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Luciana Bugni

O dia em que meu amigo foi fantasiado de Besuntado de Tonga no Carnaval

Pita Taufatofua, o Besuntado de Tonga: uma inspiração de folia - Mike Blake/Reuters
Pita Taufatofua, o Besuntado de Tonga: uma inspiração de folia Imagem: Mike Blake/Reuters
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Luciana Bugni

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na "Revista AnaMaria", no "Diário do Grande ABC", no "Agora São Paulo", na "Contigo!" e em "Universa", aqui no UOL. Mora também no Instagram: @lubugni

Colunista do UOL

24/07/2021 04h00

"O besuntado sabe que foi inspiração para o Carnaval brasileiro?", eu penso quando o vejo entrar no desfile de abertura das Olímpíadas 2020, na sexta (23). De máscara dessa vez, o lutador de taekondo Pita Taufatofua chama a atenção desde 2016. Na ocasião, você lembra, ele desfilou seminu sob os olhos de um Maracanã lotado na abertura das Olímpiadas do Rio de Janeiro segurando a bandeira de seu país, Tonga.

O lugar é composto por 177 ilhas a leste da Nova Zelândia e recebe o sugestivo apelido de Ilhas Amigáveis.

Pita, o lutador besuntado, sabe que é um sucesso no Brasil. Quando rebocou seu corpo de óleo de coco em homenagem aos lutadores ancestrais de seu país, recebeu a atenção do mundo inteiro. É a terceira vez em que faz uma aparição brilhante de óleo.

Em 2018, nos jogos de inverno de Coreia do Sul, lá estava ele de saia e sem camisa, com o tórax lustroso. Fazia três graus negativos nesse dia no oriente. Aqui no Brasil, começava o Carnaval.

Uma bandeira besuntada de ouro

Foi a aparição no Rio que causou mais frisson. Tanto que em 2017, um amigo meu pensou: por onde anda a bandeira que Pita usou aqui? Uns três cliques depois, descobriu que a belezinha estava à venda em um leilão online dos Jogos Olímpicos do Rio. Ficou dando lances de um bar, obviamente bêbado, numa quarta-feira fria. Outras dezenas de pessoas competiam pelo pedaço de pano certificado. Ele ganhou com o singelo lance de R$ 1 mil.

O brasileiro reclama que é pobre, mas quando quer ser excêntrico, rapaz do céu, digita o número do cartão de crédito sem dó, depois se vira. Esse meu amigo coleciona itens esportivos e achou natural na hora pagar caro por um objeto histórico como esse. Depois, ficou tentando cancelar a compra, sem sucesso.

Foi assim, por impulso, que a bandeira do Besuntado foi parar na Santa Cecília, São Paulo.

A compra luxuosa acabou virando um plano que só poderia ser executado em fevereiro seguinte. Ele sairia pelos blocos do centro da cidade vestido de Besuntado. Com a bandeira original de Tonga, claro, que jornalismo não é lugar para fake news nem na folia. Bastava pensar um pouquinho para saber que não era boa ideia. Mas quem pensa um pouquinho quando está planejando o Carnaval do ano seguinte?

Um domingo besuntado

No sábado de Carnaval de 2018, Pita voltou a usar o look na Coreia. A ideia de copiá-lo voltou com força à cabeça de meu amigo que decidiu se preparar: comprou uma vassoura (investimento modesto de R$ 25), que seria seu mastro. Emprestou uma saia da sobrinha. Estava tudo pronto para o dia seguinte.

Naquele domingo, combinamos um almoço num restaurante da Lapa com alguns amigos antes dos blocos da tarde. Meu amigo decidiu sabiamente não almoçar besuntado: foi à paisana. Depois da refeição, nos espalhamos em grupos.

Na volta, passamos em seu apartamento para que ele pegasse sua saia, sua bandeira e sua vassoura novinha. Colares e braceletes compunham o resto do look.

Faltava o toque final. Untá-lo de óleo. Paramos em uma farmácia de esquina na Av. São João e compramos o cosmético que achamos adequado: óleo de amêndoas, R$ 10. Uma pechincha para uma fantasia tão cara.

Besuntamos ali mesmo, sob olhares curiosos dos populares. Brilhante e bem cheiroso, nosso besuntado seguiu o trajeto até o Largo do Paissandu.

Pita sabe como evitar ser frito

Pita tem experiência em cobrir o corpo de óleo. No Rio de 2016, não enfrentou o calor costumeiro da cidade: era inverno. Na Coreia, só não congelou porque o óleo deve tê-lo protegido. E mesmo na sexta, no Japão, sua única preocupação foi ficar longe da tocha Olímpica. "Deep fried (profundamente frito)", ele escreveu em seus stories. Óleo e calor de fato não combinam quando há um corpo humano sob ambos.

O lutador nunca encarou o sol de fevereiro na Avenida São João às 15h. Nosso besuntado encarou. E foi ficando frito de verdade. A pele branca foi atingindo um tom rosa. E o cheiro das amêndoas lembrava muito o cheiro de um bolo no forno. Ao seu lado, víamos as pessoas se aproximarem pelo olfato. Irresistível. Um folião lambeu seu ombro. Ele não gostou.

Enquanto isso, a bandeira começou a pesar (não apenas o que já havia pesado em seu bolso).

Digamos que Tonga não está forte em nossa memória das aulas de Geografia. As pessoas paravam para perguntar: "por que seu amigo cheiroso de saia está com a bandeira da Suíça?". O olhar era curioso e intrigado, mas explicar era mais constrangedor do que explicar tatuagem em sânscrito.

De que vale uma fantasia que ninguém entende?

O conceito de fantasias de Carnaval, vou contar para você, é ser reconhecido. Você pode caprichar nas referências, claro. Mas não vale muito se ninguém entender quem você é.

Por exemplo, quando aos nove meses de gravidez me enrolei numas cortinas de voil que achei aqui em casa, coloquei umas flores do cabelo e fui para o bloco, todo mundo sabia que eu era a Beyoncé gravida. A cantora havia feito o ensaio duvidoso algum tempo antes, mas a viralização durou mais tempo.

Pita havia desfilado besuntado na Coreia no dia anterior. A memória deveria estar fresca na cabeça de todos. Mas quem vê jogos do inverno no sábado de Carnaval?

Meu amigo, que preparou o look por vários meses, aguentou segurar o personagem por menos de uma hora. Irritado com os puxões e cheiradas no cangote, voltou com a pele queimada ardendo, arrastando a bandeira de Tonga pela São João para tomar banho. No caminho, ainda parou contrariado para que tirássemos uma foto, sob juras de nunca compartilhar. Cumprimos o trato até hoje. Não se contraria alguém todo lambuzado de óleo. Mas não se pode deixar a oportunidade de registrar a história.

A bandeira de Tonga, se parcelar, a gente até aguenta carregar. Mas ser besuntado não é para qualquer um, não.

Você pode discordar de mim no Instagram.

P.S.: A luta do besuntado (Pita, o verdadeiro, não meu amigo folião), é nessa segunda, às 23h45 contra o russo Vladislav Larin.