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Aline Ramos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gênesis divide opiniões ao exagerar na interpretação maniqueísta da Bíblia

Raquel (Thaís Melchior), a vilã injustiçada de Gênesis  - Divulgação / Record TV
Raquel (Thaís Melchior), a vilã injustiçada de Gênesis Imagem: Divulgação / Record TV
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Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

02/08/2021 17h31

A atual temporada de Gênesis conta a história de Jacó e daqueles que deram origem ao povo de Israel. A trama é de enorme potencial, mas não tem agradado muito e nem atendido às expectativas de parte do público da Record, que tem demonstrado insatisfação nas redes sociais.

Nessa fase, os protagonistas são Jacó e Esaú, seu irmão gêmeo. As irmãs Raquel e Lia também possuem papéis relevantes. O que tem gerado polêmica entre os telespectadores é a forma como Raquel tem sido retratada. A filha mais nova de Labão tem ares de vilã, o que não combina muito com a versão bíblica.

Interpretação exagerada

Inspiração e fonte principal da novela, a Bíblia não traz informações suficientes para concluir que Raquel tenha sido vilã ou má pessoa. Os autores certamente estão se utilizando da licença poética para apresentar a história dessa forma, o que é um recurso legítimo. Porém, é compreensível que o público se sinta traído com uma representação exagerada do texto bíblico.

Nos canais oficiais de Gênesis, a explicação para essa interpretação sobre a personagem está centralizada unicamente no episódio em que Raquel rouba de seu pai as estátuas dos ídolos, conhecidos como terafins.

Na Bíblia, a atitude de Raquel é considerada um erro grave, assim como outros equívocos cometidos por figuras celebradas pelo livro sagrado. O deslize não necessariamente faz dela uma vilã.

Não há explicações bíblicas sobre as motivações de Raquel nesse roubo, o que torna qualquer conclusão sobre o tema uma mera especulação. Cabe também lembrar que os terafins possuíam valor financeiro. Por isso, não é certo que ela levou consigo as estátuas porque não acreditava em Deus.

Outra justificativa sem sentido é a de que, entre Raquel e Lia, Deus escolheu Lia para se casar com Jacó. Essa é outra interpretação que não se sustenta no livro bíblico. Se Jacó foi enganado e se casou com Lia quando tinha escolhido Raquel, isso é só consequência da falta de caráter de Labão, pai das duas.

Maniqueísmo empobrecedor

Obviamente, é mais fácil contar uma história com mocinhos e vilões, mas nesse caso as escolhas só prejudicaram a trama. Raquel como vilã não convence. A atriz Thaís Melchior, que interpreta a personagem, é excelente, mas a história não combina.

Raquel foi enganada pelo pai e perdeu seu marido para a irmã na noite de casamento. Era para ser a única esposa de Jacó, mas teve que aceitar ser a segunda. Raquel, Lia e Jacó são vítimas de Labão, o único vilão possível nessa trama.

Gênesis, que em outras fases nos apresentou personagens mais complexos e que enriqueceram a trama, dessa vez apelou unicamente para o maniqueísmo. É fato que o cristianismo funciona dessa forma, assim como boa parte da dramaturgia popular. Porém, ao fazer essa escolha para a história de Raquel, a novela da Record ficou sem o que havia de melhor em fases anteriores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL