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Gracias, Quino! Mafalda carrega a utopia que tem faltado ao mundo

Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

30/09/2020 16h16

A morte de Quino é mais uma rasteira que 2020 passa em quem sonha com um mundo melhor. Sim, será esse o tom desta homenagem. Mafalda, sua personagem mais famosa, nos lembra o tempo todo quão importante é a utopia. Sonhemos, pois.

Buscando na memória, não encontro o momento em que Quino entrou na minha vida. Presumo que tenha sido no começo da adolescência, quando os quadrinhos de Mauricio de Sousa passaram a soar infantil demais e o olhar aguçado de Mafalda e sua turma passaram a fazer bem mais sentido para o leitor em formação. Não posso cravar que foi dessa forma o artista argentino entrou na minha vida, mas dela o mestre jamais saiu.

Não há Rodrigo sem Mafalda. E a ficha me cai exatamente neste momento, enquanto vago por redes sociais e portais de notícias em busca de homenagens ao gênio. Uso a palavra com consciência; perder Quino é como perder um Saramago ou David Bowie.

Mafalda é uma criança que adora deixar seus interlocutores - principalmente os adultos - com cara de trouxa. Crítica, sagaz e ácida, expõe contradições, demagogias e hipocrisias que passam a fazer parte da vida conforme envelhecemos. É com um sorriso amarelo que nos pegamos pensando: "é mesmo, né!?" Como tem razão a provocadora e adorável criança (às vezes um tanto metida, é verdade).

Impressiona como em pouquíssimos quadros Quino consegue desnudar desde pessoas "comuns", trabalhadores como os pais de sua personagem, até poderosos representantes de estados ou detentores de fortunas. O anseio pela paz, o questionamento das autoridades e do próprio autoritarismo e a busca pela liberdade são alguns temas recorrentes em suas tirinhas, nas quais também encontramos com frequência um escancaramento das relações de força e interesse que trucidam relações humanas.

Mafalda, que também tinha seus momentos de cansaço, frustração e desesperança, nos lembra a todo instante que o mundo em que estamos metidos é uma construção. E que fazemos parte dessa construção. Reclamar, brigar, reivindicar, protestar, manter a cabeça erguida... são maneiras de mostrar que estamos insatisfeitos com o rumo que as coisas têm tomado, com a natureza que queima, com a truculência que mata, com a estupidez que galopa.

Símbolo das mais belas das utopias, Mafalda é uma poderosa voz contra o conformismo e o comodismo que parecem imperar nos dias de hoje. Quino se vai, mas deixa pra gente a voz da indignação e da resiliência - e, por isso mesmo, a voz da esperança.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL