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Hostilidade e ameaça de mísseis: os perrengues de brasileiros no exterior

Adriano Leal, na Tailândia, divide quarto de hostel com mais sete pessoas enquanto aguarda o repatriamento - Arquivo pessoal
Adriano Leal, na Tailândia, divide quarto de hostel com mais sete pessoas enquanto aguarda o repatriamento
Imagem: Arquivo pessoal

Marcel Vincenti

Colaboração para Nossa

02/04/2020 04h00

A pandemia de coronavírus gerou, subitamente, cancelamentos de voos em todo o mundo e, com isso, deixou milhares de turistas "ilhados" em longínquos países do globo, com grandes dificuldades de voltar para casa. De acordo com o Itamaraty, havia, até o dia 1 de abril, 5,8 mil brasileiros aguardando repatriação.

Muitas destas pessoas encontram-se, atualmente, em países com ambientes nada amigáveis para turistas, seja pelo perigo da disseminação do coronavírus, seja por causa da hostilidade com que a população vem tratando estrangeiros, vistos como possíveis vetores da doença.

A seguir, veja como alguns viajantes estão se virando nestes lugares durante a crise e depoimentos dos que conseguiram voltar.

Adriano leal - tailandia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Adriano Leal, 28 anos
Profissional do mercado de turismo

Onde está: preso em Bangcoc, na Tailândia, à espera de um voo de repatriação.

Situação crítica: com pouquíssimo dinheiro sobrando, Adriano está dormindo em um precário hostel, dividindo o quarto com outras sete pessoas (todas desconhecidas). "Estou com muito medo, pois, no hostel, é impossível se isolar e o risco de contágio é muito maior. E todos os dias chegam hóspedes novos. Você não sabe de onde eles vêm e se estão contaminados. Quando alguém tosse, é assustador. Já tive depressão e síndrome do pânico, o que deixa tudo mais complicado. Para mim, é uma luta psicológica 24 horas por dia".

Como está se virando: quase sem dinheiro, vive de doações de outros viajantes que passam pelo hostel. "Também estou usando máscara diariamente e tentando economizar ao máximo na alimentação". Na hora da fome, tem apelado para as lojas de conveniência 7-Eleven, onde é possível comprar lanches por 25 baht (aproximadamente R$ 4).

Rodrigo Airaf - india - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Rodrigo Airaf, 26 anos
Editor de mídias sociais

Onde está: preso em Jaipur, na Índia, à espera da repatriação.

Situação crítica: Rodrigo conta que parte da população indiana tem tratado turistas com grande hostilidade, acusando-os de disseminadores do coronavírus no país. "Há policiais, inclusive, que tratam os estrangeiros como se fossem todos portadores do vírus". Em contato com outros brasileiros ilhados na Índia, ele diz conhecer diversos conterrâneos que já foram hostilizados pela polícia local. E há, logicamente, a preocupação com a saúde: "a Índia tem um potencial epidêmico gigantesco, porque possui uma população enorme e pouca estrutura sanitária. Não acho que eu seria bem atendido em um hospital local caso fosse contaminado com o coronavírus".

Como está se virando: apesar do clima de hostilidade, Rodrigo tem recebido uma ajuda essencial de um grupo de moradores: há indianos trabalhando voluntariamente no hostel onde ele está hospedado, ajudando-o a conseguir comida e evitando que tenha que sair à rua [neste momento, a Índia está sob um rigoroso lockdown, com a população confinada em casa]. Além disso, pela impossibilidade de ir à farmácia, está racionando um medicamento de uso constante. "Eu tinha que tomar 150 miligramas por dia, mas estou consumindo só 50 miligramas".

Rafael Arábia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Rafael Dallacqua, 33 anos
Economista

Onde está: preso em Riad, na Arábia Saudita, à espera de um voo de repatriação.

Situação crítica: sem ter como sair da Arábia Saudita por causa dos cancelamentos de voos e do fechamento de fronteiras, Rafael está convivendo com a atmosfera belicosa que existe no Oriente Médio - e que, assim como o covid-19, pode colocar sua integridade física em risco. A cidade de Riad foi alvo, no dia 28 de março, de um ataque de mísseis disparados desde o Iêmen. Os mísseis foram interceptados e destruídos no céu de Riad, mas seus detritos teriam ferido pelo menos duas pessoas em solo.

Como está se virando: "A viagem que estou fazendo é de baixo custo, mas a Arábia Saudita não é um país barato", conta Rafael. "Seria um desafio ter que pagar acomodação por tempo indeterminado". Ele está hospedado gratuitamente na casa de um egípcio que conheceu no aplicativo Couchsurfing. "Meu anfitrião disse que posso ficar na casa dele por quanto tempo eu quiser, que ele entende a situação". Rafael também relata que há um toque de recolher na Arábia Saudita, das 15 às 7 horas do dia seguinte. Mas ele tem saído pouco à rua, não apenas por receio de contágio, mas por causa do clima local. "Faz muito calor".

Rogerio, Camila e Cláudia - Egito - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Rogerio Silveira (41 anos), Camila Silveira (33), Claudia Guidetti (41)
Produtores de conteúdo de viagem

Onde estão: presos no Cairo, Egito, à espera de um voo de repatriação.

Situação crítica: no mês de março, depois de um cruzeiro pelo rio Nilo, o trio foi impedido de ficar em um hotel da cidade de Luxor. A razão? Dias antes, haviam sido registrados casos de coronavírus em um dos cruzeiros do Nilo. "O dono hotel também falou que tinha recebido um comunicado das autoridades locais, dizendo que não era para aceitar turistas em seu estabelecimento", conta Camila. Sem hospedagem em Luxor, eles decidiram pegar um trem noturno para a cidade do Cairo, uma jornada de até 10 horas.

Como estão se virando: eles conseguiram alugar um apartamento via Airbnb no Cairo. A cidade está com toques de recolher e comércio quase totalmente paralisado. "Também começamos a perceber que não estávamos mais sendo bem aceitos", conta Camila. Rogerio relata que está "sentindo um grau de hostilidade" vindo da população e chegou a ser confrontado por um senhor egípcio na rua, que começou a gritar em árabe com ele. "Também já fomos chamados de 'corona' na rua", diz o brasileiro. Por esta razão e para evitar risco de contágio, os três estão evitando sair do apartamento.

Mike Weiss - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Mike Weiss, 36 anos
Nômade digital

Onde está: estava no Paquistão no começo da pandemia, mas conseguiu voltar para casa um pouco antes do fechamento das fronteiras e do cancelamento em massa dos voos.

Situação crítica: Mike estava viajando no Paquistão quando a pandemia começou a paralisar o mundo. Enquanto o avanço do covid-19 o deixava extremamente preocupado, ele via a população paquistanesa aglomerando-se em locais públicos e beijando a estrutura de mausoléus de líderes religiosos - algo comum na cidade de Multan, que visitou. "Tem muita gente por metro quadrado no país e os paquistaneses gostam de contato físico", observa. "Todos os dias, as pessoas queriam me dar a mão ou tirar selfie comigo, como um gesto de hospitalidade. Eu me sentia mal em negar. Então, sempre carregava álcool em gel, para diminuir o risco de contágio".

Como se virou: no meio de março, começou a ouvir notícias de muitos cancelamentos de voos. "Percebi que o mundo estava se fechando", conta. Foi aí que decidiu antecipar sua volta para Lisboa, onde mora. "Eu vi que, se ficasse mais tempo no Paquistão, iria terminar preso no país. Os hotéis locais poderiam começar a cobrar preços abusivos e existia a chance de eu ter que usar o sistema de saúde paquistanês, que é precário". Atualmente, Mike está em quarentena em seu lar lisboeta.

Márcio no Irã - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Márcio Forti, 32 anos
Historiador e analista de relações internacionais

Onde está: esteve no Irã até o dia 20 de março e vivenciou a grave crise sanitária que o coronavírus instalou no país.

