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Um tsunami com ondas de 100 m ameaça engolir cidade. E ela está preparada!

62º06'N, 7º12'L
Geiranger
Stranda, Møre og Romsdal, Noruega

Antes de estrear nos cinemas, o filme "A Onda" ("Bølgen", no original) foi exibido com exclusividade para os habitantes da região onde a história se passa, no oeste da Noruega. É que o longa de 2018 narra acontecimentos catastróficos com chances reais de acontecer. Na verdade, há especialistas que já nem falam em "se", mas em "quando" isso vai acontecer.

A montanha de Åkernes se destaca por dois motivos na região. Aos seus pés fica uma fazenda centenária, já abandonada, mas preservada por representar a cultura rural dos fiordes noruegueses. No alto, há uma fenda ameaçadora na rocha, crescendo a uma taxa de quase 9 centímetros por ano.

Algum dia, a rachadura vai derrubar parte da montanha em um fiorde de 70 metros de altura, o que provocaria uma catástrofe enorme, talvez um dos maiores tsunamis de que se tem registro. Seria uma nova calamidade em uma região que está familiarizada com isso.

A linha roxa mostra o ponto da montanha em que está a rachadura
A linha roxa mostra o ponto da montanha em que está a rachadura Imagem: Frode Inge Helland /Reprodução Wikipedia

Em 1905, os assentamentos de Bødal e Nadal, ali pertinho, foram dizimados por uma avalanche que provocou enormes ondas, a maior delas de 40 metros de altura. Metade da população morreu. Em 1936, a mesma história: 1 milhão de metros cúbicos de rochas caiu de uma altura de 800 metros em um lago. A avalanche de pedras criou um tsunami, cuja maior onda atingiu 74 metros de altura, destruindo fazendas e casas e matando pessoas às dúzias, como explica o geólogo Christer Hoel neste site.

Mas, segundo alguns modelos, o desastre de Åkernes pode causar ondas ainda maiores, que passariam de 100 metros. Engoliria casas, escolas e fazendas. As partes mais baixas de vilas como Geiranger, considerada patrimônio da humanidade pela Unesco, virariam entulho e escombros.

O desastre pode acontecer daqui a décadas. Ou no ano que vem. De qualquer forma, as cidades e vilarejos estão preparados com sistemas de alarmes que deverão dar tempo suficiente para as pessoas evacuarem a área em segurança. Assim que os sensores a laser detectarem uma aceleração na rachadura, os 10 mil habitantes do entorno serão notificados.
Se o sistema não funcionar? A Noruega pode sofrer o desastre mais mortífero de sua história.

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Geiranger, na Noruega
Geiranger, na Noruega Imagem: alxpin / iStock

Deslizamentos do tipo são um desastre natural que está se tornando mais comum com as mudanças climáticas. O aumento das chuvas e o derretimento do permafrost, solo congelado encontrado no extremo norte do planeta, está encharcando fendas de rochas, o que é a fagulha necessária para disparar esses tsunamis causados pelo despencamento de pedras.

Para enfrentá-los, a experiência humana já trouxe alguns aprendizados.

Em 1963, uma rocha caiu do Monte Toc, na Itália, e atingiu a barragem de Vajont, uma das mais altas do mundo. A água passou sobre a barragem, inundou o vale e matou 2 mil pessoas. A tragédia inspirou o Canadá, outro país sujeito a acidentes do tipo, a desenvolver um método de drenagem de água para conter deslizamentos de terra. Testado pela primeira vez em 1987, na Colúmbia Britânica, o sistema se mostrou bem-sucedido.

Nova Zelândia e Suíça também criaram os seus, e a Noruega está testando uma forma semelhante de bombear para fora a água da chuva que se infiltra nas montanhas.

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Qualquer que seja o mecanismo de defesa e prevenção, ele vai precisar funcionar se o país quiser manter uma das paisagens mais impressionantes da Terra. Os vilarejos nos pés dos fiordes de Geiranger e Naeroy dependem disso.

Que lugar é esse?

Vila na base das montanhas do fiorde de Geiranger, Noruega
Vila na base das montanhas do fiorde de Geiranger, Noruega Imagem: lsantilli / iStock

Geiranger e Naeroy estão entre os fiordes mais profundos e estreitos do mundo. As paredes rochosas brilhantes se elevam a até 1.400 metros acima do Mar da Noruega e, em alguns pontos, chegam a 500 metros abaixo do nível do mar. Com uma porção de cachoeiras, florestas temperadas, lagos glaciais, geleiras e montanhas escarpadas, eles são considerados o arquétipo de fiorde.

Geiranger é uma estância essencialmente turística desde que um cruzeiro que levava a rainha consorte Luísa, em 1869, descobriu esse pedacinho escondido nos fundos dos fiordes.

Hoje ela é o terceiro maior porto de cruzeiros da Noruega. Na temporada turística, que dura quatro meses, cerca de 300 mil pessoas visitam a cidade, que tem apenas 230 habitantes.

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Quase o mesmo número de pessoas, 200, morreram em avalanches e deslizamentos ao longo do último século. Mesmo com tragédias como as de 1905 e 1936, e com a ameaça de Åkernes, os habitantes não abandonaram a cidade.

Teve quem foi embora, é verdade. Mas quem ficou construiu suas casas fora do caminho que as avalanches percorrem, cavou abrigos para se proteger, e só.

A postura dessas pessoas me lembra o que me disseram moradores de áreas próximas aos lindos vulcões de Los Lagos, no Chile. Se não tinham medo de viver ao lado desses monstros? Medo eles têm é de morrer em um lugar que não seja bonito assim.

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Errata:

o conteúdo foi alterado

  • Diferentemente do publicado, a rocha que caiu no Monte Toc, na Itália, apenas atingiu a barragem, mas não chegou a destrui-la. A água passou sobre a barragem e inundou o vale.

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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