a tempo o que estávamos fazendo. Ficávamos com uma risadinha garantindo que essa gente tosca não chegaria jamais a lugar nenhum. O desdém nos guiou nos últimos anos. Todos rimos das bobagens acachapantes e vulgares do Olavo do Carvalho", salienta.

Interpretando a obra e o discurso de escritores, sobretudo, Lísias indica como a arte é parte fundamental da construção da própria realidade e aponta para certa acomodação de seus pares. Dedica páginas a um "establishment da literatura" que "aderiu ao establishment político a partir da redemocratização", o que resultou num "apaziguamento das tensões a favor de uma calmaria interna". E considera: "é possível encontrar ecos disso mesmo na forma dos livros mais bem recebidos".

Lísias - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Não que Lísias passe o ano desferindo bordoadas em colegas. Ainda que não soe original, merece atenção a forma como analisa o tratamento dado pela mídia à Operação Lava Jato e a espetacularização do jornalismo. O desaparecimento da hegemonia da esquerda no campo cultural, os ecos da ditadura militar, a adesão de cada vez mais brasileiros aos discurss moralistas e a força política dos recalcados também têm seu lugar no diário. Como tem seu lugar Sérgio Moro, ex-juiz, ex-homem forte da Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. A hipótese de que gibis do Batman teriam feito com que Moro se visse como super-herói rende algumas das melhores (e mais bem-humoradas) sacadas de "Diário da Catástrofe Brasileira".

O humor (menção honrosa para as notas de rodapé sacanas) e a ironia, por sinal, são duas das virtudes do volume. Autor de livros que refletem a respeito ou chutam pra longe a ideia de limite entre o real e a ficção, como "Diário da Cadeia", publicado com o pseudônimo de Eduardo Cunha (Record), "Inquérito Policial: Família Tobias" (Lote 42), e "A Vista Particular" (Alfaguara), que talvez seja a melhor chave para compreender sua obra, Lísias não entrega ao leitor um diário como estamos habituados a ver. Tudo no livro "é experiência", enfatiza.

O espanto e a incredulidade com os rumos do país se misturam com antecipações e intromissões que só poderiam mesmo ser feitas por quem já conhece as surpresas e os absurdos dos dias vindouros. As repetições com pequenos acréscimos de informações ou variações sutis, tão caras à prosa de Lísias, ajudam a evidenciar a preocupação com os pormenores estéticos do volume, no qual buscou não usar conjunções adversativas e não citar "o nome do pior candidato da história eleitoral brasileira" por conta da "higiene mental".

Dialogando com Freud, Tales Ab-Saber, Umberto Eco, Walter Benjamin, Roberto Schwarz, Hannah Arendt, Bansky e Marina Abramovic, Lísias entrega ao leitor caminhos para tentar compreender o caos no qual estamos metidos. Não se trata de concordar com todas as reflexões, mas de reconhecer a importância de encarar perspectivas diversas e levantar aspectos ignorados ou pouco debatidos durante o processo de ascensão da extrema direita no país. Nesse sentido, "Diário da Catástrofe Brasileira" faz par com "Sobre Lutas e Lágrimas", de Mário Magalhães (Record); são obras que merecem o reconhecimento, dentre outras coisas, pela disposição a analisar o cenário enquanto a história é construída - e, por isso mesmo, têm o potencial de, talvez, influenciar nos rumos dessa história.

Porque, como aponta Lísias, uma coisa é inegável: em 2018, num cenário em que tínhamos candidatos de todo espectro democrático, "quase 60 milhões de pessoas acharam que suas razões deveriam passar por cima do elogio à tortura e do culto da morte, claríssimos, que o seu candidato fazia sem parar. Foi de fato um voto fascista, e a dificuldade que muita gente tem de admitir isso até hoje é outro dos mistérios do nosso tempo". Ou, numa variação da mesma nota: "Vamos parar de negação: 57 milhões, 796 mil e 986 pessoas apoiaram a violência explícita, a tortura e o assassinato. É nesse país mesmo que vivemos".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL