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Brasileiros viajam da Inglaterra à Mongólia em "corrida maluca" sem regras

Brasileiros (no carro ao centro) e mais aventureiros no Rally Mongol - Arquivo pessoal
Brasileiros (no carro ao centro) e mais aventureiros no Rally Mongol
Imagem: Arquivo pessoal

Priscila Carvalho

Colaboração para Nossa

06/05/2021 04h00

Quando você pensa em rali, provavelmente, a imagem que vem à cabeça são carros na lama, disputando corridas e algo bem profissional. Mas para o documentarista Raphael Erichsen, 42 anos, e seus três amigos, o conceito é bem diferente.

Eles resolveram experimentar o Rally Mongol, em que centenas de carros saem da Inglaterra e chegam até Ulan Bator, na Mongólia. Os veículos não são os melhores e este é o diferencial do evento.

A gente associa à velocidade, mas neste circuito é o oposto disso. Quem chega primeiro é o grande perdedor. E o mais curioso é que quanto pior o seu carro, melhor é", relembra rindo.

Outra curiosidade do rali são as "fantasias" que são colocadas nos automóveis. Os participantes podem colocar pelúcia, adesivo e outros acessórios. O importante é deixar a imaginação fluir.

E também não há qualquer recompensa ou prêmio em dinheiro para quem terminar a viagem. O intuito é levar carros ingleses até o país e doar os veículos para a instituição de caridade Lotus Charity.

Raphael (primeiro à dir.) e amigos brasileiros no Rally Mongol - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raphael (primeiro à dir.) e amigos brasileiros no Rally Mongol
Imagem: Arquivo pessoal

Nada de regras

A prova acontece desde 2004 e não existem muitas regras. "Não há rota definida e cada time faz o roteiro que quiser. A meta é chegar até a Mongólia", diz.

Com isso, os viajantes costumam demorar o tempo que querem e ainda vão conhecendo outros países pelo caminho. Alguns participantes viajam por quatro meses e nunca chegam. Os brasileiros levaram 45 dias para terminar o trajeto.

Paisagens do Rally Mongol - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Paisagens do Rally Mongol
Imagem: Arquivo pessoal

Para completar o trajeto até a Mongólia, Raphael e o grupo de amigos resolveram fazer a "rota do meio", que seguia pela Eurásia, passando pela Turquia, Rússia, Armênia, Cazaquistão, até chegar na Ásia. "Quando chegamos na Turquia, o Google Maps não achava mais. Eu liguei para organização do evento e o cara me falou 'não tem rota e rapidamente você vai se acostumar'", conta. Segundo ele, de fato, não tinha.

Mas chegar até o destino final não seria tão difícil, já que normalmente saem 300 carros da Inglaterra e alguns se cruzam pelo caminho. Ele conta que muitas vezes faziam amizades com outros viajantes e acabavam se divertindo e até recebendo ajuda quando o carro quebrava.

Raphael com um time de ingleses do exército britânico - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raphael com um time de ingleses do exército britânico
Imagem: Arquivo pessoal

Entre lobos e polícia

Durante a estadia no Cazaquistão, eles dormiam em barracas e se viravam para fazer macarrão instantâneo. Mas o que eles não sabiam é que existem burocracias no país e é necessário carimbar o passaporte todos os dias.

Como eles dormiram grande parte do tempo na estrada, nenhum deles recebeu os carimbos e na hora de deixar o país, o grupo foi questionado pela imigração. Na hora, a agente perguntou se eles não tinham medo dos lobos na região. "Depois que descobrimos que tinha lobos lá e que podia ter sido perigoso", diz Raphael.

O pôr do sol laranja do Cazaquistão - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O pôr do sol laranja do Cazaquistão
Imagem: Arquivo pessoal

Mas, para o documentarista, as pessoas ofereciam mais riscos do que os animais. Quando eles ainda estavam acampando na estrada, um grupo de capangas chegou até eles, com muitas armas e inclusive com a polícia. Eles ficaram sem entender o que estava acontecendo.

Eu achei que ia ser metralhado ali mesmo. Tem muita polícia corrupta e ficamos com medo".

Mesmo passando por esse sufoco, eles conseguiram sair ilesos e sem qualquer problema.

Ainda no país, eles foram presos pela polícia quando estavam hospedados em uma pensão perto da estação de trem na capital.

"As próprias pessoas da pensão que devem ter ligado para polícia porque não tínhamos todos os carimbos de todos os dias. Eles pegaram todos os nossos passaportes e ficamos umas 30 horas lá. Os agentes ainda pediam dinheiro para liberar o documento", conta.

Recepcionados por locais após 30 horas presos na fronteira da Mongólia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Recepcionados por locais após 30 horas presos na fronteira da Mongólia
Imagem: Arquivo pessoal

Todo dia um imprevisto

Raphael brinca que tem história para contar de todos os dias da viagem. E isso inclui, claro, muitos outros perrengues. Um dos principais foi na fronteira da Mongólia, onde eles ficaram presos por dois dias.

Era um fim de semana e eles fecharam a fronteira com todo mundo do rali lá e foram embora. Tinha umas 50 pessoas e eles não conseguiram analisar os documentos de todos. Virou uma rave", relembra.

E quando acharam que, finalmente, iriam chegar na capital Ulan Bator, o carro parou de funcionar. E, para a surpresa de todos, a "única" regra que deve ser cumprida durante o evento é não abandonar o automóvel em qualquer região. "O carro quebrou no meio do deserto de Gobi".

Por causa disso, Raphael seguiu atrás de um guincho e demorou mais de oito horas para receber ajuda. Depois de muito tempo andando, ele finalmente conseguiu uma assistência e, para voltar, usava a latitude e longitude.

Amigos na Mongólia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Amigos na Mongólia
Imagem: Arquivo pessoal

Mas como toda hora era um um imprevisto novo, o motorista do guincho começou a fazer um caminho diferente e ele achou que seria sequestrado. Durante todo esse tempo, já havia passado mais de 15 horas. "Eu voltei para o ponto original e meus amigos estavam preocupados. No final, deu certo e a gente acabou se encontrando em um ponto", diz Raphael.

Depois, para chegar até a capital da Mongólia, eles alugaram uma van russa e ficaram mais de 40 horas dentro do veículo. "A gente veio embora o mais rápido possível. Ficamos só dois dias lá e depois voltamos de avião".

Mesmo passando por alguns apertos, Raphael conta que a viagem rendeu bons frutos profissionais, pessoais, além de memórias e histórias incríveis. Depois de toda essa experiência, lançou o livro "Tudo Errado" (Editora Impossível) e uma série documental em um canal fechado.

A coisa mais importante é enxergar o mundo pelo nosso olhar, principalmente quando você tem pouca informação sobre algum país", finaliza.