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Aline Ramos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Racismo no 'É de Casa' incomoda pela normalidade

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Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

14/06/2022 14h45

No último sábado (11), o "É de Casa", da Globo, teve um episódio lamentável de racismo. A apresentadora Talitha Morete, que é branca, pediu para Silene, negra e vendedora de cocadas, servir os doces para os demais apresentadores e participantes. A convidada estava no programa para ensinar a receita, e não para atender aos presentes.

O vídeo com esse momento tem circulado nas redes sociais como um exemplo de racismo estrutural. Manoel Soares, negro e também apresentador do É de Casa, interveio e serviu os doces. A atitude pareceu sutil, mas evitou que a convidada continuasse naquela situação racista.

Para olhos atentos, Manoel deu uma aula. Ficou evidente que apenas ele percebeu o que estava acontecendo: uma mulher negra sendo tratada como empregada num lugar onde não trabalha e estava como convidada.

Naturalidade gera desconforto

A normalidade na forma como Talitha fala com Silene incomoda bastante, assim como o fato de só o apresentador negro ter notado a gravidade da situação. A forma passiva como todos acompanham a cena também é desconfortável.

Esse episódio é difícil de engolir por parecer tanto com situações cotidianas. As experiências racistas que pessoas negras vivem no Brasil não se resumem a situações de violência extrema. O que aconteceu no "É de Casa" foi uma microagressão racista, também conhecida como racismo velado.

Racismo sem querer também é racismo

Porém, o caso tem sido tratado como racismo estrutural, o que é um equívoco. O termo não se aplica a situações em que uma pessoa foi racista "sem querer". Tratar o caso dessa maneira tira a responsabilidade de quem cometeu o ato e dificulta para a vítima lidar com o que aconteceu. Se não há culpados, há vítimas?

Racismo estrutural é um conjunto de uma série de práticas - institucionais, políticas, históricas, culturais e interpessoais - que são excludentes e privilegiam um grupo em detrimento de outro dentro da sociedade. É essa distinção que favorece os brancos e desfavorece negros, por exemplo. Ou seja, a definição passa longe de ser "fui racista sem a intenção de ser".

Com ou sem intenção, o que foi apresentado no "É de Casa" foi exemplo de racismo que fere Silene, Manoel e toda população negra.

Pedido de desculpas

Após a repercussão negativa do episódio, a apresentadora Talitha Morete foi às redes sociais se desculpar pelo ocorrido.

"Antes de vir aqui, a primeira coisa que fez foi falar com a Dona Silene e pedir desculpas para ela. Eu também preciso me desculpar com todas as pessoas, com o meu público, pela minha fala. Errei e não há nada a ser dito para justificar ou minimizar esse erro, a não ser me desculpar. Desde sábado, eu tenho refletido sobre o ocorrido", escreveu a apresentadora, em sua conta no Instagram;

"Eu tenho refletido sobre o lugar que ocupei nesse contexto. Como ser humano, como comunicadora, quero transformar esse episódio em aprendizado e num compromisso de vigília antirracista constante", prosseguiu Morete.