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Viaje de carro pela Carretera Austral, via cenográfica da Patagônia chilena

Carretera Austral, na Patagônia chilena - iStock
Carretera Austral, na Patagônia chilena
Imagem: iStock

Eduardo Vessoni*

Colaboração para o UOL

31/01/2020 04h00

Voltei à Carretera Austral exatos 10 anos depois de minha primeira incursão neste que é um dos roteiros mais cênicos do continente.

Exceto pela perda significativa de massa de gelo em glaciares e pelo avanço lento da pavimentação de alguns trechos, pouco parece ter mudado na rodovia que desbrava a Patagônia chilena.

São 1.240 quilômetros de extensão, entre Puerto Montt, a capital da Região dos Lagos, e Villa O'Higgins, na Patagônia (veja mapa). Mas a Carretera Austral não é estrada para viajar direto, é rota para apreciar sem pressa sua natureza bruta, isolada por acidentes geográficos como rios, glaciais e fiordes.

Paisagens incríveis descortinam-se na viagem de carro pela Carretera Austral - Jaime Bórquez/Divulgação
Paisagens incríveis descortinam-se na viagem de carro pela Carretera Austral
Imagem: Jaime Bórquez/Divulgação

Por essa via estreita e sem acostamento, que cruza áreas urbanas e rurais, chega-se a atrativos naturais famosos de Aisén, a região com menor densidade demográfica do Chile, com cerca de 0,8 habitante por quilômetro quadrado.

Tem glaciar que parece flutuar sobre paredões imponentes como o Ventisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, e piscinas naturais de águas quentes que surgem de afloramentos vulcânicos como as da Ensenada Pérez, aos pés do vulcão Macá e às margens do Fiorde Aisén.

Ventisquero Colgante, glacial suspenso no Parque Nacional Queulat - Jaime Bórquez/Divulgação
Ventisquero Colgante, glacial suspenso no Parque Nacional Queulat
Imagem: Jaime Bórquez/Divulgação

"Parte dessa água entra por fendas e atinge profundidade antes de retornar à terra por pressão, de forma aquecida, e aflorar na Ensenada Pérez", explica Miguel Ángel de la Fuente, guia do hotel Loberías del Sur.

Piscinas e águas quentes na Ensenada Pérez, aos pés do vulcão Macá e às margens do Fiorde Aisén - Eduardo Vessoni/UOL
Piscinas e águas quentes na Ensenada Pérez, aos pés do vulcão Macá e às margens do Fiorde Aisén
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

Tem ainda formações de mármore, esculpidas pelas águas do Lago General Carrera, no Santuario de la Naturaleza Capilla de Mármol, em Puerto Río Tranquilo, próximo da fronteira entre o Chile e a Argentina. Sem falar em uma cidade inteira sobre palafitas, como Caleta Tortel, no extremo sul do Campo de Gelo Norte, onde carros não circulam naquele povoado conectado por pontes de madeira.

Santuario de la Naturaleza Capilla de Mármol, em Puerto Río Tranquilo - Eduardo Vessoni/UOL
Santuario de la Naturaleza Capilla de Mármol, em Puerto Río Tranquilo
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

E se a carretera não leva para onde você precisa ir, pelo menos chega-se até o ponto mais próximo para então seguir por fiorde de águas calmas, em direção à Laguna San Rafael, outro clássico da Região de Aisén.

A partir de Puerto Chacabuco, o porto mais importante da região, navegam-se cerca de cinco horas por fiorde, canal e rio até essa lagoa de origem glacial, no Campo de Gelo Norte, a terceira maior massa de gelo do Hemisfério Sul.

Foca-leopardo: uma das espécies avistadas no passeio na Laguna San Rafael  - Jaime Bórquez/Divulgação
Foca-leopardo: uma das espécies avistadas no passeio na Laguna San Rafael
Imagem: Jaime Bórquez/Divulgação

Reserva da Biosfera pela UNESCO, o Parque Nacional Laguna San Rafael é visitado em pequenos botes que nos deixam bem próximos daquela muralha de gelo, entre 50 e 60 metros de altura, e com dois quilômetros de largura.

Navegação na Laguna San Rafael  - Eduardo Vessoni/UOL
Navegação na Laguna San Rafael
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

Vá com calma (e abastecido)

Seja em um roteiro mais independente ou com aqueles hotéis que cuidam de tudo para você, sempre terá uma Carretera Austral para lembrá-lo que quem manda ali é a própria estrada.

Tem setores com asfalto, sim, senhor; mas há também longos trechos de cascalho que exigem atenção ao volante. A velocidade deve variar entre 30 e 50 km/h, segundo motoristas experientes da região.

Nos trechos de cascalho da Carretera, a velocidade não deve ultrapassar os 50km/h - Eduardo Vessoni/UOL
Nos trechos de cascalho da Carretera, a velocidade não deve ultrapassar os 50km/h
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

Não há pedágios, mas, em certas horas do dia, entre às 13h e 17h, a estrada é fechada para o tráfego por conta de obras, como as da região de Cerro Castillo que, por fim, vê o asfalto chegar. Antes de pegar a estrada, informe-se com locais sobre possíveis bloqueios e horários.

A rodovia não tem iluminação, por isso é recomendado viajar sempre durante o dia.

Como muitos trechos não têm iluminação, recomenda-se viajar durante o dia - Eduardo Vessoni/UOL
Como muitos trechos não têm iluminação, recomenda-se viajar durante o dia
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

O abastecimento é outro ponto extremamente importante no planejamento de uma viagem pela Carretera Austral. Saia abastecido de Coyhaique a Puerto Río Tranquilo, onde fica a obrigatória Capela de Mármore. Até lá são 218 quilômetros sem nenhuma opção para abastecer.

Para quem dirige em direção ao sul, Cochrane é a última cidade com posto de gasolina. Dali, são mais de 200 quilômetros até Vila O'Higgins, a última cidade de toda a estrada com área para abastecimento.

Rio Simpson, em Coyhaique, a capital de Aisén, e principal cidade da Carretera Austral  - Eduardo Vessoni/UOL
Rio Simpson, em Coyhaique, a capital de Aisén, e principal cidade da Carretera Austral
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

Na Carretera Norte, o motorista encontrará postos também em Puerto Chacabuco, Puerto Aisén, Puerto Cisnes e Puyuhuapi.

Durante a temporada de inverno, é necessário carro com correntes e pneus com prego para aderência na neve. Veículos 4x4 já não são necessários, mas considere automóveis com suspensão elevada (lembre-se, certos trechos ainda parecem remanescentes dos anos 70).

A Carretera Austral, ou Ruta 7, é considerada a maior obra pública chilena do século 20 - Eduardo Vessoni/UOL
A Carretera Austral, ou Ruta 7, é considerada a maior obra pública chilena do século 20
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

Por la carretera

Essa é uma estrada ainda em construção e exige paciência de quem visita a região. Por isso, prepare um roteiro flexível, com folgas entre uma atração e outra. O clima na Patagônia pode virar a qualquer momento, cancelando passeios ou impedindo a continuação da viagem.

Dividida em Carretera Norte (Puyuhuapi, Parque Nacional Queulat, Puerto Chacabuco e Coyhaique) e Carretera Sur (Capilla de Marmól, Laguna San Rafael, Cochrane e Caleta Tortel), a estrada tem também atrações menos tradicionais.

Salto Barba del Viejo, no Parque Aikén del Sur, em Puerto Chacabuco  - Eduardo Vessoni/UOL
Salto Barba del Viejo, no Parque Aikén del Sur, em Puerto Chacabuco
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

Permita-se fazer paradas fora do programado, como o curioso cemitério chilote, em Baía Murta, próximo a Puerto Río Tranquilo, onde os corpos são enterrados em réplica da casa original do morto.

"Quando a região foi colonizada, muitos vinham do arquipélago de Chiloé, por isso vemos essas tradições chilotes", explica a guia Tamara Gallardo.

Com motorista

Mas se você não quiser dirigir por uma das estradas mais cenográficas do continente, a Patagônia é conhecida pelos bem estruturados hotéis que cuidam de tudo, de refeições a passeios aos atrativos mais distantes.

Nesta viagem, me hospedei no Loberías del Sur, em Puerto Chacabuco, estrategicamente situado em frente ao fiorde Aisén, de onde partem os catamarãs para as piscinas de águas quentes da Ensenada Pérez, a uma hora de navegação, e para a Laguna San Rafael.

Hotel Loberías del Sur, em Puerto Chacabuco  - Divulgação
Hotel Loberías del Sur, em Puerto Chacabuco
Imagem: Divulgação

Nessa típica construção patagônica, em um edifício com madeira nativa e ambientes aquecidos, o hóspede tem serviço de passeios já inclusos nas diárias, além de refeições e transfer do aeroporto de Balmaceda.

Cordeiro assado, no Parque Aikén del Sur, em Puerto Chacabuco  - Eduardo Vessoni/UOL
Cordeiro assado, no Parque Aikén del Sur, em Puerto Chacabuco
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL
No cardápio enxuto do hotel, tem programação para até uma semana de viagem pela Carretera, incluindo de clássicos como a Capela de Mármore e o Parque Nacional Queulat, e também exclusividades como trilha no Parque Aikén del Sur, com almoço com cordeiro no fogo de chão, e o Monumento Natural Cinco Hermanas, onde há piscinas naturais de água quente com direito a petiscos e pisco sour com vista para os fiordes.

Trilha no Parque Aikén del Sur, em Puerto Chacabuco  - Eduardo Vessoni/UOL
Trilha no Parque Aikén del Sur, em Puerto Chacabuco
Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

A estrada do ditador

Trechos sem asfalto exigem cuidado do motorista - Pablo Heimplatz/Unsplash
Trechos sem asfalto exigem cuidado do motorista
Imagem: Pablo Heimplatz/Unsplash
Embora a ideia de uma estrada longitudinal no Chile tenha tido início na primeira metade do século passado, o projeto só começou a tomar forma, literalmente, a partir de 1976, quando o general Augusto Pinochet ordenou a retomada dos estudos de viabilidade da construção de uma via que cortasse a região, de norte a sul.

Conhecida também como Ruta 7, a Carretera Austral é considerada a maior obra pública do século 20 em todo o Chile. Não só pelas dimensões e dificuldades em sua construção, mas também pela possibilidade de conectar povoados em áreas remotas.

O primeiro trecho foi inaugurado em 1982, um percurso de 420 quilômetros entre Chaitén e Coyhaique, e o segundo só viria seis anos depois, de Coyhaique a Cochrane.

Como chegar

A capital Coyhaique é a cidade com melhor estrutura e deve ser usada para planejamento de toda a viagem.

A cidade fica a 56 quilômetros, aproximadamente, do principal aeroporto da região, em Balmaceda, cujo terminal recebe voos de Santiago, Temuco, Puerto Montt e Punta Arenas.

Santiago é uma das principais conexões de voos para o sul do Chile - Getty Images
Santiago é uma das principais conexões de voos para o sul do Chile
Imagem: Getty Images

O voo direto entre Santiago e Balmaceda dura cerca de 2h15 e a rota é operada pela JetSmart, Latam e Sky.

Embora a maior parte da viagem seja terrestre, a estrada tem trechos que exigem travessia em balsas, como de Puerto Montt a Chaitén, na Carretera Norte (9 horas de viagem); e também em Puerto Yungay, entre Caleta Tortel e Villa Ohiggins, na Carretera Sul.

De Quellón, no extremo sul do arquipélago de Chiloé, a Puerto Chacabuco são longas (e cenográficas) 31 horas de navegação, com breves paradas em povoados isolados, como Melinka e Puerto Cisnes. Saiba mais: Naviera Austral.

Documentos para dirigir

Argentina

Para o motorista que deseja ir de carro desde o Brasil, é importante saber que, além dos documentos de identificação (passaporte ou RG) e da Carteira Internacional de Vacinação (pedida por Argentina e Chile), as autoridades argentinas exigem e recomendam:

  • Uso do cinto de segurança é obrigatório;
  • Extintor de incêndio pequeno;
  • Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo (CRLV);
  • Cadenas (correntes para as rodas do veículo em caso de neve);
  • Cambão ou cabo de aço;
  • Triângulo adicional;
  • Kit Primeiros Socorros;
  • Faróis baixos acesos (rodovias e dentro das cidades);
  • Seguro Carta Verde;
  • Carteira de Identidade ou Passaporte;
  • Apoio de cabeças em todos os bancos do veículo onde houver ocupantes;

Chile

O motorista brasileiro deve ter um seguro obrigatório de acidentes pessoais, conhecido como Seguro SOAPEX (Seguro Obrigatório de Acidentes Pessoais para Veículos Estrangeiros). Além disso, deve carregar dentro do carro um colete refletor e um triângulo a mais, como exige a Argentina. Já o restante da documentação do carro é mesmo que o exigido no Brasil.

Carteira Internacional de Habilitação - Luciano Nagel/UOL
Carteira Internacional de Habilitação
Imagem: Luciano Nagel/UOL
O automóvel deve estar no nome de quem vai dirigir, caso contrário precisa de autorização apostilada pelo cartório. Nos casos de financiamento e alienamento também precisa autorização com firma reconhecida em cartório e apostilada. Lembrando que para conduzir no Chile é necessário portar a Carteira Internacional de Habilitação, conhecida por PID (Permissão Internacional para Dirigir). As informações são do Consulado Geral do Chile em Porto Alegre.

A solicitação da PID deve ser feita em um Centro de Formação de Condutores (CFC) de residência ou domicílio do motorista. Em Porto Alegre, o documento custa R$ 61,58, sendo considerado o mais barato do Brasil. Já em São Paulo, o condutor terá que desembolsar R$ 303,71 e, na Bahia, R$ 341,78, segundo os dados dos Detrans de cada estado, consultados em 2020. O documento leva cerca de cinco dias úteis para ficar pronto.

* Com colaboração de Luciano Nagel