Situação crítica: Márcio chegou a Teerã no dia 8 de fevereiro para um curso de pós-graduação em língua, história e literatura persa. Mas a rotina logo passou a ser regida pelo covid-19. "A partir do final de fevereiro, as coisas começaram a piorar muito, com o número de casos de coronavírus subindo às nuvens", lembra ele. "O governo pediu que ficássemos em casa, o comércio fechou e começou a ficar difícil encontrar itens essenciais". Márcio também aponta que as fragilidades do sistema de saúde iraniano o preocuparam. "As sanções internacionais impostas sobre o Irã fazem faltar instrumentos de trabalho nos hospitais do país, o que prejudica o atendimento aos contagiados", diz.

Como se virou: enquanto o número de infectados e mortes crescia exponencialmente [no fim da primeira semana de março, eram cerca de 6 mil contagiados e 150 mortes no Irã], Márcio teve que contar com uma valiosa ajuda de amigos iranianos para sair o mínimo possível à rua. "Eles começaram a levar comida até o alojamento estudantil em que eu morava. E quando me convidavam para jantar em suas casas, mandavam um táxi para me pegar. Tive a sorte de conhecer pessoais legais que fizeram de tudo para me ajudar e que chegaram a se oferecer para me emprestar dinheiro caso eu precisasse".

Lara brasileiros - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Lara Lei, 27 anos
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Onde está: ficou ilhada na Tailândia até o dia 30 de março, quando conseguiu pegar um voo de retorno ao Brasil.

Situação crítica: Lara estava viajando com seus pais quando começou a receber notícias de fechamento de fronteiras e cancelamento de voos. "No dia 23 de março, resolvemos comprar passagens para voltar, mas, no dia seguinte, o voo foi cancelado. Daí ouvimos que poderia haver um lockdown na Tailândia. Ficamos desesperados". Lara conta que seu pai tem 60 anos e que ela e sua mãe são asmáticas. "Estávamos em um hotel barato em Bangcoc e, com grande parte do comércio fechado, tínhamos que nos alimentar à base de lanches e miojo comprados em lojas de conveniência. Fiquei preocupada, pois esta má alimentação poderia baixar nossa imunidade. Passamos por uma instabilidade emocional muito grande, com crises de ansiedade e angústia".

Como se viraram: após muita aflição, Lara e seus pais conseguiram encontrar passagens caríssimas, por rotas em espaços aéreos que ainda estão abertos. Cada bilhete custou mais de R$ 8 mil.

Soluções para os brasileiros ilhados

Muitos brasileiros vêm cobrando mais agilidade do Ministério das Relações Exteriores para ajudar a resgatá-los de países remotos do mundo.

Turistas que se encontram na Índia, por exemplo, têm publicado pedidos de socorro na página do Itamaraty no Facebook, dizendo que temem pela sua integridade física (em um país marcado por episódios de hostilidade contra estrangeiros) e que estão passando por problemas de saúde e de falta de acesso a alimentos e a dinheiro.

Já Rafael Dallacqua, ilhado na Arábia Saudita, reclama que tem recebido informações desencontradas do Itamaraty e da embaixada brasileira em Riad, o que impossibilita ter uma previsão de quando sua situação será resolvida.

Rogerio Silveira, atualmente preso no Cairo, diz que "o Itamaraty tem respondido nossas mensagens [em relação à possibilidade da realização de um voo de repatriação para o Brasil]. Porém, às vezes são respostas muito padronizadas e vagas. Hoje, nos sentimos mais desamparados do que amparados aqui". Para Camila Silveira, que está com Rogerio, "ainda não sabemos quais os planos do Itamaraty para tirar a gente do Egito".

O Ministério das Relações Exteriores, por sua vez, afirma que está trabalhando para trazer os viajantes brasileiros de volta para o país. De acordo com a instituição, aproximadamente 10 mil brasileiros já foram repatriados com o auxílio do governo brasileiro.

O Itamaraty também criou um espaço em seu Portal Consular com orientações aos brasileiros no exterior afetados pelo covid-19. Para mais informações, acesse o portal.