PUBLICIDADE
Topo

Página Cinco

Nova edição: por que 'A Revolução dos Bichos' virou 'A Fazenda dos Animais'

Ilustração de "A Fazenda dos Animais" - Vânia Mignone
Ilustração de 'A Fazenda dos Animais' Imagem: Vânia Mignone
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

22/10/2020 09h54

Em 1945, George Orwell publicou "Animal Farm", história em que os animais tomam a fazenda onde vivem acossados pelos humanos; aos poucos, no entanto, os ideais da ação acabam desvirtuados. O romance, ao lado de "1984", tornou Orwell conhecido em todo o mundo. A contemporaneidade das obras faz com que o britânico seja lembrado com frequência nos atuais debates sobre a ascensão de governos totalitários.

"Animal Farm" chegou ao Brasil em meados da década de 1960. Na ocasião, recebeu um título distante do original, mas que se tornou clássico: "A Revolução dos Bichos". Desconheço leitores que nunca tenham ouvido falar no livro. Não é por acaso, então, que a nova edição que a Companhia das Letras publicará da fábula orwelliana tem causado surpresa. No dia 10 de novembro, chegará às livrarias uma tradução de "Animal Farm" feita pelo craque Paulo Henriques Britto com um título bem mais próximo do original: "A Fazenda dos Animais".

É uma escolha que chacoalha a cabeça. De cara, nos lembra dois pontos: traduções sempre são versões e, de tempos em tempos, olhares novos e alinhados à própria época fazem um bem danado aos clássicos. Não há como compreender a escolha do novo título em português de "Animal Farm" sem entender as ideias que levaram Orwell a escrever o romance e a maneira como o livro se espalhou pelo mundo.

"Pensamos em dar mais uma opção para o leitor. Manter em catálogo nossa edição consagrada de 'A Revolução dos Bichos', e contar essa história da história, de como o 'Animal Farm' foi usado como arma ideológica no Brasil e no mundo. No posfácio, escrito para a nova edição, o professor e crítico Marcelo Pen narra com detalhes esse episódio — muito orwelliano, diga-se. Crítico dos totalitarismos, Orwell se desiludiu com o regime soviético, mas seguiu sendo socialista — acreditava, na verdade, que o mito soviético atrapalhava o socialismo ocidental. Mas viu seu livro se tornar propaganda contra todo socialismo", me escreveu Emilio Fraia, editor da Companhia das Letras.

A questão ideológica é tratada pelo próprio Orwell em um dos textos que fazem parte da nova edição brasileira. Num prefácio para a edição ucraniana publicada em 1947, o escritor lembra de sua formação socialista e indica os descaminhos que notava na União Soviética entrecruzados com a experiência que vivera na Guerra Civil Espanhola. No texto, explicita que o regime soviético era a inspiração, o ponto de partida, para construir uma narrativa que representa totalitarismos diversos.

animais - Vânia Mignone - Vânia Mignone
Ilustração de "A Fazenda dos Animais"
Imagem: Vânia Mignone

"Devemos lembrar que a Inglaterra não é completamente democrática. Também é um país capitalista onde existem grandes privilégios de classe e (ainda hoje, mesmo depois que a guerra nos fez tender à igualdade) acentuadas diferenças econômicas", registra. "Os animais são explorados pelos homens de modo muito semelhante à maneira como o proletariado é explorado pelos ricos", continua, para depois explicar: "Decidi analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos animais. Para eles, claro, o conceito de luta de classes entre os seres humanos era pura ilusão, pois sempre que fosse necessário explorar os animais os seres humanos se uniam contra eles: a verdadeira luta se dava entre os bichos e as pessoas".

Em "O Animal se Torna Humano e o Humano, Animal (Um Esclarecimento)", o posfácio de Marcelo Pen mencionado por Fraia, compreendemos como uma crítica ampla à propaganda totalitária a partir de um olhar a União Soviética se transformou, na cabeça de muitos, numa espécie de manifesto fabulesco contra as ideias do comunismo. Quando "Animal Farm" chegou aos Estados Unidos, a crítica desconsiderou a biografia e as ideologias de Orwell para pintar o livro como "uma defesa da livre-iniciativa e de convicções que pactuavam com o American way of life", aponta Marcelo, que também recorda: Orwell chegou a "se queixar ao poeta Stephen Spender de que não havia escrito um livro 'contra Stálin para fornecer propaganda aos capitalistas'".

Com essa visão deturpada, após a morte de Orwell braços do governo norte-americano começaram a investir na obra do autor (que "defendia a nacionalização da terra, dos bancos e das grandes indústrias, bem como a redistribuição ou limitação de renda", lembra Pen) para usá-la como propaganda contra o comunismo. Financiadas pelos Estados Unidos, adaptações para o cinema de "Animal Farm" e "1984" foram pensadas para pesar a mão na mensagem pró capitalismo. Dinheiro também era investido em traduções oficiais ou clandestinas dos livros em diversas partes do mundo.

animais - Reprodução - Reprodução
Capa de "A Fazenda dos Animais"
Imagem: Reprodução

É nesse cenário que "Animal Farm" chega ao Brasil. Por aqui, quem planejou e bancou a primeira edição do romance foi o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, o IPES, entidade responsável por disseminar a ideologia que levou ao golpe civil-militar de 1964. A ação com o livro foi impulsionada "menos por um critério comercial ou mesmo literário do que por sua aura de arma psicológica anticomunista", explica Marcelo. Publicado pela editora Globo com tradução de Heitor de Aquino Ferreira, em 1964 "Animal Farm" chegou aos leitores brasileiros com o nome de "A Revolução dos Bichos".

"No Brasil, recebemos a obra com o famoso título 'A Revolução dos Bichos', deslocando o foco do fruto do ato para o ato em si, do espaço para a ação. Cabe ressaltar que se trata de um espaço importante, não apenas por revelar um ambiente muito típico da realidade rural inglesa, que Orwell tinha em mente, remetendo à sua infância e às circunstâncias em torno da gênese da obra, mas ainda por indicar aquilo que importa, em termos narrativos, isto é, que a propriedade passa a pertencer aos bichos, ou aos que trabalham nela, não aos que detêm o privilégio, e as consequências e transformações que se dão nessa localidade, depois disso", analisa Marcelo.

O pesquisador também destaca que, até onde sabe, somente aquela edição brasileira apostou na palavra "revolução", que sequer aparece no texto original, para o título. "A questão adquire maior interesse quando se considera que a palavra 'revolução' não aparece no original, mas apenas 'rebelião', fato que levou Ferreira a trocar esta por aquela algumas vezes, sobretudo no hino que substitui a combativa canção 'Bichos da Inglaterra' pela versão conspurcada, composta pelo poeta oficial". Segundo o pesquisador, Orwell acredita no "ímpeto revolucionário e o empresta em algum grau aos animais e, talvez por isso, nunca use a palavra 'revolução', ao passo que a versão de 1964, justamente por enfatizá-la desde o título, parece negar a ela o seu valor e o seu futuro".

Se fica claro como certas cabeças manipularam a obra e deturparam ou desprezaram as convicções de Orwell para utilizá-las justamente como a propaganda que tanto condenava, um olhar renovado para o título brasileiro de "Animal Farm" é muito bem-vindo. Trata-se de mais um passo importante para alinhar o nome de Orwell aos ideais que ele defendeu em vida e que serviram de base para os momentos mais conhecidos de sua ficção.

Você pode me acompanhar também pelas redes sociais: Twitter, Facebook, Instagram, YouTube e Spotify.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL