Terra à vista!

Terra à vista!

Siga nas redes
Só para assinantesAssine UOL
Reportagem

Ninguém passa fome nessa cidade graças a 100 mil refeições grátis por dia

31º37'N, 74º52'L
Harmandir Sahib
Amritsar, Punjab, Índia

Pense em uma grande cozinha comunitária. Imagine uma ainda maior, e multiplique isso. Talvez esse hipotético lugar não chegue à altura de uma cozinha que existe de verdade, na Índia, e que serve até 100 mil refeições por dia.

É muita coisa. É como se toda a população de Assis (SP), Itaperuna (RJ), Ipojuca (PE) ou Caldas Novas (GO) fosse comer em uma mesma praça de alimentação no mesmo dia.

A origem dessa demonstração descomunal de caridade está no centro da própria história da cidade onde o templo fica, em Amritsar, no noroeste da Índia. Está no centro, também, do sikhismo.

A megacozinha fica no Harmandir Sahib, mais conhecido como Templo Dourado, que é um dos "gurdwaras" mais sagrados do sikhismo. "Gurdwara" é o equivalente aos templos dessa religião, mas ele tem algumas diferenças notáveis com outros credos. Não existem sacerdotes no sikhismo e também não se reza no "gurdwara". Esses lugares funcionam mais como um centro comunitário, aberto a todos. Inclusive aos que não seguem a religião.

Que religião é essa?

Homem faz as preces em frente ao Templo Dourado
Homem faz as preces em frente ao Templo Dourado Imagem: Sean Robertson/Unsplash

Nanak nasceu em uma família hindu, em 1469, em uma vila no Punjab, região histórica hoje dividida entre Índia e Paquistão. Segundo a tradição, aos 30 anos Nanak teve uma revelação divina e passou os 25 anos seguintes viajando e pregando entre a Índia e a Arábia.

O Punjab recebia influência dos mundos hindu e islâmico, e a fundação do Império Mogol nos últimos anos da vida de Nanak acentuou o desejo por uma "terceira via" religiosa. O Império Mogol (ou Mugal) foi uma potência muçulmana que se expandiu pelo subcontinente indiano de 1526 até ser conquistado, no século 19, pelos britânicos.

Continua após a publicidade

Nanak estava desiludido com o que ele via como uma ênfase exagerada em peregrinações e reverências a profetas e santos. Achava que isso atrapalhava o relacionamento direto com Deus.

Passou a ser chamado pelos seguidores de Guru Nanak. Depois dele vieram outros nove gurus. Os fiéis dessa nova religião ficaram conhecidos como sikhs, uma palavra do sânscrito para "aprendiz".

Com 1,1 milhão de habitantes, Amritsar é uma das maiores cidades do Punjab e um dos locais mais sagrados do sikhismo. O Templo Dourado é seu edifício símbolo e cartão postal.

Ele começou a ganhar forma no século 16, quando o quarto guru sikh comandou a construção da "sarovar" (chamada em outras regiões de "pushkarini"), espécie de piscina sagrada típica de templos indianos. Mas a primeira versão do templo não durou muito.

Pintura do guru Arjan observando a construção do Templo Dourado
Pintura do guru Arjan observando a construção do Templo Dourado Imagem: Wikimmedia Commons

O "gurdwara" foi reconstruído algumas vezes, por causa da violência religiosa que marcou a região. Em 1699, frente a essa realidade, surgiu a ordem Khalsa, cuja essência é lutar pela justiça social - às vezes, literalmente.

Continua após a publicidade

No tempo dos dez gurus, os sikhs foram perseguidos por hindus e muçulmanos, então o décimo e último desses líderes religiosos, Guru Gobind, fundou a Khalsa para difundir o ideal de homens santos que soubessem agir como soldados quando necessário.

A ordem Khalsa estabeleceu costumes e símbolos famosos, associados hoje a todos os sikhs, como a barba e o cabelo compridos, o turbante e a espada. Ao longo do século 18, as tropas sikhs enfrentaram as forças do Império Mogol e de outro Estado poderoso muçulmano que surgiu naqueles tempos, o Império Afegão. Ambos invadiram Amritsar e destruíram o Templo Dourado.

No século 19, quando os sikhs conquistaram um país para chamar de seu, o Reino do Punjab, o templo foi reconstruído em mármore e cobre e ganhou uma cobertura com folhas de ouro, ganhando o aspecto e o nome que tem hoje. Esse reino, porém, durou apenas 50 anos: acabou em 1849, quando os ingleses anexaram o Punjab à Índia britânica.

Com 1,1 milhão de habitantes, Amritsar é uma das maiores cidades do Punjab
Com 1,1 milhão de habitantes, Amritsar é uma das maiores cidades do Punjab Imagem: Sehaj #14/Unsplash

Isso fomentou o surgimento de movimentos nacionalistas políticos ancorados no sikhismo. Em 1919, uma manifestação pacífica foi brutalmente interrompida pelos britânicos, que adicionaram mais um evento trágico à sua passagem pelo subcontinente. O Massacre de Jallianwala Bagh, um jardim histórico próximo ao Templo Dourado, deixou algo em torno de mil mortos.

Nas décadas seguintes, os sikhs lutaram por mais autonomia. A partida dos britânicos e a consequente partilha dos territórios, que criou um Estado majoritariamente hindu (Índia) e outro islâmico (Paquistão), com o Punjab dividido entre os dois, complicou ainda mais a situação.

Continua após a publicidade

Segundo a Anistia Internacional, desde que grupos armados sikhs se organizaram para lutar por um novo Estado independente, em 1983, as violações de direitos humanos aumentaram no Punjab. De um lado, esses grupos assassinaram policiais e políticos e organizaram atos terroristas. Do outro, as autoridades indianas são acusadas de deter pessoas ilegalmente por meses ou até anos, torturá-las e "desaparecer" com elas.

Em 1984, a primeira-ministra Indira Gandhi ordenou a invasão do Templo Dourado para capturar o líder do movimento separatista. Centenas de sikhs foram mortos na ocasião.

Meses mais tarde, a primeira-ministra foi assassinada pelos próprios guarda-costas. Eles eram sikhs.

Tantas tretas geopolíticas e religiosas acabaram deixando outros aspectos do sikhismo à sombra. Os sikhs podem ser mais conhecidos pelos seus soldados-santos, mas a essência da religião está na "seva", o serviço voluntário prestado nos "gurdwaras".

Desde o princípio, apesar da vida de castidade e sem vícios, os membros da ordem Khalsa não renunciavam à vida cotidiana. Era o contrário: tinham que desempenhar papel ativo na comunidade, desenvolvendo uma consciência social.

Por isso, ajudar a manter a ordem do templo, lavar o chão e outras atividades do tipo são comuns. É aqui que entram as cozinhas comunitárias.

Continua após a publicidade

Que lugar é esse?

A refeições grátis sendo servidas no templo
A refeições grátis sendo servidas no templo Imagem: Wikimedia Commons

O conceito de "seva" em Amritsar está em outro nível, que deu uma fama especial à cidade. Na Índia, o senso comum diz que ninguém dorme com fome em Amritsar.

No "langar" (cozinha comunitária) do Templo Dourado, as refeições são servidas todos os dias da semana, 24 horas por dia. Todas as pessoas são bem-vindas e se sentam no chão para comer, a fim de demonstrar igualdade - os sikhs, aliás, condenam o sistema de castas do hinduísmo.

Uma tropa de voluntários faz essa cozinha gigante funcionar de maneira serena, porém com rígida disciplina, segundo uma reportagem da BBC. As refeições servidas são simples e nutritivas, com lentilha, um guisado de grão-de-bico, iogurte e pão ázimo.

Um batalhão trabalha todos os dias para preparar as comidas e limpar os utensílios
Um batalhão trabalha todos os dias para preparar as comidas e limpar os utensílios Imagem: Getty Images/iStockphoto
Continua após a publicidade

Homens, mulheres, crianças e velhos comem em pratos de metal, sentados de pernas cruzadas em salões que abrigam cerca de 200 pessoas. As refeições duram em média 15 minutos, e assim que um grupo sai os voluntários limpam o espaço para receber o próximo.

Atualmente, viajar para o Punjab é considerado seguro, mas no ano passado houve um novo susto. Três explosões, sem vítimas, atingiram o Templo Dourado. As motivações nem os autores foram revelados.

As bombas, caseiras, foram instaladas em latas de um energético chamado Hell. Uma escolha interessante, já que os sikhs não acreditam em inferno.


Índice de posts da coluna Terra à Vista (explore o mapa):

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes