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Arte Fora do Museu

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Colombo perdendo espaço no México

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Andre Deak / Felipe Lavignatti Felipe Lavignatti

O projeto Arte Fora do Museu nasceu em 2011 com os pesquisadores e jornalistas Andre Deak e Felipe Lavignatti, como um levantamento de obras de arte nas ruas da cidade de São Paulo. Hoje em mais de 500 cidades do mundo, milhares de obras e centenas de artistas, é um guia de arte urbana que inclui arquitetura, escultura, graffiti e mural. Andre Deak e Felipe Lavignatti são também sócios na produtora Liquid Media Lab, com projetos de comunicação digital, arte e diversos trabalhos no campo da inovação.

Felipe Lavignatti

Colunista do UOL

08/09/2021 16h08

Resumo da notícia

  • Monumento foi retirado ano passado
  • Homenagem aos indígenas deve ser inaugurada mês que vem
  • Apesar dos protestos, outra homenagem a Colombo segue na cidade

Por quase 150 anos ele seguiu firme em uma grande avenida na capital do México, olhando para Europa, de onde a figura que o inspirou partiu em 1492. Cristóvão Colombo, o navegador genovês, é símbolo da invasão europeia na América. Ainda que nunca tenha pisado no que veio a se conhecer como México, foi homenageado com um monumento que perdurou até o ano passado. Mas ele não estava sozinho ali. Aos seus pés, outras figuras relacionadas com a chegada dos europeus ao novo mundo: os religiosos Pedro de Gante, Juan Pérez de Marchena, Diego de Deza e Bartolomeu de las Casas. Hoje, onde ficava a estátua, só restou um pedestal. Mas esse espaço vazio será ocupado por uma escultura de uma mulher indígena. O anúncio foi feito no último domingo como parte da celebração do Dia Internacional da Mulher Indígena na Cidade do México.

Monumento a Colón de Charles Cordier -  ProtoplasmaKid -  ProtoplasmaKid
Monumento a Colón de Charles Cordier
Imagem: ProtoplasmaKid

As figuras europeias foram retiradas não por seu passado colonizador, mas para um restauro programado pelo Instituto Nacional de Antropologia e História. Como os protestos contra estátuas de figuras relacionadas à escravidão e ao processo de colonização pelo mundo todo, até hoje as figuras de Colombo e os freis nunca voltaram de seus reparos e seguem em alguma sala de museu.

A tarefa de homenagear as mulheres indígenas cabe agora ao mexicano Pedro Reyes, que retratará uma pessoa da civilização olmeca e virá com um título que se refere a uma palavra uto-asteca para "terra". A previsão é que a estátua esteja finalizada até o dia 12 de outubro, quando se comemora no México justamente a data da chegada de Colombo nas Américas. A estátua de Colombo saiu do seu pedestal justamente pouco antes dessa data no ano passado, o que evitou protestos já previstos contra o conquistador. Em 18 de dezembro de 2020 o presidente Andrés Manuel López Obrador mudou o nome do feriado de Dia da Raça para Dia da Nação Pluricultural. Este ano marca ainda o 700º aniversário da fundação de Tenochtitlan, um precursor da Cidade do México que foi uma fortaleza asteca até cair nas mãos dos conquistadores espanhóis em 1521.

Desde sua inauguração, a estátua de Colombo gera controvérsias. O monumento havia sido encomendado pelo empresário Antonio Escandón ao arquiteto Ramón Rodríguez Arangoiti, que aproveitaria esboços do artista Manuel Vilar. Escandón aprovou os esboços, mas encomendou novas esculturas a Charles Cordier, que realizou a versão definitiva. O monumento chegou a Veracruz em 1875, sendo definitivamente instalado em 1877. Após a decisão de Escandón, Rodríguez Arangoiti chegou a acusar Cordier de plagiar o monumento de Vilar. Não bastasse um Colombo, agora a Cidade do México ganhava 2. A escultura de Vilar seria colocada em um novo monumento em em 1892. Esta ainda permanece na cidade, mas é questão de tempo para esse Colombo fazer companhia para o outro em alguma sala escura.

O Cristóvão Colombo que ainda persiste na Cidade do México -  ProtoplasmaKid -  ProtoplasmaKid
O Cristóvão Colombo que ainda persiste na Cidade do México
Imagem: ProtoplasmaKid