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Luciana Bugni

Amber e Depp: num duelo tóxico e abusivo, quem tem carisma vence

Amber Heard segue sendo interrogada pelos advogados de Depp - EPA
Amber Heard segue sendo interrogada pelos advogados de Depp Imagem: EPA
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

21/05/2022 12h00Atualizada em 21/05/2022 15h33

É ingrato buscar por quem torcer em uma briga de marido e mulher com toques de violência. Por mais que um deles pareça menos culpado que o outro, para nós, de fora, determinar o "foi ele que começou" parece uma tentativa pueril de fingir que um casamento tóxico não existe. Nosso desespero por buscar vilões em situações como essa diz mais sobre a gente mesmo do que sobre o casal que se estapeia em praça pública. E nenhuma discussão sobre o assunto vai mudar o quanto esse tipo de situação é extremamente triste. Claro, eu falo da cinematográfica briga jurídica em que estão envolvidos o superfamoso ator Johnny Depp e sua ex, a também atriz Amber Heard.

Depp é carismático desde sempre: seja fazendo um triste rapaz fadado a ter mãos de tesoura, seja interpretando um pirata de dentes estragados e personalidade duvidosa. Nos anos 90, pôsteres dele jovem, com cara de menino carente e uma tatuagem de coração estampando o nome da namorada, enfeitavam a parede do quarto das garotas. Dá para dizer que o cara é perito em conquistar pessoas há muito tempo. Renovou suas habilidades na série de filmes "Animais Fantásticos e Onde Habitam", pegando um público que hoje é filho das jovens senhoras que recortavam suas fotos das revistas nos anos 90. E novamente agora, no circo triste que armou para si nos julgamentos em que acusa a ex de difamação.

Seus fiéis seguidores nessa terceira década do século 21 são jovens entre 16 e 24 anos. Suas plataformas pularam da telona para a telinha: são o Youtube, o Twitter e o TikTok. E Johnny Depp segue fazendo o que mais sabe fazer: sucesso global.

Espancador de mulheres

Se as massivas notícias sobre o julgamento público, seis anos depois do divórcio, parecem confusas, tento resumir aqui: foram casados por um ano, de 2015 a 2016, após namorar dois ou três. Em 2018, Amber escreveu um artigo que não citava Depp, mas falava sobre ter vivido sob violência doméstica e sexual. O caldo entornou para o ator, que foi limado do elenco de franquias lucrativas e se enfezou. O jornal britânico The Sun o estampou na capa como "Espancador de Mulheres". Ele abriu um processo contra o jornal na Inglaterra, em 2020, e perdeu. Agora estão em novo processo — ele pede U$ 50 milhões para a ex, ela pede U$ 100 milhões para ele. A pedido de Depp, o julgamento é transmitido diariamente na TV. Um palco daqueles para quem perdeu o direito de atuar nas telas.

O documentário Johnny e Amber, lançado pela plataforma de streaming Discoveryplus, resume bem a relação dos dois para quem chegou desavisado na história. Dividido em dois episódios, o primeiro fala do lado de Depp, o segundo do lado de Amber. Você termina o primeiro capítulo certo de que Amber é uma aproveitadora. No fim do segundo, está perplexo com até onde pode ir um homem abusivo. O retrato é do início do namoro, em 2012, até o momento em que ele perde o processo na Inglaterra oito anos depois.

Sua derrota na corte está longe de significar a derrocada do ator: desde que partiu para a batalha judicial, ele pode ter perdido dinheiro, mas só ganhou força junto à opinião pública.

No documentário da Discovery, são claras as cenas filmadas por Amber dentro das casas em que viviam. O ator aparece bêbado, quebrando coisas violentamente, secando garrafas de álcool no café da manhã. Amber, no entanto, não parece acuada: deliberadamente filma a cena com o claro intuito de mostrar posteriormente para ele ou como prova de um comportamento que não parece lá muito correto. Ambos também têm outra prática curiosa: gravar as conversas sobre o próprio relacionamento.

Nas gravações detalhadas no filme, o desenho clássico de um casamento abusivo: guerra, arrependimento, trégua, lua de mel. Como tudo foi gravado e disponibilizado por Amber, não dá para saber exatamente qual a parcela de culpa da garota na vida tóxica que ambos levavam. Mas é inegável que Depp esteja ali retratado como um homem violento — acordar com alguém que se intitula "monstro" quando bebe e fica quebrando copos na cozinha não parece ser das experiências mais agradáveis. Outro disfarce abusivo que destrói vidas é o "ser ciumento". O cara termina diversos eventos com brigas horrorosas sob a camuflagem do ciúme — parece até romântico, mas é só violento mesmo.

Não é assim que o público entende. Tanto nas cenas mostradas pela Discovery, quanto nas que podemos ver ao vivo nesse 2022, nos noticiários, os fãs de Depp aparecem nas portas da corte dando todo suporte ao ídolo. As aparições de uma tímida Amber Heard não têm metade do apelo de carisma das do ator, que anda de maneira segura e empunha os (vários) buquês de flores que recebe nas calçadas por onde passa. Ela é xingada de bruxa. Ele, ovacionado. Quando ele perdeu o processo de difamação contra o The Sun, saiu do tribunal sobre uma chuva de botões de rosa jogados pelos fãs.

Recapitulando: ele processou um jornal que disse que ele espancava mulheres e perdeu o processo porque o júri entendeu que o jornal não estava mentindo. Ele saiu de lá sob aplausos e chuva de pétalas, como o verdadeiro herói.

Num relacionamento tóxico, há duas vítimas de abuso?

Dá para entender: quem vê Depp nos tribunais é imediatamente remetido aos filmes em que já viu com ele. O carisma do cara é o mesmo quando tatua o nome da namorada no braço (Winona Forever, nos anos 90, em homenagem a Winona Rider), quando apaga a tatuagem parcialmente (hoje ele ostenta Wino Forever, algo como "bêbado para sempre"), quando está maquiado para viver um chapeleiro maluco, quando está de cara limpa na pele de um jornalista bêbado capaz de tomar centenas de garrafinhas de álcool de um frigobar. Quem não gosta de Johnny Depp?

No tribunal virtual, se ele é o homem querido, ela é a vilã. Com relatos contraditórios, descrições parciais de fatos, e provas consideradas insuficientes pela opinião pública, Amber passa de suposta vítima à mentirosa pelos fãs de Depp. Basta olhar com alguma atenção a cena em que ele quebra a cozinha de casa para perceber que há algo anormal nesse comportamento.

Mas o público só quer saber duas coisas: 1. Afinal, ele bateu nela ou não? 2. E se bateu, será que não foi só um tapinha? Fotos de tufos de cabelo no chão, depoimentos de maquiadoras em set que ajudaram a esconder os ferimentos, fotos de hematomas no rosto, inúmeros relatos e mensagens dão a entender que a resposta é sim para a primeira pergunta e não para a segunda. Mesmo assim, há outra pergunta que surge após a exposição de tais supostas evidências: e ela, bateu nele? A resposta provavelmente também é sim.

O relacionamento é abusivo para todo mundo. O comportamento de um interfere no de outro. Em uma situação deplorável como essa já não importa mais quem começou. Tentar encaixar a situação num descabido maniqueísmo só fala sobre o nosso medo de passar por situação semelhante (ou vontade de disfarçar as situações desse tipo que já vivemos). Ambos precisam de ajuda individual para não voltarem a repetir esse ciclo. Mergulhar nele diariamente em um tribunal público não deve ser a melhor maneira de seguir em frente.

Depp, no entanto parece estar se divertindo com a situação. O público também vibra cada vez que Amber é destruída pela advogada de Johnny. Em mensagens de textos para amigos, ele disse inclusive que ela seria jogada na parede com força. Metaforicamente, estamos assistindo à cena de camarote. A torcida deixa claro que quer apedrajar a moça: "O pobre homem bonito e rico e infelizmente com problemas com drogas, coitado... ele perdeu o direito de atuar." Quando vejo esse tipo de reação, penso na mensagem de Depp para um amigo que dizia que "a mataria e transaria com seu cadáver para ter certeza de que ela estava morta". Não há jeito carismático de relatar essas palavras.

Um excelente artigo no New York Times expõe que alguns especialistas em violência doméstica consideram o abuso mútuo um mito. "A argumentação é que, enquanto os dois parceiros em uma relação tóxica podem se comportar de maneira terrível, um geralmente exerce mais poder sobre o outro", diz. Você pode ler a íntegra, em inglês aqui.

Homens abusivos são carismáticos — mulheres interessantes não se deixariam envolver apenas pelas mãos de tesoura, há sempre um olhar pedindo afeto por trás da brutalidade. Mulheres também podem ser agressivas ou mentirosas, claro que podem. Improvável é que, ao notar um casal hétero se comportando de maneira terrível, a opinião pública tente de alguma forma proteger a mulher.

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