PUBLICIDADE
Topo

É permitido se mudar na quarentena? Os desafios da casa nova na pandemia

A fotógrafa Fernanda Cirelli passou por uma mudança durante a quarentena em São Paulo - Arquivo Pessoal
A fotógrafa Fernanda Cirelli passou por uma mudança durante a quarentena em São Paulo
Imagem: Arquivo Pessoal

Gustavo Frank

De Nossa

03/06/2020 04h00

A fotógrafa Fernanda Cirelli já tinha os planos de se mudar há um bom tempo, mas a situação financeira fez com que ela esperasse o "momento certo" para encontrar um novo lar. O momento, não tão certo quanto ela esperava, foi durante a quarentena imposta na capital de São Paulo em consequência do coronavirus.

A procura, de fato, começou em agosto de 2019 e levou tempo, já que priorizava um local com todas as vantagens que todos nós procuramos na hora de alugar um apartamento.

De surpresa, a fotógrafa descobriu que um dos seus amigos estava se mudando e o espaço ficaria vago para o próximo locatário. Nesse caso, ela.

"O apartamento liberou e fui visitar no dia 10 de março, no mesmo dia fiz a proposta que foi aceita uns dias depois. Ufa!", conta ao Nossa. "Peguei as chaves, fiz vistoria no apartamento e assinei o contrato no dia 19 de março (foi tranquilo com o contrato, saiu rápido) e no dia seguinte saiu o decreto sobre a quarentena em SP que começaria no dia 24".

Percurso com dificuldades

Da Zona Leste para a Zona Oeste, Fernanda estava com o aluguel contando e precisava se mudar "o mais rápido possível". Tudo isso, envolvendo o fato de que precisaria se desfazer de algumas coisas, pelo tamanho da nova casa, e fazer toda a logística de troca.

Fernanda - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Fernanda precisou readaptar quase todos os planos da mudança em consequência do coronavírus
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu já estava em pânico", relembra ela, que contaria com a ajuda da mãe, que faz parte do grupo de risco. "Todo mundo no isolamento social e eu precisava resolver coisas na rua, morrendo de medo de pegar a doença que a gente ainda estava vendo chegar".

As únicas mobílias e decorações que a fotógrafa precisaria comprar eram as do quarto, já que as antigas eram embutidas. Com um aluguel mais caro que o anterior, ela precisou desembolsar ainda mais dinheiro com uma empresa de mudança e um maior número de ajudantes para fazer com que tudo fosse mais rápido — no final, não durou nem duas horas. Além disso, conversou com os responsáveis pelo edifício, que comunicaram todos os moradores sobre o horário da mudança e recomendaram evitar a circulação nos corredores e ambientes comuns nesse período.

"Eu tive uma semana para encaixotar tudo, desmontar a casa. Consegui comprar meus móveis do quarto no último dia em que a loja estava aberta. Precisava instalar redes de proteção, pois tenho dois gatos, varal e pedir a instalação da internet. Afinal, não ia dar para ficar de quarentena sem internet, né?", relembra. "Marquei tudo no mesmo dia e na sequência já fiz faxina. Consegui que o zelador pintasse o apartamento, mas faltou trocar a pia da cozinha e do banheiro que o proprietário iria fazer".

Morando em Perdizes agora, depois de passar os dias exaustivos, estresse e profunda higienização, Fernanda precisou lidar ainda com atraso nas entregas de alguns móveis, lasanha congelada por alguns dias e sacolas com roupas amontoadas.

"O processo da mudança em si foi bem exaustivo, acho que por ter que fazer tudo correndo e sozinha misturado com o medo da doença", diz. "Mas depois que mudei ficou tudo bem, agora é esperar o tempo certo pra se começar a viver de novo, matar as saudades das pessoas e terminar de arrumar minha casa nova. No fim, mudar na quarentena foi o 'momento certo', por incrível que pareça".

É permitido se mudar na quarentena?

Mudar de casa - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Antes de fazer a mudança, é necessário entrar em contato com o condomínio para tirar as dúvidas que surgirem em consequência do coronavírus
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Em conversa com o Dr. João Pedro Alves Pinto, especialista em Direito Imobiliário do escritório Meirelles Milaré Advogados, o advogado contou ao Nossa que não há medidas burocráticas que impeçam a mudança.

"Existe apenas uma recomendação da vigilância sanitária de higienização e distanciamento", conta. "No entanto, não há lei ou decreto que impeça essa atividade. O que existe é uma recomendação, caso a mudança não seja emergencial, para esperar o afrouxamento da quarentena".

João Pedro recomenda ainda que, se possível, a pessoa faça a mudança por conta própria, sem o contrato de carreto ou empresas. Ele cita ainda um caso de Santa Catarina, em que uma mulher precisou entrar com um ação após ter sido barrada pelo síndico do prédio para pegar seus pertences.

"Uma condômina, que ia fazer uma mudança, ao retornar no condomínio de que estava se mudando para pegar os seus pertences, foi proibida pelo síndico de fazer a locomoção dos móveis", cita. "Ela precisou entrar com uma ação para poder entrar no apartamento e, no caso, a juíza ponderou que não existe proibição ou respaldo em lei que a impediria de fazer isso".

O advogado, por fim, reforça a comunicação entre o locatário, o responsável pelo condomínio e a imobiliária para evitar problemas futuros.

"É preciso fazer uma negociação antes de tudo", comenta. "Mas não há impedimento na lei que trate disso especificamente. É permitido realizar, sim. Existe uma orientação, não uma proibição".

Impacto no mercado de aluguéis

Ao Nossa, o Quinto Andar, considerada a maior imobiliária digital do país, afirmou que o coronavírus inevitavelmente impactou as mudanças. A empresa reforçou a necessidade de estar atento às regras do condomínio e de segurança da circulação no local.

"Para evitar aglomeração de muitas pessoas na otimização da mudança, o ideal é que quem vai se mudar organize e deixe tudo pronto com antecedência", afirmou a assessoria sobre os cuidados tomados. "Após a mudança é muito importante limpar a casa, pois os objetos podem ter sido tocados por várias pessoas e a casa pode ter sido visitada por várias pessoas antes".

Ainda segundo a empresa de locação e venda de imóveis, a pandemia mudou o cenário no mercado. No entanto, a busca pelo digital, como muitos têm sobrevivido na quarentena, foi uma aliada.

"Houve queda na procura por imóveis, com certeza", comunicou. "Mas para um patamar melhor do que aquele que, no início da pandemia, a gente esperava. E ela já vem se recuperando'.