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Tendência da vez entre os "patriotas": queimar livros de Paulo Coelho

Pintura de Lucio Massari
Pintura de Lucio Massari
Lucio Massari
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

29/09/2020 09h56

A tendência agora entre os brasileiros mais exaltados é queimar livros. Ao menos é o que tem nos indicado vídeos que começam a circular no Twitter. O alvo da vez são as obras de Paulo Coelho, que despertou a fúria de patriotas por seu olhar crítico ao governo de Jair Bolsonaro.

O próprio Mago postou o vídeo de um ex-leitor colocando fogo numa antiga edição de "O Alquimista", livro de 1988, e dizendo: "Queima, Paulo Freire". Depois o piromaníaco se corrige: "Paulo Freire, não, Paulo Coelho, mas o Paulo Freire também merece ser queimado".

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Mas é um outro vídeo que está fazendo mais barulho. Nele, um casal de idosos despedaça um exemplar de "Veronika Decide Morrer" e queima cada página arrancada em uma churrasqueira. A dupla chama o escritor de "lesa-pátria" e reclama que ele mora na Suíça, não em Cuba ou na Venezuela.

Paulo Coelho se manifestou no próprio Twitter:

A queima de livro remete ao ritual de destruição de livros pelo fogo, e geralmente indica uma oposição cultural, religiosa ou política ao material em questão. A queima de livros pelo regime nazista em 10 de maio de 1933 é o mais famoso da história.

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O escritor tem sido uma voz atuante na denúncia do que o governo de Jair Bolsonaro está promovendo. Recentemente, Paulo pediu para que países boicotassem as exportações do Brasil por conta do autoritarismo religioso em ascensão.

No ano passado, o escritor disse saber que perderia leitores, mas que não poderia ficar calado diante de um país em esfacelamento e que caminha para o "mesmo clima de terror" da ditadura. A entrevista está aqui.

Sobre o ataque aos livros, recordo de um poema de Bertolt Brecht, alemão que precisou fugir de seu país durante o regime nazista. Em "A Queima de Livros" ele tratou da truculência daqueles que torram obras. A tradução é de André Vallias e está no livro "Poesia" (Perspectiva) - escrevi a respeito.

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Quando o regime ordenou que todos os livros

Com informação nociva fossem queimados, e por toda

Parte forçaram bois a puxar carroças com livros

Para a fogueira, um poeta escorraçado, um dos melhores

Descobriu estarrecido, examinando a lista dos

Incinerados, que os seus haviam sido

Esquecidos. Ele voou para a escrivaninha

Enfurecido, e escreveu uma carta aos donos do poder.

Incinerem-me! escreveu com a pluma alada, incinerem-me!

Não façam isso comigo! Não me deixem para trás! Porventura

Não relatei sempre a verdade em meus livros? E eis

Que agora vocês me tratam como um mentiroso! Eu ordeno:

Incinerem-me!

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