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Tradutor de quadrinhos explica como Pedro Prado virou Peter Parker

Do Pedro Prado ao Peter Parker, uma jornada pela linguagem - Reprodução / Internet
Do Pedro Prado ao Peter Parker, uma jornada pela linguagem Imagem: Reprodução / Internet
Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

Colunista do UOL

13/10/2020 23h12

Érico Assis é um dos mais eloquentes tradutores do mercado editorial brasileiro, especialmente de histórias em quadrinhos. E está lançando um livro imperdível chamado Balões de Pensamento via campanha de financiamento coletivo.

"Já escrevi um sobre tradução (que está na gaveta), já escrevi minha tese de doutorado. Mas achei que uma coleção das minhas colunas para o Blog da Companhia das Letras - que escrevo desde 2010 - seria o melhor para iniciar", disse em entrevista exclusiva à Coluna Chico Barney.

Leia a seguir o proveitoso bate-papo com Assis.

A tradução de quadrinhos mudou muito nas últimas décadas. De Pedro Prado pra hoje, com a globalização, as liberdades criativas de regionalização se transformaram. Até Super-Homem virou Superman. Como o senhor vê esse cenário? Foi para melhor ou algo se perdeu?

Bom, em primeiro lugar, "senhor" é o Jotapê Martins ou o Mario Luiz C. Barroso, que traduziam os gibis da minha infância. Ainda não sou "senhor". Sim, a globalização mudou o perfil da tradução. "Pedro Prado" em vez de "Peter Parker" ou "Bruno Miller" em vez de "Bruce Wayne" são de uma época, meados do século vinte, em que o leitor não tinha o contato com cinema, televisão e música importada que passou a ter dos anos 1980 em diante. Com a internet, games etc., logo depois, nem se fala. Acho que o consumidor ficou mais esperto e os tradutores tiveram que se avivar. Isso foi um ganho.

Mas se defende que o maior contato com cultura pop em inglês significa que a maioria dos brasileiros entende ou fala inglês, o que não é verdade. Super-Homem virou Superman não porque fica mais bonito, mas porque é mais barato não ter que alterar o logotipo na capa da revista, no pôster do cinema, no letreiro da tevê, na caixa do bonequinho.

Superman, Star Wars e Last of Us já se firmaram no mercado. Consumidor até gosta, e estranha se for traduzido. Essa batalha já se perdeu. A batalha da tradução no momento é para que o consumidor não aceite o googletradutorês. "Vou aplicar para uma posição" em vez de "vou me inscrever para uma vaga", "isso não é sobre política" em vez de "não tem a ver com política". Isso, a meu ver, é tradução preguiçosa. Não quero que o consumidor comece a aceitar tradução preguiçosa.

Ainda existe um mainstream dos quadrinhos? Ou hoje vivemos vários nichos ao mesmo tempo?

Ainda se chama os super-heróis de mainstream dos quadrinhos. Mainstream virou sinônimo de tradicional, não de mais vendido. Mônica vende mais do que super-herói no Brasil, Homem-Cão vende muito mais do que super-herói nos EUA. Não dá para dizer que são "afluentes" do mainstream.

Não sei se hoje existem mais nichos do que já se teve. Hoje é mais fácil uma autora publicar sua autobiografia em quadrinhos do que em 1980, sem dúvida. Tem jornalismo em quadrinho, tem boas adaptações da literatura, tem Saga, tem Mensur, tem Tungstênio e tem Hilda.

Mas acho que todos esses quadrinhos bons e que fogem dos temas do mainstream ainda são prejudicados por essa visão de que o mainstream é tal coisa, quando o mainstream nem tem a força que tinha. Qualquer pessoa sabe que cinema é mais que Vingadores. Quando se fala "quadrinhos", ainda tem muita gente achando que quadrinho é Vingadores. Está longe de ser.

A adaptação de outras mídias foi o cerne dos gibis brasileiros durante muito tempo. Como perdemos isso?

Quando existia gibis dos Trapalhões, você só tinha chance de ver Trapalhões uma vez por semana na tevê. O gibi era uma forma de manter o contato com os personagens além do episódio semanal. Vieram o VHS, o DVD, a internet, o YouTube, o streaming. O equivalente de Trapalhões hoje, seja qual for, está sempre disponível.

Apesar de eu sonhar com um gibi baseado em A Fazenda - produzido pelo pessoal da revista Pé de Cabra, quem sabe - tem conteúdo de sobra de e sobre A Fazenda em vários canais. Para que investir em mais um?

Existe futuro para os gibis de banca ou o caminho são produtos mais luxuosos mesmo? Até as mensais são chiques.

A banca é tradicionalmente o lugar de vender coisas baratas, o que se compra com trocados. A demanda atual por gibis de super-herói não justifica tiragem alta, e sem tiragem alta não existe produto barato. Talvez gibis com venda muito alta, tipo Mônica, ainda resistam em bancas - se elas acharem outros produtos baratos para vender junto. No caso de Batman e companhia, acredito que o presente e o futuro próximo estão nas lojas de nicho, nas livrarias e - embora esteja complicado de funcionar - no digital.

Qual é o melhor gibi de todos os tempos?

Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud. Porque, depois dele, você quer ler todos os outros.

E o pior?

https://i.ebayimg.com/images/g/WhAAAOSwFZNd-K2n/s-l1600.jpg

Qual é o gibi mais obscuro que o senhor recomenda? Vi você falando do mangá Gigant no Twitter e já encomendei as 5 primeiras edições.

"Senhor" é o Sidney Gusman, Chico. Gigant e Inuyashiki, do autor Hiroya Oku, são meus gibis de super-herói preferidos em muitos anos. Recomendo fortemente.
Não sei se é obscuro, mas minha autora de quadrinhos preferida ainda não foi publicada no Brasil. Chama-se Eleanor Davis, é norte-americana e tem vários álbuns lá. Gosto bastante de um chamado You & A Bike & A Road, sobre uma viagem de bicicleta, e de uma história bem curtinha que ela fez chamada "Hurt or Fuck". A quem não conhece, recomendo entrar no site dela para ler uns trechos e também histórias completas.

Sobre o que é o livro Balões de Pensamento?

É uma salada de temas, mas tudo em torno de quadrinhos. Tentando mostrar que os quadrinhos são um universo. No Blog, eu posso escrever qualquer coisa em torno do tema quadrinhos. Então escrevi perfis de quadrinistas (Rafael Grampá, Chris Ware, David Mazzucchelli), escrevi sobre o avanço do digital em relação ao gibi de papel, sobre as manias dos leitores de gibi, sobre o mercado, sobre tradução.

Contei minha primeira experiência lendo um gibi num iPad, comecei a campanha para que o Prêmio Jabuti tivesse uma categoria de quadrinhos, contei como foi traduzir Daniel Clowes, entrevistei a Lilian Mitsunaga, reuni um monte de respostas engraçadas da Marjane Satrapi em entrevistas por aí.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL